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3 ESTUDANTES COM DEFICIÊNCIA INTELECTUAL NA EDUCAÇÃO SUPERIOR: O QUE DIZEM AS TESES E AS DISSERTAÇÕES

3.1 A TEORIA HISTÓRICO-CULTURAL E SEUS APORTES

Nesta seção, apresento os trabalhos que indicaram utilizar Vigotski e/ou a Teoria Histórico-Cultural como referencial teórico. Os trabalhos foram brevemente descritos, sem a intenção de empregar juízos de valor quanto a utilização teórica que vem sendo realizada a partir das obras e das diversas traduções de Vigotski. Contudo, para a elaboração desta Tese, serão apreciados, em outros momentos, aqueles trabalhos que apresentam maior proximidade com as investigações que vêm sendo desenvolvidas por esta pesquisadora.

A dissertação “O imaginário docente na perspectiva da inclusão de alunos com necessidades educacionais especiais no Ensino Superior25: um percurso de

significados e ressignificações” apresenta a pesquisa de Müller (2005) sobre o

25 Embora, no decorrer do texto, faça a opção pela expressão Educação Superior, quando cito ou faço

imaginário docente e utiliza, entre suas bases referenciais, Vigotski. A pesquisadora, através de entrevistas semiestruturadas e histórias de vida, deu voz aos docentes que identificaram o processo de inclusão como desafiador, destacando vários aspectos sobre o tema, entre eles: a necessidade de repensar a prática pedagógica e buscar formação constantemente; a valorização das assessorias de apoio aos estudantes com necessidades educacionais especiais (NEE). Entretanto, os docentes revelaram algumas inquietações no que se refere às NEE que não são tão perceptíveis em sala de aula e com a futura atuação profissional desses estudantes.

Compreender como os sujeitos com NEE percebem os movimentos de educação inclusiva e identificar suas perspectivas em relação à inclusão e os processos inclusivos no Ensino Superior foram os objetivos de pesquisa que moveram Momberger (2007) no processo de elaboração da dissertação “Inclusão no Ensino Superior: itinerários de vida de acadêmicos com necessidades educacionais especiais”. Esse trabalho foi realizado com três acadêmicos com NEE, que participaram de entrevistas semiestruturadas. A análise dos dados foi realizada a partir da teoria sócio histórica e dos estudos sobre defectologia de Vigotski. Como resultado da pesquisa, Momberger (2007) destacou: a superação do estereótipo de deficiente a partir das interações sociais, o preconceito como um dos principais entraves para a inclusão, sendo que a inclusão no Ensino Superior é um tema que precisa ser estudado e debatido na universidade e na sociedade.

A tese “Sujeitos com deficiência no Ensino Superior: vozes e significados” foi defendida por Rossetto em 2009, e apresenta um estudo sobre as características e as necessidades das pessoas com deficiência na academia. Como referenciais teóricos, foram utilizados Vigotski e Maturana. A pesquisa envolveu quatro pessoas com deficiência que ingressaram no Ensino Superior e no mercado de trabalho. A partir da análise das histórias de vida desses sujeitos, Rossetto (2009) concluiu que, a partir das interações sociais estabelecidas com o outro e com o meio, o sujeito pode romper com o determinismo biológico. Alguns elementos significativos da teoria de Vigotski são identificados no trabalho, como os apoios recebidos durante a trajetória de vida, a disposição interna de cada sujeito e o processo de compensação. A autora defendeu que esses elementos fundamentam a tese de que a pessoa com deficiência consegue chegar ao Ensino Superior se tiver oportunidades de desenvolvimento e recursos necessários para a sua aprendizagem.

“Para lembrar que você existe: um estudo de caso sobre as políticas de inclusão para estudantes com deficiência na Universidade Federal do Espírito Santo” é o título da dissertação de Sousa (2013). A pesquisadora entrevistou 11 estudantes com deficiência, professores indicados por estes, e avaliou documentos institucionais com o objetivo de analisar a inclusão dos estudantes com deficiência na Universidade Federal do Espírito Santo (UFES). Ao concluir o trabalho, Sousa (2013) apresentou como aspectos positivos: o vestibular, que possibilita as adaptações necessárias na hora da prova, e os auxílios financeiros. Entretanto, destacou que os estudantes ponderaram que o auxílio não se reduz apenas à questão financeira. Ainda, observou defasagem na acessibilidade arquitetônica, no acompanhamento da vida acadêmica e dos materiais para os estudantes, na orientação para o trabalho dos professores, destacando a necessidade de política institucional para a UFES.

Na tese “Fatores associados à conclusão da educação superior por cegos: um estudo a partir de L. S. Vygotski”, Selau (2013) descreve como um grupo de nove pessoas cegas explicam a conclusão da Educação Superior. Os estudos de Vigotski, sobretudo do “Tomo V – Fundamentos de Defectología”, embasaram teoricamente a análise dos dados, coletados através de entrevistas e análise documental. Como resultado da pesquisa, emergiram quatro categorias: “Qualidade da Educação Básica Cursada”; “Dificuldades Encontradas”; “Fatores Facilitadores Externos” e “Fatores Facilitadores Internos”. Ao final do trabalho o autor defendeu

a tese de que a tomada de consciência sobre as discrepâncias entre a realidade vivida e a esperada gerou a vontade de concluir a educação superior, isto é, fatores ligados à subjetividade dos estudantes, levando o grupo de cegos à consecução desse objetivo (2013, p. 18).

Breda (2013) investigou as políticas de inclusão na UFES, partindo do ingresso de um aluno surdo no curso de Mestrado em Educação, tendo Vigotski como teórico de referência. A pesquisa, configurada como um estudo de caso, contou com entrevistas com estudantes, professores, técnico-administrativos em educação e gestores do curso de Mestrado em Educação. Após a análise dos dados, Breda constatou que existem avanços relativos à inclusão na UFES, destacando a adaptação das provas de vestibulares, as adequações da estrutura física e a contratação de profissionais para atendimento aos estudantes com deficiência.

Contudo, identificou que algumas questões ainda precisam ser pensadas, entre elas, a criação de um núcleo para acompanhamento desses estudantes.

A dissertação de Trentin (2013) também se fundamentou em Vigotski para analisar os caminhos isotrópicos26 utilizados por quatro cursistas com deficiência

visual no curso a distância de Tecnologia Assistiva, realizado através do Ambiente Virtual de Aprendizagem Teleduc, oferecido pela Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho”. Como resultado do trabalho “Análise dos caminhos isotrópicos adotados por pessoas com deficiência visual em um curso de educação a distância na perspectiva inclusiva”, a autora observou o uso do caminho isotrópico externo, através da atuação do monitor do curso, e elaborou recomendações no sentido de melhorar o ambiente virtual de aprendizagem e possibilitar maior autonomia e independência às pessoas com deficiência visual.

“Conta-me como foi: percursos escolares de jovens e adultos com deficiência e transtorno global do desenvolvimento, mediados por processos de compensação social” é o título da tese desenvolvida por Oliveira (2014), com o objetivo de evidenciar aspectos que possam ter contribuído para o surgimento de processos de compensação sociopsicológica que promovem aprendizagem e desenvolvimento na vida acadêmica e profissional de adultos com deficiência e transtorno global do desenvolvimento (TGD). O estudo foi realizado com três estudantes do Instituto Federal de Educação Profissional e Tecnológica do Espírito Santo, sendo um deles aluno de um curso de licenciatura. A partir da análise das histórias de vida dos estudantes, a pesquisadora concluiu que, apesar das dificuldades vivenciadas na trajetória escolar, a aprendizagem da pessoa com deficiência e TGD é possível porque eles conseguem ingressar e permanecer na escola regular. Destacou, ainda, que as condições socioeconômicas e o apoio da família são fatores que muito contribuíram para que esses sujeitos possam ter acesso à escola e nela permanecer, bem como atingir processos de compensação sociopsíquicas.

Em sua pesquisa de Mestrado em Educação Matemática, Gonçalves (2014), partindo dos conceitos de mediação por artefatos, Zona de Desenvolvimento Proximal (ZDP), formação de conceitos e interiorização, analisou como um aluno cego utilizou a linguagem, os signos e os gestos, e como apropriou-se dos conceitos próprios do

26 A autora defende que essa definição se fundamentou nos trabalhos de Vigotski e, em resumo,

exprime que a pessoa com deficiência cria seus próprios recursos (caminhos) para aprender e interagir com o mundo.

Cálculo, em particular o de função derivada no contexto da sala de aula e fora dela, no curso de Licenciatura em Matemática do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de Minas Gerais (IFMG) – Campus São João Evangelista. Os resultados da dissertação “Abordagem histórico cultural em sala de aula inclusiva de Matemática: o processo de apropriação do conceito da função de derivada por um aluno cego” confirmam o potencial que o uso de materiais manipuláveis, especialmente, no campo da Educação Matemática, possui no desenvolvimento das funções superiores, tendo em vista que tato é um importante campo perceptivo do cego.

A tese “O processo de construção do letramento acadêmico em língua portuguesa por surdos universitários”, defendida por Pires (2014), utiliza Vigotski como um dos pilares teóricos, juntamente com autores que tratam da educação bilíngue de surdos e do letramento como prática social. Com o objetivo de traçar o perfil de letramento acadêmico em língua portuguesa de surdos universitários para projetar as possibilidades de desenvolvimento desse letramento de acordo com as necessidades do ambiente universitário, a pesquisadora analisou as produções de leitura e escrita em Língua Portuguesa de um grupo de universitários surdos brasileiros em um curso de extensão a distância. Como resultado das análises, observou variação em relação ao letramento dos surdos participantes da pesquisa e às propostas de algumas iniciativas com o objetivo de incentivar o letramento acadêmico dos surdos: maior envolvimento da universidade na tarefa de inclusão linguística desses estudantes, promoção de pesquisas e cursos de língua portuguesa para surdos, antes e durante o curso superior.

Defendida por Galdino (2015), a dissertação “As políticas de inclusão e as contribuições dos elementos sociais e educacionais marcantes para o acesso de alunos com deficiência na UFPB27” teve como objetivo analisar o acesso à Educação

Superior de pessoas com deficiência, considerando as políticas de inclusão e os elementos sociais e educacionais marcantes. Galdino (2015) verificou que as políticas de expansão e acesso contribuíram para o crescimento no número de estudantes com deficiência na Educação Superior, ainda, constatou que a participação da família, amigos, colegas de sala de aula e professores são fundamentais para o acesso a esse nível de ensino.

3.2 PROFESSORES DE ESTUDANTES COM DEFICIÊNCIA NA EDUCAÇÃO

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