CAPÍTULO II – VULNERABILIDADE E PROTEÇÃO DO CONTRATANTE
2.1 A VULNERABILIDADE COMO PRINCÍPIO DE DIREITO DO CONSUMIDOR
contratante consumidor. 2.2.2 – Os consumidores hipervulneráveis. 2.3 – A proteção do contratante consumidor. 2.3.1 – O princípio da defesa do consumidor. 2.3.2 – A boa-fé nas relações de consumo. 2.3.3 – A informação como princípio de direito do consumidor.
2.1 A VULNERABILIDADE COMO PRINCÍPIO DE DIREITO DO CONSUMIDOR
É possível afirmar, sem que se incorra em exagero, que a vulnerabilidade do consumidor é a própria razão de ser do direito protetivo do sujeito consumidor. Fundamento e princípio máximo que rege as relações jurídicas de consumo, a vulnerabilidade demanda a norma de proteção.
Autores há que não veem na vulnerabilidade o fundamento da norma de proteção, que residiria na necessidade de equilíbrio da relação jurídica. É o caso de Cláudia Lima Marques, que enxerga a vulnerabilidade como uma “explicação” das regras de proteção, na qual se baseia o legislador; uma técnica de aplicação dessas regras para que se atinja a igualdade material (2012, p. 117). Paulo Lôbo, por sua vez, vê a vulnerabilidade como um subprincípio da equivalência material, o aspecto subjetivo desse princípio contratual, admitindo porém sua autonomia nos contratos de consumo (2013, p. 10).
Ainda que nítida e manifesta a relação entre o princípio da equivalência material e o da vulnerabilidade, admitindo-se inclusive o último como decorrência do primeiro, não há como não se reconhecer sua plena autonomia no direito do consumidor.
O princípio da vulnerabilidade se destacou do princípio da equivalência material, o qual se aplica aos contratos em geral, para obter autonomia nas relações de consumo, onde a vulnerabilidade assume condição de presunção absoluta.
A vulnerabilidade é um subprincípio de origem constitucional decorrente, em última análise, do caput do artigo 5°, que preconiza a igualdade de todos. A vulnerabilidade decorre então do princípio da igualdade e tem aplicação no microssistema representado pelo Código de Defesa do Consumidor, onde figura expressamente (art. 4°, I) e dá concreção ao comando constitucional de promoção da defesa do consumidor. A equivalência material, que se traduz na igualdade dita substancial, aperfeiçoa a igualdade proclamada na cabeça do artigo 5° referido para tornar o equilíbrio entre as partes do contrato uma realidade. Erigida à condição de princípio contratual, a equivalência material tem eficácia em todas as espécies contratuais, lançando porém a vulnerabilidade para a categoria dos contratos de consumo, dada a peculiar situação jurídica do sujeito consumidor.
Detendo status constitucional, o princípio da vulnerabilidade, também se encontra implícito no comando do inciso XXXII do mesmo artigo 5° da Carta de 1988, segundo o qual o Estado promoverá a defesa do consumidor. Em um raciocínio lógico, não é de admitir-se que o legislador Constituinte se ocupasse de tal determinação caso não entendesse pela necessidade de proteção da parte mais fraca da relação jurídica. E se a justiça social norteia a ordem econômica do Estado social brasileiro, que tem na defesa do consumidor um de seus princípios, esta se justifica também na vulnerabilidade do consumidor. Como visto, a vulnerabilidade do consumidor está explicitada no inciso I, do artigo 4°, do Código de Defesa do Consumidor, como um dos princípios da política nacional de relações de consumo.
No direito do consumidor, o princípio da vulnerabilidade é comando normativo que determina o reconhecimento da situação de debilidade em que se encontra um dos contratantes. Desse reconhecimento surge a premência pelo equilíbrio na relação jurídica e a necessidade de proteção do consumidor, o contratante vulnerável.
A doutrina representativa do direito privado tradicional, de matiz conservadora, tem resistido a reconhecer o intervencionismo necessário à proteção do sujeito vulnerável da relação jurídica travada entre o consumidor e o fornecedor de produtos e serviços.
Ricardo Lorenzetti afirma, entretanto, que as medidas protetivas que visam equilibrar dita relação jurídica se originam de antigas doutrinas. São ampliações de ferramentas que protegeram especificamente o indivíduo contra o erro e a coação:
Por isso, se trata de regras que se orientam a garantir a autonomia da vontade real, o que exige: - Que não existam desigualdades econômicas que atuem como uma coação determinante do consentimento, isto é, garantir a liberdade real; - que exista informação para que o sujeito possa optar racionalmente, isto é, que haja discernimento (2009a, p.38).
Ricardo Aronne defende o princípio da vulnerabilidade do consumidor como densificador do princípio da isonomia contratual, o qual por sua vez concretiza o princípio da igualdade (2001, p. 71).
Assevera o mesmo autor que “[...] pensar principiologicamente, dentro do sistema jurídico é alinhar segurança à justiça social, passível de percepção inter-subjetiva, na dialética normativo-axiológica do sistema, que o horizonte da principiologia abre para o operador do direito” (2001, p. 76).
O que parece haver ocorrido é que o direito clássico positivou o pressuposto jurídico da igualdade entre os contratantes, o que veio a evoluir para a instituição do princípio da equivalência material. O direito do consumidor, por sua vez, positivou o pressuposto jurídico da desigualdade entre os contratantes, instituindo o princípio da vulnerabilidade. O resultado é o mesmo: uma escolha do Estado social partindo da proteção da pessoa em direção ao patrimônio e não o contrário.
Importante observar que, não obstante inexista hierarquia entre as normas principiológicas, há princípios de ordem geral que se aplicam a qualquer relação jurídica, como os da igualdade e legalidade e há outros que são aplicados em mais de uma disciplina, como o do devido processo legal e o do contraditório. Princípios há porém que, decorrentes ou não de outras normas, têm sua aplicação restrita a uma espécie de situação jurídica, como é o caso do princípio da eficiência da Administração pública para o direito administrativo e o da vulnerabilidade para o direito do consumidor.
Assim é que o princípio da vulnerabilidade, de perfil constitucional, se faz fortemente presente no ordenamento jurídico brasileiro e é de imperativa observância. A vulnerabilidade do consumidor é, para se utilizar de uma metáfora, a viga mestra do direito protetivo do consumidor, princípio que estrutura o regime jurídico a ele reservado.