no capítulo anterior. Porém, há aqui um elemento novo. Tais verdades possuem três características básicas: imutabilidade, necessidade e universalidade.
Tomando como exemplo as verdades matemáticas, tem-se que a soma de três mais três é igual a seis, independentemente de qualquer situação. É uma realidade existente e não passível de mudança, portanto, imutável. No entanto, a sua resultante é igual a seis, não porque depende da vontade de alguém, mas porque é necessário que seja seis. Por fim, ela é também comum a todas as pessoas e qualquer um que faça uso da razão pode facilmente constatá-la; em outras palavras, é universal. Porém, onde entra a prova da existência de Deus em meio a isso tudo?
Ora, a verdade que Santo Agostinho acabou de constatar é imutável. A mente humana foi o que Agostinho encontrou de mais nobre e sublime no homem, porém ela é mutável. Então essa verdade não pode estar na mente. Se não está na mente, somente pode estar além da mente humana, pois lhe é superior. No entanto, o que pode ser superior e mais sublime que a própria razão humana? Agostinho responde:
Eu te havia prometido, se te lembras, de haver de provar que existe uma realidade muito mais sublime do que a nossa mente e nossa razão. Ei-la diante de ti: é a própria Verdade! Abraça-a, se o podesέ Que ela seja o teu goὐo! “Põe tuas delícias no Senhor e ele concederá o que teu coração deseja!” (Sl 36,4)έ Pois o que desejas senão ser feliz? E haverá alguém mais feliz do que aquele que goza da inabalável, imutável e muito excelente Verdade? (AGOSTINHO, 1995, p. 119).
Todavia, sublinhamos que a intenção do filósofo de Hipona não é apresentar uma sentença matemática ou filosófica como sendo a verdade em si. O seu intuito é tão somente provar a existência de uma realidade muito superior à mente humana, contendo todas as propriedades reservadas apenas a Deus: imutabilidade, necessidade e universalidade. Essa realidade que tudo engloba é a própria verdade. Essa verdade metafísica e transcendente personificada na pessoa de Deus será tratada no tópico seguinte.
6.2 A VERDADE TRANSCENDENTE DE SANTO AGOSTINHO
Outro ponto que merece destaque diz respeito à relação entre a verdade que Agostinho nos apresenta e a verdade que ele encontra nos livros platônicos. Ora, Platão havia defendido em sua famosa teoria das ideias a existência de um mundo suprassensível onde se encontrariam, por assim dizer, as Ideias ou Formas das coisas sensíveis.
Tais estruturas metafísicas seriam como que a essência das coisas visíveis e existiriam independente do mundo sensível. Essas realidades suprassensíveis são realidades e, portanto, verdades defendidas pelo criador da Academia como entes existentes de fato. Agostinho vê nesse conceito a possibilidade de uma associação com a verdade que acabara de encontrar no cristianismo e coloca a sua verdade num mundo transcendente. Porém, esse conceito associativo não encontra sua gênese na filosofia agostiniana. No século I, Filo de Alexandria tentou, pela primeira vez, associar a filosofia grega com a teologia judaica, como podemos observar na citação:
O mérito histórico de Filo está em ter tentado pela primeira vez na história uma fusão entre a filosofia grega e a teologia mosaica, criando assim uma “filosofia mosaica” [...]. Mas para criar o mundo físico, Deus cria, antes dele, o cosmo inteligível (as ideias) como “modelo ideal”έ E esse “cosmo inteligível outra coisa não é que o Logos de Deus no ato de formar o mundo” (as ideias platônicas, desse modo, tornam-se definitivamente pensamentos de Deus presentes no Logos de Deus e coincidentes com ele) (REALE, 1990, p. 402-403).
Esse ponto torna-se bastante relevante, tendo em vista que se diferencia daquela investigação que os antigos filósofos gregos, em especial os físicos, faziam em busca da essência das coisas. Eles buscavam encontrar o elemento fundamental de tudo na essência dessas coisas sensíveis. Assim, segundo Aristóteles131: “a maioria dos primeiros filósofos concebeu apenas princípios materiais para todas as coisas”έ Esses princípios seriam para Tales o úmido, para Anaxímenes o ar, para Heráclito o fogo e assim sucessivamente.
Em Agostinho, essa realidade (Aleqeia) ou princípio fundamental é transcendente e aponta para uma verdade que encontra no Logos (Logoj) heraclítico a sua mais perfeita semelhança. O Logos pensado pelos gregos era o Cristo, para os padres cristãos. Sobre esse entendimento, Filo de Alexandria já atestara, conforme afirma Reale (1990, p. 403): “όilo distingue o Logos de Deus, dele fazendo uma hipóstase, a ponto de denominá-lo inclusive „όilho primogênito do Pai Incriado‟, „Deus segundo‟ e „Imagem de Deus‟”.
A base para toda essa discussão pode ser encontrada nas próprias Escrituras, por exemplo, no Evangelho de São João I, 1: “No princípio era a Palavra, e a Palavra estava com Deus e a Palavra era Deus”132.
A palavra (Logoj) que João cita em seu evangelho era entendida pelos gregos como razão – uma espécie de razão universal que governava todo o Cosmos (Kosmoj). Essa mesma razão São João vai identificar como sendo o Cristo, a Palavra de Deus encarnada em meio aos
131 Cf. Met. I, 3, 5.
homens. Assim, é dentro dessa perspectiva que Santo Agostinho vai firmar seu conceito de
verdade transcendente, encontrando no Cristo a personificação dessa verdade que tanto o
inquietou em sua vida.
O seu encontro com a verdade é retratado numa das mais belas passagens das
Confissões, X, XXVII, 38. Agostinho externaliza nesse pequeno capítulo seu entusiasmo e
comoção ante a verdade que encontrara. Já não há mais nada a procurar, sua inquietante busca chegara ao fim. Agostinho deixa-se inebriar pela verdade que tanto desejo lhe inflamara a alma e, tomado por um ardente sentimento de amor, expressa:
Tarde Vos amei, ó Beleza tão antiga e tão nova, tarde Vos amei! Eis que habitavas dentro de mim, e eu lá fora, a procurar-Vos! Disforme, lançava-me sobre essas formosuras que criaste. Estáveis comigo, e eu não estava convosco! Retinha-me longe de Vós aquilo que não existiria se não existisse em Vós. Porém chamastes-me, com uma voz tão forte que rompestes a minha surdez! Brilhaste, cintilastes e logo afugentastes a minha cegueira! Exalastes perfume: respirei-o, e suspirando por Vós. Saboreei-Vos, e agora tenho fome e sede de Vós. Tocaste-me, e ardi no desejo da Vossa paz133 (AGOSTINHO, 2004, p. 285).
Na citação acima, Santo Agostinho relembra os tempos em que enveredava pelos caminhos do maniqueísmo, ceticismo e neoplatonismo em sua busca sedenta pela verdade e nos apresenta a verdade revestida e personificada na expressão da própria Beleza. Nesse ponto, é possível perceber os indícios dessa transcendência que eleva a verdade de um plano físico para um plano metafísico, cujo acesso se dá por meio da memória.
Dessa forma, é na memória que Agostinho acredita ter encontrado a sua verdade. No entanto, para aí chegar, o filósofo de Tagaste traça uma espécie de itinerário para dentro de si mesmo, mostrando todos os caminhos percorridos até o seu almejado encontro com Deus, a suprema e transcendente verdade de Santo Agostinho:
Onde residis, senhor, na minha memória? Em que lugar aí estas? Que esconderijo fabricastes dentro dela para Vós? [...] Ao recordar-vos, ultrapassei todas aquelas partes da memória que os animais também possuem, porque não Vos encontrava entre as imagens dos seres corpóreos. Cheguei àquelas regiões onde tinha depositado os afetos da alma. Nem mesmo lá Vos encontrei. Entrei na sede própria da alma, na morada que ela tem na memória – pois o espírito também recorda de si mesmo –, e nem aí estáveis. [...] Por que procuro eu o lugar onde habitais, como se na memória houvesse compartimentos? É fora de dúvida que residis dentro dela porque me
133 Sero te amavi, pulchritudo tam antiqua et tam nova, sero te amavi! et ecce intus eras et ego foris, et ibi te
quaerebam, et in ista formosa quae fecisti deformis inruebam. mecum eras, et tecum non eram. ea me tenebant longe a te, quae si in te non essent, non essent. vocasti et clamasti et rupisti surditatem meam; coruscasti, splenduisti et fugasti caecitatem meam; fragrasti, et duxi spiritum et anhelo tibi; gustavi et esurio et sitio; tetigisti me, et exarsi in pacem tuam.
lembro de Vós, desde que Vos conheci e encontro-Vos lá dentro, sempre que de Vós me lembro134 (AGOSTINHO, 2004, p. 284).
Entrementes, o que vem a ser essa “memória” citada por Santo Agostinho? É porventura a mesma a que comumente nos referimos em nosso cotidiano? Para ajudar nessa questão, recorremos a Matthews, que nos oferece mais um subsídio para auxiliar nesse processo de compressão do conceito agostiniano de memória:
O livro X das Confissões é dedicado ao estudo da memória (memoria). Agostinho usa neste livro o termo “memória” em uma acepção muito ampla, mais ampla, penso eu, do que em qualquer dos seus outros escritos. Sem dúvida, Agostinho manifesta aí um interesse especial no que também nós chamaríamos de “memória”έ Mas as teses que ele defende nesse livro sobre a memória aproximam-se tanto do que Agostinho disse mais tarde acerca da “mente” (mens) no livro X de De Trinitate que poderíamos quase traduὐir memoria neste livro como “mente” (MATTHEWS, 2007, p. 205).
Diante de tal exposição, fica entendido que, na visão e pensamento de Agostinho, é penetrando no íntimo de si que o homem tem a possibilidade de encontrar-se com a verdade e, dessa forma, afastar-se da escuridão que tenta obnubilar a luz transcendente e metafísica dessa mesma verdade que insiste em seduzir e atrair todos os homens desde os tempos mais antigos para junto de Siέ “Todos os seres humanos naturalmente desejam o conhecimento” (ARISTÓTELES, 2006, p. 43).
6.3 A CONCEPÇÃO AGOSTINIANA SOBRE A VERDADEIRA CONDUTA DOS