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A troca social e a reciprocidade entre pessoas

2.4 Formulações a propósito da interação de pessoas

2.4.2 A troca social e a reciprocidade entre pessoas

As trocas feitas entre pessoas podem ser “sociais, psicológicos ou materiais, orientadas por uma economia social” (RODRIGUES; ASSMAR; JABLONSKI, 2003, p.253). As interações humanas não se dão somente envolvendo trocas de bens materiais, como dinheiro, por exemplo. Também se dão envolvendo trocas de bens imateriais ou sociais como: afeto, amor,

status, respeito, entre outros. No caso das trocas sociais, segundo Rodrigues, Assmar e

Jablonski (2003), as pessoas usam de uma estratégia denominada de “minimax” (p.253). Elas minimizam os custos e maximizam as recompensas. Se a interação for lucrativa e interessante para ambas as partes, ela se manterá. Caso contrário será interrompida, à proporção que uma

parte ou ambas perceberem que a interação não está trazendo as recompensas esperadas e desejadas.

Essa perspectiva teórica ajuda a entender comportamentos de reciprocidade, de altruísmo, de gentileza, de solidariedade e de cooperação. Ajudar alguém a vincular-se a alguém, ser gentil com alguém, solidarizar-se com alguém, cooperar com alguém, pode representar um investimento social que determinada pessoa está fazendo em relação ao seu futuro. Pode também representar um alívio da ansiedade percebida, à medida que o sofrimento e a necessidade do outro podem ser incômodos ao percebedor (RODRIGUES; ASSMAR; JABLONSKI, 2003).

As trocas sociais estimulam a criação de sentimentos de obrigação, de gratidão e de confiança. Já a troca econômica se apresenta nos benefícios que podem ser alcançados na observância contratual que o termo econômico forja (SPARROWE; LIDEN, 1997).

O processo de troca que se estabelece entre líder e liderado pode ser vislumbrado, também, sob a ótica da reciprocidade. Nesse sentido, a reciprocidade pode ser analisada a partir de três dimensões (SPARROWE; LIDEN, 1997). A primeira dimensão da reciprocidade é a possibilidade do retorno. Trata-se da compreensão do tempo no qual o recebedor deve corresponder para a realização das obrigações instantâneas para um período indefinido. Isso quer dizer que a baixa possibilidade de retorno reflete uma reciprocidade localizada em algum ponto futuro, enquanto a alta possibilidade de retorno reflete uma reciprocidade simultânea. A segunda dimensão é a denominada de equivalência de retorno. Isso reflete a extensão com a qual os parceiros correspondem em termos de qualidade e quantidade de possibilidades de correspondência para ambos para a completa divergência. Portanto, a baixa equivalência se refere àquilo que para um corresponde como sendo bom e que, ao mesmo tempo, é considerado mais ou menos válido para o outro. Alta equivalência é o oposto, isto é, quando é considerado muito bom para ambos. A terceira dimensão diz respeito ao tipo e à natureza dos

interesses de cada parte na troca. Essa dimensão reflete a natureza das trocas, envolvendo os parceiros no que diz respeito ao refreamento dos interesses pessoais, visando a interesses mútuos que dizem respeito às partes envolvidas na parceria.

Essas dimensões remetem a um modelo de reciprocidade apresentado e discutido por Sparrowe e Liden (1997), que envolve três formas específicas. A primeira denomina-se de reciprocidade generalizada. Caracteriza-se por uma obrigação indefinida, em termos de igualdade e imediação de lucros e reflete um tipo de interesse altruístico entre outros. Exemplos de reciprocidade generalizada incluem hospitalidade, ajuda e generosidade. A segunda denomina-se reciprocidade equilibrada. Caracteriza-se por imediação do retorno habitual e reconhecido equivalente e reflete interesses mútuos entre os envolvidos na troca. Exemplos incluem comércio, relações tipo aluguel e relações de compra-venda. A terceira denomina-se reciprocidade negativa e representa a antítese da reciprocidade generalizada na qual o dar é substituído por pegar e representa interesse pessoal do tipo egoísta.

A abordagem proposta pela Psicologia Social, segundo Rodrigues, Assmar e Jablonski (2003), no que tange à reciprocidade, envolve três normas sociais determinantes para o comportamento de ajuda. Trata-se da norma da reciprocidade, da norma da justiça social e a da norma da responsabilidade social. A primeira tem uma dimensão universal e é a base das relações sociais em todas as esferas. Retribuem-se os “benefícios e favores recebidos de outras pessoas” (RODRIGUES; ASSMAR; JABLONSKI, 2003 p.259). Esse sentido mantém as relações sociais estáveis. A segunda norma de reciprocidade trata da forma com que os bens e recursos (tangíveis ou intangíveis) são distribuídos entre as pessoas envolvidas. A percepção de eqüidade, portanto, é uma representação desse tipo de reciprocidade. Se todos contribuem igualmente no seu grupo, espera-se que todos tenham as mesmas recompensas. A terceira norma de reciprocidade diz respeito à necessidade de “ajudar as pessoas que dependem de nós ou que são incapazes de se ajudarem a si próprias” (RODRIGUES;

ASSMAR; JABLONSKI, 2003, p.260). Essa norma trata das relações sociais mais próximas, como as relações familiares, educacionais, o dever e a obrigação para com os idosos, enfermos, entre outros.

Segundo Sparrowe e Liden (1997), as observações sobre reciprocidade remetem diretamente à dicotomia existente nas pesquisas em LMX, qual seja, as relações se estabelecem em torno das trocas sociais ou em torno das trocas econômicas. O modelo de reciprocidade apresentado e discutido por Sparrowe e Liden (1997) possibilita visualizar o tipo e a natureza dos interesses presentes nas relações entre líder e liderado, bem como o caráter atual das trocas, considerando a amplitude das negociações que se firmam. Nesse sentido, as pesquisas envolvendo LMX deveriam, segundo Graen e Uhl-Bien (1998), ampliar os leques de análise, isto é, ir além das relações diádicas para considerar os interesses sociais envolvidos nessas relações ou, ainda, as estruturas sociais dos relacionamentos e os impactos nos resultados organizacionais.

A liderança, na sua capacidade formal de estabelecer vínculos verticais e horizontais dentro da organização, pode ser um distribuidor de significados e de oportunidades para os envolvidos (SPARROWE; LIDEN, 1997). Trata-se de lidar com questões “intangíveis como lealdade, informação, suporte emocional e respeito” (p.526). Essas questões permitirão aos pesquisadores da LMX compreender os efeitos das relações sociais informais influindo nos resultados do trabalho.

Relações sociais informais podem se caracterizar por redes de relacionamento de amizade e de vínculos no trabalho, à medida que o líder formal não é o único a exercer a liderança em seu ambiente de trabalho. Em organizações burocráticas, essas relações informais podem ter um caráter mais instrumental. Para Sparrowe e Liden (1997) relações sociais informais constituem-se de um grande recurso competitivo em organizações que

sofrem pressões, ou em organizações que optaram por downsizing, ou em organizações que formaram equipes para comporem grupos voltados para a resolução de projetos específicos.

Outra contribuição para a compreensão do processo de interação entre pessoas está formulada nos pressupostos teóricos da Teoria da Identidade Social – TIS. A apresentação e discussão desses pressupostos serão apresentadas a seguir.