CAPÍTULO 2 –TRANSFERÊNCIA TECNOLÓGICA: EXPERIÊNCIA DAS

2.7 A transferência tecnológica alemã: desafios e estratégias adotadas

O sistema de ensino superior dos EUA, na segunda metade do século XIX, começou, em grande parte, a incorporar “serviço” como uma terceira missão acadêmica ao seu ambiente político e sócio-econômico e, mais tarde, como um recurso para o desenvolvimento industrial, com fins militares, e expansão rápida após a Segunda Guerra Mundial. Em contraste, o sistema alemão, modelado após os ideais reformistas de Humboldt, no século XIX, tem sido tradicionalmente caracterizado por uma forte rejeição da “interferência” industrial no ensino superior (Krücken et al., 2007).

Até a década de 1960, prevaleceu, na Alemanha, o modelo no qual o governo assumia a responsabilidade pela divulgação da informação científica, ao passo que as atividades da decodificação do conhecimento até a produção eram de responsabilidade das empresas, não havendo contatos entre produtores e usuários do conhecimento científico nem elos de feedback entre as diferentes fases do processo de inovação (Krücken et al., 2007).

Na segunda metada da década de 1970 e na década de 1980, para corrigir as lacunas do processo de sentido único, prevaleceu o modelo de cooperação, no qual os cientistas se engajam em cooperação, aprendem sobre as necessidades tecnológicas de seus parceiros industriais e redesenham sua agenda de pesquisa, embora ainda vistos, na troca, como

produtores principais do conhecimento (Krücken et al., 2007). Para os autores, nesse período, a implantação de escritórios de transferência de tecnologia seria uma contribuição decisiva para a modernização da economia nacional33 e facilitariam futuros processos de adaptações estruturais.

Na década de 1990, redes de todos os tipos – de clusters regionais, de inovação, de excelência – foram promovidas como meio de garantir a competitividade internacional da Alemanha, e como um pré-requisito para o financiamento pela União Europeia (Krücken et al., 2007). Segundo os autores, além da ênfase em redes complexas, alguns passos cautelosos podem ser observados nos discursos alemães, com foco em dois pontos centrais: patentes e spin-offs, os quais implicam na atividade econômica dos cientistas individuais ou universidades, embora a idéia do empreendedorismo ainda fosse contestada por alguns professores:

“Transferência científica é cooperação com empresas. Os cientistas

como empreendedores devem ser uma exceção” (Hochschulverband 1991: 215, apud Krücken et al., 2007, p.688).

Apesar das resistências, empresas spin-offs atualmente são promovidas por diferentes áreas do governo federal e por vários estados, como se verá adiante neste Capítulo.

Inicialmente, é importante ter uma visão geral das atividades de transferência tecnológica no âmbito europeu. A Europa conta com associações de universidades e instituições de pesquisa especializadas no levantamento das atividades de transferência tecnológica destas instituições, como a Proton Europe, a ASTP, CEMI que atuam como a AUTM, nos Estados Unidos. Neste trabalho, optou-se por trazer os dados da Proton Europe, tendo em vista ser a mais representativa, e por congregar cerca de 600 universidades e institutos públicos de pesquisa em toda a Europa. A Proton Europe tem feito este trabalho desde 2003, e, no último levantamento, recebeu respostas de 320 escritórios de transferência de conhecimento. O último levantamento disponível, relativo ao ano fiscal de 2009, está representado na Tabela 2.1, em um quadro comparativo com as instituições congêneres dos Estados Unidos:

33 Os autores consideram que a implantação de tais escritórios foi motivada pela preocupação da Europa com a lacuna tecnológica em relação aos Estados Unidos.

Tabela 2.1 Atividades europeias de transferência tecnológica em comparação com as dos Estados Unidos, 2006-2009.

Valores globais

Ano fiscal 2006 2007 2008 2009 2006 2007 2008 2009

Nº respondentes survey 325 323 305 320 189 194 191 181 Idade média dos ETT 11,2 11,4 12,4 14,0 17,9 18,5 na na Funcionários tempo integral 1.162 1.204 1.335 1.152 1.832 1.926 2.092 na Média funcionários por ETT 8,3 8,4 9,7 7,8 9,7 9,9 11,0 na Total de inventos 5.261 5.982 5.841 6.039 18.874 19.827 20.115 20.309 Média inventos por ETT 18,3 20,2 19,9 19,9 99,9 102,7 105,3 112,2 Depósitos Prioridade Patentes 2.496 3.303 2.951 3.227 11.622 11.797 12.920 12.109 Média depósitos por ETT 8,7 10,7 10,0 10,6 61,5 61,1 67,6 66,9 Total de Portifólio Patentes 11.628 14.730 18.882 21.310 na na na na Média de Portifólio por ETT 40,9 52,6 67,0 70,6 na na na na Total Licenças firmadas 3.174 3.768 3.574 4.872 4.963 5.109 5.039 5.328 Média Licenças por ETT 11,2 12,6 12,4 16,4 26,3 26,3 26,4 29,4 Receita total Licenças € 73,3 M € 62,3 M € 70,4 M € 70,6 M € 1,3 B € 1,9 B € 2,5 B € 1,7 B Média receita por ETT € 267,5 K € 213,3 K € 246,9 K € 262,3 K € 7,0 M € 10,1 M € 12,9 M € 9,2 M Spin Offs criadas 473 549 480 473 553 555 595 596 Média Spin Offs por ETT 1,6 1,8 1,6 1,5 2,9 2,9 3,1 3,3

Proton - Europa AUTM - EUA

Fonte: adaptado de Proton Europe Survey Report 2010 Data FY 2009 (ProtonEurope, 2011) ETT=Escritórios de Transferência de Tecnologia na= não disponível

Constata-se incremento, em geral, nas atividades europeias, nos últimos três anos, exceção para a criação de spin offs. As universidades europeias produzem pesquisa científica de alta qualidade, mas transferem esse conhecimento para a indústria em menor proporção que as universidades norte-americanas, apesar dos esforços realizados neste sentido (Conti e Gaule, 2012). Os autores, apesar de reconhecerem que a diferença entre o volume absoluto de recursos aplicados em P&D, pelos Estados Unidos e pela União Europeia, contribui para esse paradoxo, consideram, também, que há deficiências a serem corrigidas na organização da transferência tecnológica europeia.

O desempenho dos resultados da pesquisa científica europeia é prejudicado pela diversidade de leis de propriedade intelectual em toda a Europa, ausência de um sistema europeu comum de patentes, aos custos elevados de tradução de uma patente em relação aos EUA, a falta de financiamento para a prova de conceito, demandas para demonstração do valor comercial de uma invenção e o pouco espírito empresarial de inovação na sociedade europeia, em geral, e em algumas universidades, em particular (ProtonEurope, 2010).

EFI (2009) considera que as principais formas de transferência de conhecimento e tecnologia na Alemanha são a educação e a formação continuada, os contratos de pesquisa e consultoria, a cooperação estratégica, o licenciamento e exploração de direitos e as empresas spin offs e, citando análises estatísticas de Schartinger et al. (2002), mostra que estas atividades aumentam a produtividade e o bem-estar tanto quanto a inovação tecnologicamente orientada.

EFI (2009) entende que é preciso remover entraves burocráticos e reforçar a autonomia das universidades e das instituições de pesquisa, para que possam estabelecer seus próprios objetivos, alocar vagas discentes, definir as estratégias financeiras e, sobretudo, arcar com a responsabilidade orçamentária, a fim de implantar modelos promissores de transferência tecnológica.

De acordo com (Huelsbeck e Lehmann, 2006), o uso eficiente dos recursos humanos e financeiros na transferência tecnológica universidade-indústria pode ser dificultado por numerosos fatores organizacionais e individuais, dentre os quais destaca a carga horária de ensino dos pesquisadores, uma vez que postos exclusivos de pesquisa são relativamente raros. A tendência recente, segundo Schmoch (2011), é que as universidades alcancem maior autonomia no uso dos seus recursos financeiros, recrutamento de pessoal, incluindo professores, e a organização de estruturas, havendo uma transferência progressiva, em variados graus, de responsabilidades dos estados para as reitorias. O autor prevê, como consequência institucional de maior autonomia de gestão, um deslocamento de poder que fortalecerá a administração central das universidades em detrimento das representações de professores. Isto poderá, em sua visão, solidificar os departamentos mais influentes e enfraquecer aqueles que não se adequarem ao novo perfil; além de enfraquecer, também, as disciplinas não tecnológicas.

No documento Ambiente regulatório no qual se inserem as instituições científicas e tecnológicas brasileiras e os aspectos comparativos com as congêneres da Alemanha e dos Estados Unidos (páginas 55-58)