2.5 O DIVÓRCIO E SEUS EFEITOS SOBRE A FAMÍLIA E O CONSUMO
2.5.3 A transitoriedade da família monoparental
Assim como um evento causador de mudanças, estresse, perdas, benefícios de convivência, alterações na rotina, problemas de comunicação dentre outros aspectos, o divórcio pode ser igualmente responsável por desencadear um rito de passagem. Esta responsabilidade é comum não somente ao divórcio, mas também a diversos outros eventos da vida como: a mudança de emprego, o luto, a aposentadoria, maternidade, chegada à adolescência e, até mesmo, ao próprio casamento; todos, exemplos de situações nas quais as grandes transições de papéis despertam alterações consideráveis na identidade do indivíduo dentro de uma estrutura social (HOUSTON, 1999).
Segundo DaMatta (2000, p. 11), “os ritos de passagem são como uma resposta adaptativa obrigatória solicitada quando estes indivíduos são forçados a mudar de posição dentro de um sistema”; e costumam ter um roteiro formal e pouco variável, dependendo apenas das particularidades de quem os vivencia. Esta característica pode ser evidenciada, por exemplo, pela obrigatoriedade enfrentada por todos os cônjuges detentores da guarda para assumir as necessidades dos filhos, além do seu emprego, a casa e sua própria vida. Sendo assim, o roteiro da passagem pelo divórcio costuma seguir um padrão, originando situações que só variam de acordo com a capacidade do
sujeito para lidar com suas consequências. Em outras palavras, é o senso comum que nos diz: “todo casal que se divorcia um dia passou por isso”.
A transitoriedade oriunda dos ritos de passagem costuma ser evidenciada por três fases, de acordo com a divisão oferecida por Van Gennep (1977):
Separação: configura-se como o momento em que o sujeito procura “fugir” do seu status atual e, muitas vezes, toma decisões drásticas como sair de casa, romper a comunicação, ou iniciar conflitos constantes com quem restringir sua fuga.
Transição: o indivíduo passa a experimentar uma dualidade de papéis, e procura amenizar o conflito interno do “ser ou não ser” por meio de estados mentais que lhes permitam evidenciar sua capacidade de lidar com a transição (“estou me organizando”, “estamos nos acertando”, “eu vou ficar bem”).
Incorporação: o indivíduo começa a apresentar os comportamentos esperados pelo novo status, como: interesse em novos relacionamentos, maior estabilidade emocional, financeira e a reintegração tanto aos antigos como novos círculos sociais.
De forma similar, Brown (2001) divide os estágios do processo de divórcio em três fases:
Primeiro ano após a separação: confirmando um período de caos, confusão e crise.
Fase do realinhamento: que se caracteriza pela transição na qual as questões econômicas, sociais e extrafamiliares vão sendo reorganizadas entre o segundo e terceiro ano após a separação. Fase da estabilização: quando se poderia dizer que, com efeito, há
uma reorganização do novo sistema familiar.
A cartilha do divórcio para os pais, estabelecida pelo Conselho Nacional de Justiça (2013), ainda apresenta a visão de dois autores, Wallerstein e Blakeslee (2002), que mantém a divisão trifásica:
Separação: quando há muitas discussões conjugais e um dos pais sai de casa. Há grande desorganização familiar, e as crianças muitas vezes presenciam agressões físicas e verbais entre os pais. Os pais, tão preocupados com seus próprios problemas, ficam geralmente
menos atentos às necessidades dos filhos.
Reconstrução: Os pais e os filhos tentam reconstruir suas vidas. Os pais podem mudar de profissão, voltar a estudar, conhecer novas pessoas ou mudar de casa. Os filhos também podem mudar de escola e criar novos amigos.
Estabilização: A família encontra alguma estabilidade, mas é geralmente mais vulnerável do que as famílias que não experimentaram o divórcio, podendo apresentar algumas dificuldades, inclusive econômicas. Pode ocorrer em um período de dois a seis anos para uma completa adaptação a todas as mudanças decorrentes do divórcio.
E Ricci (2004) que promove maior aprofundamento à divisão concedendo- lhe sete fases:
Lar dos sonhos: onde pai e filhos vivem juntos na mesa casa, com respeito, confiança e amor.
Problemas no lar: quando os desentendimentos intensos e contínuos reduzem os sentimentos de confiança e respeito e aumentam as tensões até níveis insustentáveis
O lar que se divide: o desrespeito e a desconfiança entre o casal aumentam cada vez mais. O lar ainda não está totalmente dividido, mas a separação é iminente.
O lar dividido: Ocorre a separação física.
A casa da mãe, a casa do pai: provavelmente, o mais difícil e o mais prolongado estágio. Ocorrem mudanças nos rendimentos, nas profissões, nos hábitos pessoais, nas amizades e nas rotinas.
A casa da mãe e a casa do pai (a): a família consegue maior estabilidade.
A casa da mãe e a casa do pai (b): os adultos já conseguem separar com mais facilidade sua relação conjugal da relação parental.
O Quadro 10 representa todos os estágios dos autores citados de forma sintetizada.
Quadro 10 - Fases do divórcio
ESTÁGIOS
AUTORES
Van Gennep (1977) Brown (2001) Blakeslee (2002) Wallerstein e Ricci (2004)
Estágio 1 Separação Caos, confusão e crise Separação Lar dos sonhos Estágio 2 Transição Realinhamento Reconstrução Problemas no lar Estágio 3 Incorporação Estabilização Estabilização Lar que se divide
Estágio 4 - - - Lar dividido
Estágio 5 - - - Casa da mãe, casa do pai
Estágio 6 - - - Casa da mãe, casa do pai (a)
Estágio 7 - - - Casa da mãe, casa do pai (b)
Fonte: Elaboração própria (2016).
A similaridade entre a divisão dos ritos de passagem e do próprio processo de divórcio nos fazem perceber a congruência entre o entendimento dos autores, evidenciada pelo Quadro 10 principalmente porque “o consumo durante os ritos de passagem tem sido relativamente ignorado nos estudos sobre comportamento do consumidor” (HOUSTON, 1999, p. 1). Sendo assim, se o divórcio se configura como um rito de passagem, entende-se que o consumo neste contexto também se apresenta como uma forma de expressar tais mudanças, posto que estes ritos demandam a aquisição de artefatos e experiências que simbolizem os novos papéis sociais do indivíduo, facilitando a transição (CARVALHO, 2012).
Além disso, Schouten (1991) enfatizou, ainda, a importância de se aprender mais sobre o “processo de consumo liminar” por meio da observação das maiores transições de papéis caracterizadoras dos ritos de passagem. Neste sentido, o presente estudo aborda esta lacuna, fundamentado na disciplina de marketing e sociedade, para analisar as experiências de vulnerabilidade vivenciadas no consumo de um grupo liminar em especial (pais divorciados) durante a passagem por este processo de
separação. A abordagem anteriormente explicitada culmina em seguida no modelo conceitual da pesquisa.