2 A TRÍADE DO AMOR CONTEMPORÂNEO
2.2 A tríade do amor e seus possíveis sentidos
Uhum. Tá…’ Aí eu pensei assim: ‘Pô, então eu não sou tão importante porque quando ela tá comigo ela responde mensagem o tempo todo e quando eu converso com ela, no momento que eu quero e posso conversar, ela simplesmente dá respostas curtas, não desenvolve o diálogo.
[depoimento durante a entrevista em profundidade].
Juliana afirma que dá para sentir quando a pessoa não está tão interessada. “Às vezes que não deram certo eu percebi pelo instinto: ‘Ixi, a pessoa está me respondendo de um jeito diferente’. Eu acho que a gente tem que seguir um pouco do instinto da gente, perceber conforme a pessoa está conversando com você”.
Esse instinto particularmente novo que possibilita perceber se o outro não está afim não pelo que ele fala, mas pelos sinais que deixa e pelo que ela percebe/sente por uma tela é a brecha para o próximo e último capítulo. Com a explanação da Juliana, jornalista que trabalha com comunicação em Campo Grande (MS), antes entusiasta das redes sociais e agora cansada, só usa Facebook por causa do trabalho, encerramos por aqui a última das três questões que tecem a rede de sentidos da investigação sobre o amor contemporâneo
Quando você está conversando com a pessoa que você tem interesse e ela tem interesse de volta, ela demonstra um certo entusiasmo, uma certa preocupação em te responder ou se o assunto acaba ela tenta puxar outro assunto.... Isso dá para sentir. E não é uma coisa que dá para ter uma teoria que a pessoa vai ler e vai aprender a identificar esses sinais. Eu acho que esses sinais você identifica com um pouco de instinto. Não sei dizer qual sentimento, mas acho que instinto é uma palavra que explica bem. [Juliana em depoimento durante a entrevista em profundidade].
2.2 - A tríade do amor e seus possíveis sentidos
Este capítulo mostrou as três principais questões relacionadas aos sentidos em construção quando se trata da experiência do amor contemporâneo que emergiram das três etapas de pesquisa. É importante registrar que, na etapa inicial de etnografia online, a análise inicial apontou para a existência de quatro temas em discussão nos comentários do blog, sendo eles “temporalidade” (que está relacionado à percepção dos acontecimentos como sendo exclusivamente parte desta época ou não), “gênero” (que trata de questionar se comportamentos citados no texto se relacionados exclusivamente a mulheres ou se é algo que perpassa todos os gêneros e orientações sexuais), “tom” (que tem a ver com a acusação que alguns internautas fez à blogueira em função de demonstrar um sentimento de ressentimento no texto) e “verdade” (que tem a ver com afirmação de que os pontos sinalizados no texto se
tratam, de fato, de acontecimentos reais, ainda que as alguns não concordem com as “soluções” apontadas por outros). Esses temas não foram abordados individualmente porque consideramos que as três grandes questões que foram eleitas para pensar o que chamamos de Tríade do amor contemporâneo na perspectiva simbólica ou de construção de sentido contemplam os temas encontrados inicialmente no blog, agrupados a partir da análise qualitativa dos comentários.
O importante nestas linhas finais é ressaltar o que está em jogo quando falamos de experiência do amor contemporâneo e os elementos que nos permitem encaminhar a reflexão para o objetivo da pesquisa no próximo capítulo, que é pensar como as tecnologias digitais de comunicação estão participando da modulação do amor contemporâneo.
Sendo assim, consideramos que os principais elementos abordados neste capítulo foram: a questão da fragmentação das relações que faz com que elas não sejam necessariamente pautadas por uma noção de compromisso. Isso acontece porque (de acordo com este olhar inicial), primeiro, há uma desvinculação das ideias de amor e sexo, o que possibilita iniciar e manter relações que podem ser exclusivamente de interesse sexual. Em segundo lugar, relações esporádicas e/ou fragmentadas podem acontecer por ausência de desejo de compromisso de uma das partes ou pelo desejo de compromisso idealizado, que acontece quando a pessoa com quem se está relacionando afirma querer ter um compromisso, mas não com aquela pessoa que está ali, não com quem está ficando atualmente.
As relações continuam acontecendo, mas elas deixam de ter necessariamente uma classificação, um dos elementos simbólicos identificadores de compromisso, como namoro ou casamento, por exemplo, e deixam de seguir um ciclo que até pouco tempo era praticado: conhece alguém, fica, namora (caso a etapa de teste de “ficar” desse certo), casa (ou mora junto) etc. Atualmente, o “ficar” se prolonga sem promessa de namoro e sem esclarecimento também do que se é.
Nesse momento, passamos da primeira questão importante abordada neste capítulo, que é “compromisso”, para a segunda, que é “verdade”. Se não se deseja namorar ou ter o que se poderia nomear como compromisso, o que se reivindica é a verdade dos sentimentos. Ou seja, a verdade como valor aparece nas discussões éticas e morais das relações afetivas e sexuais contemporâneas. O questionamento principal é: se há desvinculação entre sexo e amor e se há desejo e aceitação mútua de viver tanto relações puramente sexuais quanto amorosas (entendendo amor aqui como aquilo que implica compromisso), por que não falar para o outro a verdade sobre o que se quer e o que se sente? Esta pesquisa não tem como
objetivo responder a essa pergunta, mas registrar que essa questão está expressa na experiência dos relacionamentos atuais é de extrema importância.
Por último, a questão que nos encaminha para o próximo capítulo, onde abordaremos o ponto principal de interesse desta pesquisa, é a relação entre interesse afetivo/sexual e comunicação. Percebemos nos relatos dos internautas e nas cartas trocadas entre Kafka e Felice a importância da comunicação para a manutenção das relações, que, neste contexto, acabam significando a prova constante do próprio sentimento. Um dos principais descontentamentos colocados pelo grupo pesquisado se refere ao fato de que o outro faz “joguinho” o tempo todo. Para não querer demonstrar que está interessado, porque isso seria estar exposto ao julgamento e ao poder do outro, a pessoa faz um jogo que consiste principalmente em demorar para responder mensagens. Entretanto, vimos com Kafka que o jogo relacionado à comunicação e ao amor não se trata de uma estratégia recente. Ovídio em “A arte de amar” já aconselhava a demorar para responder às mensagens do amado como estratégia de produção de ansiedade e intensificação do sentimento. O “novo” na relação entre comunicação e “jogo do amor” é, primeiro, a própria incerteza e imprecisão das regras do jogo atualmente. Sem igreja, sem família e com intervenção cada vez mais baixa do Estado, quem assegura que as regras do jogo do amor serão cumpridas? Com a possibilidade de ter relações sem compromisso, sem o ciclo até pouco tempo usual, o que se ganha quando se ganha o jogo? E mais, quais são as novas regras do jogo do amor, quem as cria e quem as ensina? Sendo a comunicação um fator essencial para a manutenção de uma relação - seja ela qual for - em toda e qualquer etapa, sendo ela também o que dá forma ao “jogo do amor”, cabe questionar o que muda quando as tecnologias de comunicação mudam? Mais especificamente, como as tecnologias digitais de comunicação alteram a experiência do amor contemporâneo? Essa é a questão que buscaremos responder no próximo capítulo.