A percepção de outros 15 pesquisadores da área, incluindo, aí, a do Coordenador de Área da Ciência Política e Relações Internacionais da CAPES, professor André Marenco, e a da presidente da ABCP, professor Leonardo Avritzer, complementa as evidencias trazidas pelas 12 entrevistas com os editores e pelos 1505 artigos e foi coletada por meio de questionários/entrevistas, conforme QUADROS 1 e 2, com a intenção de ampliar na presente pesquisa o conhecimento da disciplina a partir de seus próprios praticantes e particularmente, da CAPES e da ABCP.
Tais pesquisadores foram convidados para participar da presente pesquisa em função de terem organizado e/ou participado de eventos comemorativos de aniversário da Ciência Política no Brasil. Por exemplo, os Seminários realizados em 2013 pelos programas de pós-graduação em Ciência Política da USP (“40 anos de Ciência Política na USP”) e da UFRGS que discutiu (“a construção da Ciência Política na América Latina”). Assim como, porque representam IES de diferentes regiões do Brasil e portam variadas concepções teóricas e metodológicas.
Cabe ainda informar que a nem todos os respondentes/entrevistados foram feitas as mesmas questões. Isso devido às as especificidades institucionais e teórico-metodológicas de cada um deles. Por exemplo, o artigo “Teoria política e pensamento social na América Latina”, publicado em 2013, por Gisálio Cerqueira Filho, inspirou a seguinte questão: Como se dá o diálogo entre o Brasil e a América Latina no que se refere às condições de produção e divulgação da ciência política atual?. Já a questão sobre as revistas marxistas e o SciElo feita ao professor Ricardo Musse foi elaborada devido a sua participação como pesquisador do Laboratório de Estudos Marxistas da Universidade de São Paulo. E assim por diante.
QUADRO 1 – ENTREVISTADOS/RESPONDENTES DOS QUESTIONÁRIOS
PESQUISADO CURSO DE
DOUTORADO VÍNCULO IES DATA INSTRUMENTO
E DURAÇÃO FORMA DE
REALIZAÇÃO André Marenco Ciência Política ABCP/UFRGS 09/04/15 Entrevista – 32min Pessoalmente Leonardo Avritzer Sociologia CAPES/UFMG 09/04/15 Entrevista – 21min Pessoalmente Bruno Wanderley Reis Ciência Política UFMG 01/06/15 Entrevista – 80min Skype Maria do Socorro Braga Ciência Política UFSCar 17/06/15 Questionário E-mail João Roberto M. Filho Ciências Sociais UFSCar 02/07/15 Questionário E-mail João Feres Jr. Ciência Política IESP/UERJ 08/08/15 Questionário E-mail Gisálio Cerqueira Filho Ciência Política UFF 21/08/15 Questionário E-mail Fabiano Santos Ciência Política IESP/UERJ 26/08/15 Questionário E-mail Andrea Freitas Ciência Política Unicamp 08/09/15 Questionário E-mail Fernando Limongi Ciência Política USP 08/09/15 Questionário E-mail
Jairo Nicolau Ciência Política UFRJ 18/09/15 Questionário E-mail
Ricardo Musse Filosofia USP 27/10/15 Questionário E-mail
Vera Alves Cepêda Ciência Política UFSCar 02/06/16 Questionário E-mail Gabriel Eduardo Vitullo Ciência Política UFRN 05/06/16 Questionário E-mail Álvaro Bianchi Ciências Sociais Unicamp 06/06/16 Questionário E-mail
FONTE: A autora (2016).
NOTA: Cinco professores da UFRGS, UFPE, UFSCar e IESP/UERJ não devolveram o questionário respondido.
Dito isto, esta seção apresenta a percepção destes pesquisadores sobre a Ciência Política Brasileira a partir das respostas oferecidas por eles a 5 questões abertas23. A trajetória institucional teórica e metodológica da disciplina no Brasil; o papel da CAPES na estratificação, avaliação e financiamento da disciplina e; o significado da aprovação recente de novas Áreas Temáticas por parte da ABCP são algumas das questões tratadas na presente seção.
O QUADRO 2 e as notas de rodapé 24 a 29 dão informações sobre as 5 questões feitas a cada um desses 15 professores.
23 Trechos das respostas oferecidas pelos 15 respondentes encontram-se disponíveis na lista de Apêndices da presente pesquisa. Ao professor Jose Szwako agradeço pela sugestão da questão 2. Ao professor Adrian Gurza Lavalle agradeço novamente pela entrevista concedida que serviu de inspiração para a elaboração da Questão 3.
QUADRO 2 – MAPA DAS QUESTÕES RESPONDIDAS PELOS PROFESSORES PESQUISADOS
Professores pesquisados
QUESTÃO 1 QUESTÃO 2 QUESTÃO 3 QUESTÃO 4 QUESTÃO 5
Ttrajetória
André Marenco24 Outra Outra Outra X X
Leonardo Avritzer25 Outra Outra Outra X X
Bruno Wanderley Reis26 X X Outra X X
Maria do S. Braga27 X X Outra X X
Ricardo Musse29 X X X Outra NR
Vera Alves Cepêda X X X X X
Gabriel E.Vitullo NR NR X NR NR
Álvaro Bianchi X X X X X
Fonte: A autora (2016).
LEGENDA: X = ofereceu resposta a questão indicada neste quadro; OUTRA = a questão indicada neste quadro foi substituida por outra e NR = questão deixada em branco pelo respondente.
24 Questões 1, 2 e 3 perguntadas ao professor André Marenco: 1. Eu gostaria que o senhor falasse um pouco sobre a Avaliação Trienal da CAPES, sobre a sua necessidade e objetivos. 2. Considerando que comumente avaliações sempre acabam impondo pressões, eu gostaria de saber como tem se dado a relação institucional entre a CAPES e os programas de pós-graduação e periódicos científicos, por exemplo. Enfim, quais os principais pontos positivos e negativos deste sistema de avaliação? 3. Eu gostaria que o senhor falasse um pouco sobre o financiamento pela CAPES de pesquisas pós-graduadas e a contrapartida destas pesquisas para a sociedade, por exemplo, para a qualificação do debate público sobre a política.
25 Questões 1, 2 e 3 perguntadas ao professor Leonardo Avritzer: 1. Eu gostaria que o senhor falasse um pouco sobre a trajetória institucional da ABCP, incluindo o período 1986-96. 2. Principalmente, quais motivos o senhor destaca como sendo os que deram origem ao Projeto Ciência Política no Brasil: história, conceitos e métodos que está sendo desenvolvido pela ABCP? 3. Sobre as Áreas Temáticas da ABCP, eu gostaria que o senhor comentasse um pouco sobre o que tem levado à inclusão de novas áreas. Por exemplo, o que justifica a aprovação pela ABCP, em 2012 e 2014, respectivamente, das Áreas Pensamento Político Brasileiro e Sociologia Política, para além da possibilidade de ampliação de espaço de discussão?
26 Questão 3 perguntada para os professores Bruno Wanderley Reis e João Roberto Martins Filho: Quais temas têm prevalecido no debate da Ciência Política brasileira? O neoinstitucionalismo e/ou a democracia brasileira, por exemplo, influenciam, em grande medida, a agenda temática desta disciplina, na atualidade?
27 Questão 3 perguntada para a professora Maria do Socorro Braga: Principalmente, quais motivos a senhora destaca como sendo os que deram origem ao Projeto “Ciência Política no Brasil: história, conceitos e métodos”, que está sendo desenvolvido pela ABCP? O que o justifica?
28 Questão 4 perguntada para o professor Gisálio Cerqueira Filho: O Brasil, por exemplo, a partir da publicação de artigos em inglês, pela BPSR, editada pela ABCP, busca aumentar o diálogo com a comunidade científica internacional. Como se dá, em especial, o diálogo entre Brasil e América Latina no que se refere às condições de produção e divulgação da ciência política atual? Tem estado interessados os cientistas políticos latino-americanos a dialogar sobre a realidade política de seus países?
29 Questão 4 perguntada para o professor Ricardo Musse: Como os cientistas sociais marxistas se posicionam diante do fato de não contarem com a visibilidade e divulgação proporcionadas pelo Scielo quando publicam suas produções científicas em revistas marxistas; por exemplo, quando publicam na Crítica Marxista?
Especialmente as respostas oferecidas à questão 3, sobre o alcance do conhecimento que se pode ter da disciplina quando analisada exclusivamente a partir da sua produção publicada em revistas científicas A1, A2 e B1, deixam notar a dimensão política, antes que acadêmica, presente no campo e levantam muitas questões importantes. A CAPES, enquanto agência estatal que regula, avalia e financia a pesquisa científica no Brasil, aparece na fala dos respondentes, como a instituição em grande medida responsável pela hierarquização do campo. Evidência esta, também, destacada nos trabalhos de Codato e Leite (2013). O trecho a seguir, da professora Vera Cepêda, da UFSCar, ajuda a esclarecer essa problemática.
[...] A validação da produção científica [...] passou por uma espécie de “politização” — são os
“pares” [...] e muito especialmente as AGÊNCIAS de regulação e fomento das áreas os espaços que institucionalizam, regulam, orientam e legitimam/deslegitimam quaisquer produção científica.
Os indicadores servem como parte dessa engenharia regulatória e, obviamente, incluirá e excluirá escolas, agendas de pesquisa, objetos, etc. [...] Não é possível ter ilusão sobre a dimensão política [...] que cerca esse processo. O jogo da qualificação é excludente por princípio porque é calculado com base na distribuição das revistas por estratos — somente algumas serão A1 ou A2, as demais serão hierarquizadas nos estratos inferiores. Assim, a linha editorial de uma revista A1, não tenderá a selecionar e, por extensão, reforçar apenas os artigos que coadunem com sua linha? Os demais artigos que não se enquadrem, não sofreriam uma desvalorização pública imediata, em função de serem publicadas em revistas com indexação menor? [...] Em síntese, há mais CP não coincidente com o mainstream por aí, mas sob pressão de subalternização tende a encolher, ter menos visibilidade e prestígio (ah o poder da “distinção”
no espectro social!...). Este, me parece o caso do marxismo. Sem condições de uma análise mais profunda sobre os possíveis pontos do apagamento do marxismo na área da CP, [...] vou fazer aqui uma aposta, na forma de hipótese: o marxismo opõe-se a toda a engenharia e repertório da CP americana: autonomia das instituições, jogos partidários eleitorais, expersites e racionalidades dos entes institucionais, entre outros, não ficam “apagados” diante do pressuposto das classes sociais? Uma CP de cunho marxista lida com a totalidade dos temas da política de uma maneira MUITO diversa da matriz que tornou-se hegemônica nas instituições acadêmicas brasileiras na área. (o ponto que quero destacar é que há uma distinção muito grande entre as duas formas de entender, pesquisar e analisar a política. Talvez por isso, quando uma aumenta seu prestígio, a outra recua.
O fato de que, na percepção da professora Vera Cepêda, “há uma distinção muito grande entre as duas formas de pesquisar e analisar a política”, está relacionado com o que diz, o professor João Feres Jr., sobre a pouca visibilidade que possuem os autores marxistas nos periódicos bem avaliados pelo Qualis da CAPES. Segundo ele: “a qualidade do trabalho feito por marxistas é inadequada aos critérios acadêmicos da CP”. Ou seja, se se couber a somente uma dessas duas formas o selo de qualidade oferecido pela CAPES, o que importa para merecê-lo é, nas palavras do professor João Feres Jr: “o que [se] passa por CP no Brasil”. Sobre isso, ele afirma:
[...] é fato que as revistas marxistas não têm boa avaliação no Qualis, pois não satisfazem critérios como pertencer ao Scielo, ter fator de impacto, estarem indexadas em bases
internacionais, praticarem seriamente o peer review, etc. Esses critérios não são neutros, e não são somente os marxistas que sofrem com eles. Mas o fato é que se perguntarmos sobre a produção de CP de qualidade no Brasil, entendida como aquela que aparece em periódicos bem classificados, a produção marxista é bem diminuta. Não acredito que haja uma perseguição contra os marxistas nos periódicos bem qualificados. As razões pelas quais marxistas aparecem pouco neles são, penso eu, autoseleção (muitos marxistas acham esses periódicos liberais) […]
[e] excesso de sociocentrismo e de economicismo das abordagens marxistas. A CP privilegia abordagens politológicas, ou seja, a autonomia do objeto da política, tese rejeitada por boa parte dos marxistas.
Essa diminuta presença da produção marxista nos periódicos bem classificados, de que fala o professor João Feres Jr., contrastada com os 1308 professores universitários e/ou estudantes de pós-graduação em escala nacional que se consideram marxistas e, por isso, aceitaram a participar da pesquisa “O marxismo nas universidades brasileiras”30, de algum modo ajuda a confirmar a pertinência dos questionamentos e ressalvas apresentados por muitos dos professores que participam da presente pesquisa quando falam que não é possível saber a respeito da disciplina olhando apenas para uma parte dela. Ou, nas palavras de Adrian Gurza Lavalle: olhando apenas para a “ponta do iceberg” da disciplina.
Cabe destacar que tanto Cepêda, como Feres Jr. afirmam a existência de maneiras diferentes — antagônicas, pode se dizer — de se pensar, praticar e privilegiar a disciplina.
Ambos reconhecem que a CAPES possui papel importante na definição dos critérios de avaliação da qualidade da produção científica que ajudam a fazer com que uma dessas maneiras, e não a outra, seja considerada a “boa ciência”. Isso tudo, de maneira indireta, por meio de inferências, já que segundo André Marenco, coordenador da Área de Ciência Política e Relações Internacionais da CAPES, “pra avaliação da produtividade científica é [utilizado]
basicamente o Qualis... que é o que classifica os periódicos”. Ou seja, segundo ele:
a principal preocupação da CAPES não é com a produção no sentido de quantidade mas é com a qualidade da produção. Se fosse uma preocupação no sentido de quantidade, não precisaríamos ter o Qualis, por exemplo, né... Bastaria simplesmente quantificar quantos artigos, quantos livros, quantos capítulos são produzidos por docentes de cada programa ou pelos discentes e no mais taria resolvido. [...] a gente precisa saber da qualidade, precisa ver se, por exemplo, um artigo que foi publicado passou por revisão de pares, houve um rigor na sua avaliação. Livro também...
produção técnica, tudo isso aí... Se a tese que é defendida de fato tem qualidade. Se a dissertação tem qualidade. [...] A CAPES não faz uma avaliação direta. Ela não lê os artigos pra ver se... O que que ela faz? Ela... bom... um artigo publicado na revista X…, na DADOS, na Opinião Pública, na Revista de Sociologia Política é um artigo que tende... deve ser de boa qualidade.
30 Disponível em: <https://lemarxusp.wordpress.com/2014/03/05/pesquisa-o-marxismo-nas-universidades-brasileiras/>. Acesso em: 10 ago. 2016.
O artigo “O que um ranking tem a dizer”, de Lidiane Soares Rodrigues, professora do Departamento de Ciências Sociais da UFSCar, é um dos produtos desta pesquisa e pode ser Acesso em:
<http://www.encontroabcp2016.cienciapolitica.org.br/resources/anais/5/1466391397_ARQUIVO_Umrankin gVFinal.pdf>. Disponível em: 11 ago. 2016.
Por quê? Porque a gente sabe que é uma revista exigente na qualidade, uma revista que tem um fator de impacto significado. [...] Então, a gente pode inferir que é um artigo de boa qualidade.
Então, a CAPES... tem procurado estabelecer parâmetros de qualidade. O Qualis, a classificação de livros, a classificação de produção técnica, a internacionalização... são todas formas de se estabelecer exigência de qualidade.
Os questionamentos colocados pela professora Vera Cepêda e que reaparecem nas palavras de vários outros professores/editores que participam desta pesquisa deixam notar claramente suas preocupações normativas em relação ao modelo vigente utilizado pela CAPES na avaliação da produção científica e do que daí decorre. De acordo com André Marenco, coordenador de Área da CP e RI da CAPES:
[...] Na área de Ciência Política, por exemplo, se eu publicar 50 artigos numa revista B3, isso não vai significar absolutamente nada. Por quê? Porque a área de CP, ela, só pontua para efeitos de avaliação dos programas, artigos que são publicados por docentes em revistas B1 ou superior. No caso de discentes, [é aceito] todo o estrato do Qualis. [...] Por quê? Justamente por um critério de qualidade... Tanto faz, o cara, [se, docente] pode publicar 100 artigos numa revista de menor qualidade... isso não vai ter impacto nenhum, vai ser zero... porque a gente só quer considerar, de fato, aquilo que a gente tem garantia de que tem qualidade, que passou por um processo de revisão muito rigoroso, porque é uma revista que tem impacto, etc. etc.
Daí ser possível afirmar que seguir um padrão de produção acadêmica e científica ditado pelo Scielo, pelos periódicos científicos, etc. e ser compatível com os critérios estabelecidos pela CAPES é tido como sinônimo de “boa ciência”. Mas, como alertam vários respondentes desta pesquisa, é preciso cuidado para não confundir disposição e capacidade/necessidade de adequação com produção científica de qualidade. Do mesmo modo, é preciso cuidar para que de antemão não sejam excluídos ou subestimados como produtos da Ciência Política o que não se faz presente nos periódicos, A1, A2 e B1 — aceitos pela CAPES, como legítimos portadores de qualidade, mas que aparecem publicados noutros.
Tais como, nas revistas: Crítica Marxista, História e Luta de Classes, Outubro, Novos Rumos, Novos Temas, Antítese, Margem Esquerda, Marx e o Marxismo, Lutas Sociais, Novos Temas, Perspectivas, Teoria & Pesquisa, Revista Política Hoje, Sociedade e Cultura, Revista Debates, Conexão Política, Revista Estudos Políticos, Revista de Ciencias Sociai/UFC, etc.
A esse respeito e sobre o alcance dos trabalhos científicos que buscam analisar a disciplina quando realizados a partir, justamente, apenas da produção publicada em periódicos enquadrados nos estratos superiores do sistema Qualis da CAPES, as palavras do professor Álvaro Bianchi, da Unicamp, merecem destaque:
Simplesmente não podemos ter uma noção exata da ciência política brasileira olhando exclusivamente para os programas de Pós-Graduação com conceito 7 ou 6 na Capes ou, para as revistas A1, A2 e B1. E também, não podemos concluir que a melhor ciência política praticada neste país se encontra nesses programas ou nessas revistas. A avaliação da Capes tem um caráter fortemente normativo. Essas avaliações podem estar registrando simplesmente a capacidade de programas e revistas se adaptarem às normas das agências de fomento e não a qualidade da ciência política produzida ou divulgada por elas. Se as agências de fomento e as revistas considerarem próprias da ciência política certas abordagens metodológicas ou teóricas em detrimento de outras, então será de se esperar que aqueles programas ou revistas que privilegiam essas abordagens se destaquem. Mas o resultado obtido será muito distorcido. Em 2013 o livro ganhador do prêmio Anpocs de melhor obra científica de ciências sociais, “Os sentidos do lulismo”, de André Singer, não foi avaliado pela comissão da área de ciência política da Capes porque não se enquadrava nos critérios formais estipulados. Introduzir o Scielo ou o Scopus como um critério de demarcação para a classificação das revistas é outra fonte de distorções. Enfim, é preciso distinguir melhor entre resultado da avaliação e qualidade da pesquisa. Não são a mesma coisa.
Gabriel Vitullo, professor da UFRN, também concorda com o fato de que concentrar o foco apenas nas revistas A1, A2 e B1 no momento de avaliação da disciplina pela CAPES
“deixa de fora muito daquilo que não se identifica com os cânones dominantes na disciplina e que, por este (dentre outros motivos), não consegue espaço para ser divulgado nas revistas A1, A2 e B1”. Igualmente, o professor Ricardo Musse, da USP, pois, para ele:
uma das funções das agências de pesquisa consiste em determinar os rumos e a linha teórica das investigações. Por meio de bolsas, editais, divulgação científica, etc., elas atuam no sentido de promover determinadas linhas de pesquisa em detrimento de outras. A atuação dessas agências, ultimamente, em que pese o fim da guerra fria, se orienta pelo claro propósito — salvo raras exceções — de dificultar o desenvolvimento do marxismo, apesar de sua disseminação entre os pesquisadores e da sua tradição como modalidade de interpretação do Brasil.[...] A orientação predominante nas revistas melhor avaliadas pela Capes ignora linhas de investigação relevantes não só em termos qualitativos, mas inclusive quantitativos.
Dito isto, é possível inferir que uma visão que leve em consideração um leque mais abrangente, capaz de incluir na avaliação da disciplina a produção publicada mesmo aquela que não aparece nos “periódicos de maior qualidade”, permite uma conclusão a respeito da disciplina menos enviesada e mais consistente no tempo. E, a não ser que, no Brasil, a disciplina assuma de forma explicita e definitiva, por meio de seu processo de especialização e de disputas internas, que, por exemplo, a produção cientifica dos pesquisadores marxistas não é Ciência Política, ainda que estes possuam formação e sejam professores/pesquisadores em ciência política, a presente pesquisa defende a necessidade de um olhar mais abrangente e capaz de considerar como parte da disciplina tudo aquilo que se produz cientificamente sobre a política. Afinal, nãos seria a Ciência Política, a ciência, por excelência, da política? Antes que, a ciência da democracia e das suas instituições, conforme a concepção do professor
Fabiano Santos? Até mesmo porque, a subjetividade e, portanto, a mutabilidade das certezas e interesses é algo sempre presente e produto de disputas. Segundo Fabiano Santos, do IESP:
A produção em revistas ainda não pontuadas em revistas Qualis A1, A2 e B1 pode ser tão importante quanto a que se encontra publicada em tais periódicos, em função dos interesses de pesquisa de quem consome o material. O mesmo pode ser dito com relação às revistas marxistas, embora, para mim, faça pouco sentido a adjetivação. Não pauto minha avaliação sobre um artigo, sua importância, por exemplo, a partir dos critérios estabelecidos pela Capes, muito
A produção em revistas ainda não pontuadas em revistas Qualis A1, A2 e B1 pode ser tão importante quanto a que se encontra publicada em tais periódicos, em função dos interesses de pesquisa de quem consome o material. O mesmo pode ser dito com relação às revistas marxistas, embora, para mim, faça pouco sentido a adjetivação. Não pauto minha avaliação sobre um artigo, sua importância, por exemplo, a partir dos critérios estabelecidos pela Capes, muito