• Nenhum resultado encontrado

5. O PROCESSO DE LUTO

5.1 A VERSÃO FREUDIANA DO LUTO

No célebre ensaio “Luto e Melancolia”, Freud (2010/1917a) apresenta uma versão do luto que é sustentada até os dias atuais e representa o paradigma da compreensão de tal fenômeno dentro da teoria psicanalítica. Allouch (2004) comenta que Freud não empreendia estudar o luto, mas sim uma conquista da melancolia.

Freud (2010/1917a) explicita tal posicionamento ao afirmar que “depois que o sonho nos serviu como modelo normal dos distúrbios psíquicos narcísicos, façamos a tentativa de elucidar a natureza da melancolia, comparando-a com o afeto normal do luto” (Freud 2010/1917a, p.171). Dada tal afirmação, Freud empreende-se em avançar na compreensão da melancolia, comparando-a com o luto a partir da descrição de

uma classe de afecções encontradas em ambos. No entanto, como explicitado por Allouch (2004), é o estudo do luto que se torna referência e não o da melancolia, intenção originária de Freud. Como ressalta o autor:

O que, aos olhos de Freud escrevendo esse texto, estava colocando como já explicado foi tomado como o que ele estava explicando. Ali onde a partir de um conhecido (o luto) ia se conquistar um desconhecido (a melancolia) fez-se desse desconhecido (o luto) o conhecimento de um desconhecido (o luto). (Allouch, 2004, p.62).

O postulado por Allouch (2004) evidencia que a explicação sobre o luto contida em “Luto e Melancolia” (Freud, 2010/1917a) desvela uma nova compreensão sobre o fenômeno, forte e solidificada o suficiente para se constituir como o paradigma da versão do luto na perspectiva freudiana. No ensaio, Freud centraliza seu argumento em torno da perda de um objeto, postulando que ao passo que o luto se caracteriza como “uma reação à perda de uma pessoa amada ou de uma abstração que ocupa seu lugar” (Freud, 2010/1917a, p.128), a melancolia se refere a uma perda de natureza mais ideal, na qual o objeto não morreu efetivamente, porém foi perdido como objeto amoroso.

Sobre o luto, Freud (2010/1917a) é pontual em afirmar que perder um objeto amoroso não caracteriza um fenômeno patológico. O que se sucede à perda é um doloroso abatimento, a perda de interesse pelo mundo externo, a perda da capacidade de eleger um novo objeto de amor e a recusa em envolver-se em atividades que não se liguem à memória do falecido. Essas reações simbolizam a inibição do Eu enlutado, mergulhado na dor de perder um objeto querido. Tal inibição do Eu aponta para uma questão de economia libidinal, na qual o sujeito imerso no sofrimento decorrente da perda se vê impelido a recolher os investimentos outrora depositados no objeto amoroso. Suannes (2011) comenta que “o trabalho de luto consiste em um processo por meio do qual o sujeito vai desembaraçando e recolhendo, fio por fio e na medida do possível, a libido que o enlaça ao objeto que não existe mais” (p.81).

Esse recolhimento dos fios que garantiam o laço entre o sujeito e objeto pressupõe um trabalho árduo e doloroso de retirada de conexões e para Freud (2010/1917a), não há como solicitar que tal trabalho ocorra imediatamente. É preciso tempo e, como afirma Silva (2011), “é necessário pronunciar interiormente a morte do que se foi” (p.712), isto é, é preciso que o símbolo da ausência seja introjetado no Eu.

Freud (2010/1917a) afirma que a solicitação de retirada libidinal “não pode ser atendida imediatamente. É cumprida aos poucos, com grande aplicação de tempo e investimento e, enquanto isso a existência do objeto se prolonga na psique.” (p.129).

Para Nasio (1996), o luto “nada mais é do que uma lentíssima redistribuição da energia psíquica até então concentrada em uma única representação que era dominante e estranha ao eu.” (p.29). Tais assertivas evidenciam a importância da afirmação de Freud (2010/1917a) que postula que em relação ao processo de luto, até mesmo as perturbações que visem a retirada do sujeito de seu estado podem ser consideradas prejudiciais.

Dessa forma, o trabalho de luto pressupõe uma duração, porém no inconsciente, como afirma Silva (2011), “não há alteração do evento psíquico pelo transcurso do tempo” (p.712). Tal impasse é respondido pelo próprio sujeito enlutado, que afirma que embora o desinvestimento libidinal ocorra de forma gradual, não há tempo cronológico que assegure a elaboração do luto. É um trabalho que embora consuma dias, meses e até anos, não está submetido a uma lógica cronológica. Por conseguinte, o tempo do luto é o tempo do sujeito do inconsciente, a duração à qual se subjuga em seu processo de elaboração da perda arrebatadora do seu objeto amado. Sobre a relatividade do tempo do enlutado, Kehl (2009) explica:

O luto demanda tempo; este tem a função de proteger o psiquismo da desorganização causada pela perda. Mas o tempo do luto não se limita ao transcorrer de um determinado prazo: ele implica também a reconstrução de um novo ritmo compatível com novas modalidades de ausência e presença do objeto e de sua representação.(Kehl, 2009, p.206).

Nesse ritmo intercalado pela ausência e a presença do objeto, o sujeito se reorganiza diante da perda. Freud (2010/1917a) denomina esse processo de reorganização de “trabalho do luto”, afirmando que após a concretização de tal trabalho, o Eu pode novamente investir libidinalmente em outros objetos. Embora Freud (2010/1917a) não se delongue demasiadamente na questão do luto, passando em seguida para o exame da melancolia, é lícito afirmar a relevância dada ao emprego da expressão “trabalho do luto” para definir o que se impõe ao enlutado que sofre uma perda de tamanha intensidade como a morte de um ente querido. Nasio (1996) fala de um “trabalho do luto” que demanda um desinvestimento progressivo da representação do objeto amado. Dessa forma, o luto pressupõe um superinvestimento que precede um desinvestimento, no qual é preciso superinvestir na imagem daquele que se foi, para que, após, se torne possível desinvestir-se dela e, assim, lentamente, investir libidinalmente em outros objetos.

Para Freud (2010/1917a) é o teste da realidade que põe em marcha o trabalho do luto, é a constatação de que o objeto não existe mais, que exige que o sujeito retire todas as conexões com o objeto. No entanto, Freud (2010/1917a) observa que “isso desperta uma compreensível oposição- observa-se geralmente que o ser humano não gosta de abandonar uma posição libidinal, mesmo quando um substituto já se anuncia”

(p.129). Tal afirmação salienta a possibilidade de que, mesmo diante de um desagrado por parte do enlutado que se recusa a preencher a falta do objeto amado com a presença de um substituto, é presumível, dentro da teoria freudiana, a existência de um substituto que diante da ausência do objeto amado, possa vir a ser colocado em seu lugar. O referido autor ressalta que embora a solicitação de retirada do investimento libidinal não possa ser atendida imediatamente, “o normal é que vença o respeito à realidade” (Freud, 2010/1917a), isto é, que a realidade tenha uma força tamanha capaz de prevalecer sobre a constatação de ausência do objeto.

Assim, de acordo com a versão freudiana, o caminho para elaboração do luto é trilhado pelas veredas da realidade, então também temos que pensar no tempo cronológico desta realidade que se impõe, na qual é pelo teste de verificação da ausência do objeto perdido que se torna possível o investimento em outros objetos que não são o objeto morto. À vista disso, entre a perda do objeto amado e a concretização do processo de elaboração do luto, há um intervalo. Nesse intervalo, o sujeito derrama suas lágrimas e sepulta simbolicamente o morto, conferindo a ele um lugar em seu psiquismo. Não se trata aqui de esquecer a representação daquele que se foi, mas inscrevê-lo em outra ordem, dado que o corte real com o objeto amado impõe que já não é mais possível amá-lo em sua vivacidade e presença física.

É imerso nessa hiância que, como sustenta Suannes (2011, p.81), o sujeito tece o objeto perdido dentro de si e “desse modo, a realidade da perda pode vir a ser tolerada porque a existência psíquica daquele que se foi continua a ser sustentada pelo sujeito”. A tessitura desse laço interno é o que caracteriza um percurso normal de elaboração do luto na versão freudiana, no qual os fios recolhidos do investimento com o objeto externo dão lugar ao laço com objeto perdido dentro do próprio Eu. Tal tessitura assegura ao sujeito que embora o laço com o objeto tenha sido rompido externamente, ainda é possível sustentar internamente uma relação com aquele que se foi.

As assertivas freudianas sobre o luto ressoam e se fazem presentes na maior parte das elaborações teóricas psicanalíticas concernentes ao tema. Assim, as ideias postuladas por Freud (2010/1917a) em “Luto e Melancolia” propagaram os conceitos de “trabalho de luto” e a existência de um objeto substitutivo hipoteticamente capaz de proporcionar satisfação ao enlutado após seu trabalho de desinvestimento no objeto perdido. Posto que o presente trabalho objetiva a compreensão de como se caracterizam os laços maternos da mãe em sofrimento em decorrência da perda de um de seus filhos e a escuta de tais mães aponta que não há objeto substitutivo capaz

de preencher inteiramente o espaço deixado pelo filho perdido, abordaremos adiante as afirmativas de Allouch (2004) em sua tentativa de abordar “um outro luto”.

É pertinente salientar que não se trata de tecer críticas que questionem a validade da teoria do luto freudiana, porém permitir que novas considerações sejam feitas diante da singularidade do sofrimento do enlutado. Dessa forma, abordaremos as afirmações de Allouch (2004) sobre o luto, no intuito de compreender posteriormente como elas se articulam com a escuta de mães que perderam um de seus filhos.