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Antes de avançar, convém estabelecer, no contexto jurídico-epistemológico, a diferenciação entre a Teoria Geral do Processo, a Ciência Processual e o Direito Processual. A mencionada diferenciação permitirá uma compreensão mais adequada da linguagem e das concepções teóricas trabalhadas ao longo da pesquisa.

Por teoria, pode-se definir uma estrutura (conjunto) sistemática e ordenada de conceitos (representações ideais/abstratas) direcionados a descrever (decodificar a realidade analisada em linguagem), interpretar (atribuir um significado linguístico ao fenômeno analisado e torná-lo inteligível88), valorar (atribuir uma qualidade ao fenômeno analisado) e,

eventualmente, construir (modificar) ou permitir a reconstrução do fenômeno físico, cultural ou ideal (lógico). Nas palavras de Lourival Vilanova, a autêntica teoria corresponde a todo "sistema de proposições orientado para um objeto com fim cognitivo"89.

Nessa ordem de ideias, a Teoria Geral do Processo corresponderia a um conjunto ordenado de conceitos fundamentais sob o qual se firma o plexo de conhecimento sobre o fenômeno jurídico do processo. Para além de um conhecimento científico90, a Teoria Geral do

Processo é epistemológica e, aos mesmo tempo, filosófica, haja vista que tem por seu objeto a Ciência do Direito Processual, além de outros fenômenos fundamentais91.92

Cumpre salientar que a feição filosófica da Teoria Geral do Processo encontra-se no aspecto especulativo das indagações, estando voltada às perguntas sobre as possibilidades

88 Com relação à ciência afirma Warat: "Em outras palavras, onde não há rigor lingüistico não há ciênica. Fazer

ciência é traduzir numa linguagem rigorosa os dados do mundo; é elaborar uma linguagem mais rigorosa que a

linguagem natural." WARAT, Luis Alberto. O Direito e sua linguagem. Porto Alegre: Fabris, 1984, p.37.

89 VILANOVA, Lourival. O problema do objeto da Teoria Geral do Estado. In: Escritos Jurídicos e filosóficos.

v. 1. Brasília: AxisMvndi/IBET, 2003, p. 80. No mesmo sentido, DIDIER JR., Fredie. Sobre a teoria geral do

processo, essa desconhecida. 3. ed. Salvador: Juspodivm, 2016, p. 45.

90 "A filosofia do direito nesta questão, como em inúmeras outras, tem, antes de mais nada, uma primeira missão

mais modesta, mas mais segura, a cumprir: a de definir e descrever, sem peremptórios juízos de valor, as 'figuras' existentes no domínio dos sistemas dessas relações, historicamente dados, marcando-lhes os seus 'tipos ideais', vincando-lhes as suas tendências, auscultando-lhes a sua linguagem, as suas conexões, e o seu 'sentido' último. Dito por outros termos: o seu primeiro objectivo (abstraiamos agora de saber se tem outros) é o de pôr a descoberto os pressupostos de índole filosófica geral e de cosmovisão que nesses sistemas radicam ou afloram, bem como os de natureza política e social de que eles podem ser a expressão. Ela faz aqui as vezes de uma Filosofia da Cultura: define, descreve e interpreta." MONCADA, Luís Cabral de. O processo civil perante a filosofia do direito. In: Estudos de filosofia do direito e do estado. v. 2. Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 2004, p. 169.

91Tradicionalmente são reconhecidas três as noções fundamentais estruturais do processo civil: Jurisdição, ação e

processo. Estas constituem a tríade denominada de trilogia estrutural do processo civil que, segundo Calmon de Passos, sintetizam seu conteúdo. PASSOS, J. J. Calmon de. Da jurisdição. III-1. Salvador: Publicações da Universidade da Bahia, 1957.

92 v. DIDIER JR., Fredie. Sobre a teoria geral do processo, essa desconhecida. 3. ed. Salvador: Juspodivm,

do conhecimento acerca do fenômeno jurídico processual93. Em paralelo, é igualmente

epistemológica na medida em que permite uma análise dogmática/científica da própria ciência do processo, a qual constitui seu principal objeto.

Nessa senda, a distinção entre a Teoria Geral do Processo e a Ciência do Direito Processual seria de grau de abstração e objeto. Enquanto que a Teoria Geral do Processo se constitui um conjunto estruturado de conceitos fundamentais acerca da Ciência do Direito Processual (conceitos lógico-jurídicos94, como conceitos a priori, filosóficos e fundamentais

que constituem a base da conceituação jurídica positiva e de sua ciência, sendo comuns e necessários ao Direito sem limite de tempo e lugar95), essa consubstancia um plexo de

conceitos particulares relacionados à análise dogmática do fenômeno jurídico processual - conceitos jurídico-positivos96 construídos a partir da observação de um determinado o Direito

Positivo97 (conceitos a posteriori, na medida em que dependem da experiência do Direito

Positivo, o qual pretendem compreender98, de modo que sua validade fica atrelada à vigência

do Direito no qual se apoia99).

93 Nada obstante não seja elemento central da investigação, poder-se-ia defender que a filosofia se constitui a

ciência que objetiva indagar os pressupostos ou condições de possibilidades de todas as ciências particulares, caso se tome como premissa o dogma de que ciência é sistema de conhecimento metodologicamente integrado em uma unidade coerente, como na concepção de Miguel Reale. v. REALE, Miguel. Filosofia do direito. 20. ed. 5ª tiragem. São Paulo: Saraiva, 2008, p. 11. Nesse sentido, ciência e filosofia seriam sinônimas, sendo que a filosofia seria epistemologia (ciência sobre ciência). v. DIDIER JR., Fredie. Sobre a teoria geral do processo,

essas desconhecida. 3. ed. Salvador: Juspodivm, 2016, p. 46. Igualmente, v. ROCHA, José de Albuquerque. Teoria geral do processo. 10. ed. São Paulo: Atlas, 2009, p.24.

94 v. TERAN, Juan Manuel. Filosofía del derecho. 10. ed. Cidade de México: Porrua, 1986, p.81-82; KELSEN,

Hans. Teoría pura del derecho y teoria egológica. Tradução de Eduardo Garcia Maynez. Disponível em: http://historico.juridicas.unam.mx/publica/librev/rev/facdermx/cont/10/pr/pr13.pdf. Acesso em: 7 de set. 2017, p. 172. "São estes obtidos a priori, com validade constante e permanente, sem vinculação, portanto, com as variações do Direito Positivo. São conceito lógico-jurídicos – ou seja, correspondem a considerações de ordem lógica – os que se referem, entre outros, ao pressuposto ou hipótese normativa e suas conseqüência na proposição jurídica ou aos sentidos (modais) do dever-ser, ou os tendentes à aplicação do princípio de contradição às proposições do dever-ser." BORGES, José Souto Maior. Obrigação tributária (introdução

metodológica). 2. ed. São Paulo: Malheiros, 1999, p.94.

95 RECASENS SICHES, Luis. Tratado general de filosofia del derecho. 19. ed. México, D.F: Porrúa, 2008,

p.11-12.

96 TERAN, Juan Manuel. Filosofía del derecho. 10. ed. Cidade de México: Porrua, 1986, p.81-83. Em lição que

se aplica à Teoria Geral do Processo, Jorge Souto Maior Borges explica que a Teoria Geral do Direito tem natureza formal na medida em que lida com constantes formais, metodologicamente obtidas por um procedimento de abstração. Nesse procedimento lógico, ocorrerá o isolamento dos conteúdos variados e cambiantes nas normas que compõem determinado ordenamento jurídico, no tempo e no espaço. BORGES, José Souto Maior. Obrigação tributária (introdução metodológica). Op. cit., p.31.

97 BORGES, José Souto Maior. Lançamento tributário. 2. ed. São Paulo: Malheiros, 1999, p.94. 98 TERAN, Juan Manuel. Filosofía del derecho. Op. cit., p.83.

Em outras palavras, a Ciência do Direito Processual, além de dogmática, é objeto de análise na Teoria Geral do Processo, a qual assume traços eminentemente especulativos (zetética)100.

Ademais, o objeto da Ciência do Direito Processual é o próprio Direito Processual101, a qual corresponde a um plexo estruturado de normas (regras, princípios e

postulados) que regem o processo102 e seus institutos. Na visão de Fredie Didier Jr., a Teoria

Geral do Processo é linguagem (conjunto de enunciados doutrinários de cunho científico ou filosófico) epistemológica sobre a linguagem jurídico-dogmática, de modo que, em paralelo, a Ciência do Direito Processual examina dogmaticamente o Direito Processual, "formulando diretrizes, apresentando fundamentos e oferecendo subsídios para as adequadas compreensão e aplicação de suas normas"103.

Nesta perspectiva, o Direito Processual é visto como fenômeno analisado por uma ciência (Ciência do Direito Processual), que pretende lhe compreender, sistematizar, elaborar e articular seus elementos. Como se percebe, o Direito Processual tem contornos normativos e, por conseguinte, sua linguagem (normativa) é distinta da linguagem (doutrinária) da Ciência do Processo (atua pautada nas diretrizes, fundamentos e subsídios da Teoria Geral do Processo) e, muito mais, da Teoria Geral do Processo.

Apesar do grau de abstração dos seus conceitos, as análises promovidas pela Teoria Geral do Processo não produzem categorias estanques ou infensas a alterações da realidade circundante. Nesse sentido, as categorias de uma teoria geral são constantemente submetidas a testes empíricos capazes de ensejar a superação, no caso de inadequação, ou correção de defeitos104.

100 FERRAZ JR., Tércio Sampaio. Introdução ao estudo do direito: técnica, decisão e dominação. 4. ed. São

Paulo: Atlas, 2003, p.39-43. No Brasil, alguns estudiosos propuseram uma distinção entre teoria e dogmática jurídica apontando para a primeira o caráter científico. Nesse sentido, Pedro Lessa defendia que a Dogmática jurídica teria por objeto os cânones do Direito, as regras do Direito positivo e as leis, enquanto que a ciência possuiria afirmações direcionadas à inteligência. cf. LESSA, Pedro. Estudos de filosofia do direito. 2. ed. Campinas: Bookseller, 2002, p.53-77.

101 Igualmente, v. ROCHA, José de Albuquerque. Teoria geral do processo. 10. ed. São Paulo: Atlas, 2009,

p.19-26.

102 Nesse sentido, CINTRA, Antônio Carlos de Araújo; GRINOVER, Ada Pellegrini; DINAMARCO, Cândido

Rangel. Teoria geral do processo. 31. ed. São Paulo: Malheiros, 2015, p.64.

103 DIDIER JR., Fredie. Sobre a teoria geral do processo, essa desconhecida. 3. ed. Salvador: Juspodivm, 2016,

p. 88.

Noutras palavras, a categoria formal (da Teoria Geral) será teoricamente legítima e idônea se capaz de apresentar aptidão para solucionar problemas de interpretação do Direito Positivo a partir de sua transposição para uma ordem jurídica particular105.

Nesse sentido, a nova legislação processual, por exemplo, é capaz de repercutir na Teoria Geral do Processo. A mudança da legislação importa em mudança na realidade cultural106, de modo que a depender do resultado do teste de transposição da categoria formal

a essa nova realidade, certa revisão da Teoria (dos conceitos fundamentais que a compõem) poderia restar justificada diante de eventual inadequação da construção teórica à base objetiva sobre a qual tem assento essa construção107.

Em sendo a Teoria Geral do Processo, o campo de análise de categorias fundamentais relacionadas aos fenômenos jurídicos processuais, a adequada investigação do Direito Positivo não prescinde da análise de certos conceitos jurídicos fundamentais. Estes conceitos são absorvidos pela Ciência Processual como insumos para viabilizar a leitura das categorias desenvolvidas no contexto do direito processual (conceitos jurídicos positivos).

Olhando para o dispositivo do art. 327, §2º, do CPC, primeiramente, se observa seu posicionamento como objeto de estudo da ciência processual. Por outro lado, a compreensão do art. 327, §2º, do CPC no contexto da análise teórica do Direito Processual pressupõe a compreensão de conceitos fundamentais na Teoria Geral do Processo (conceitos lógico-jurídicos), que são os conceitos de processo e procedimento.