Tomando os processos pelos quais se (des)faz o género a partir das transgressões, procurámos olhar heuristicamente para a realidade social. Uma posição “estenográfica” que orientou os procedimentos da pesquisa e as premissas teóricas consideradas necessárias para a sistematização empírica (Wacquant 1989, 51). A transgressão de género foi simultaneamente o ponto de partida e a matriz de análise empírica porque entendemos que a sua conceptualização nos permite compreender as lógicas dos processos sociais. Como explicámos nos capítulos anteriores esta posição foi aprofundada criticamente de modo a contornar vários obstáculos frequentes na investigação. O da nomeação – que implica sempre uma tomada de posição e legitimação de uma perspetiva em detrimento de outras. O da complexidade – é preciso acautelar a confusão entre a realidade da representação e a representação da realidade (Grenfell e Lebaron 2014, 23). O da criatividade – que não pode iludir-se com um empréstimo (ou roubo) negligente da terminologia e do quadro conceptual de outras disciplinas (Braidotti 2008, 26 [1990]). Qualquer termo ou palavra carrega ambivalências e os seus usos são mais pertinentes do que os seus significados na análise do social. É o contexto que determina a especificidades do sentido e não um conceito abstrato e geral.
Construímos um conceito em articulação com os dados específicos, de maneira a compreender como se (des)faz o género. A transgressão foi o constructo impulsionador da análise empírica que nos permitiu pensar as questões da ordem e do limite do género e demonstrar a sua presença e efeitos nas vidas contemporâneas portuguesas e britânicas. O nosso objeto de estudo foi sendo construído através da conjugação entre as definições e a empiria, numa lógica de vai-e-vem que permitiu afinar e refinar o processo de pesquisa e discernir sobre os objetivos específicos e as escolhas metodológicas que aqui se apresentam. As lentes que usamos para interpretar um fenómeno social englobam necessariamente uma interdependência das perspetivas. Na análise do nosso objeto de estudo privilegiámos uma interligação entre as lentes históricas, comparativas e transnacionais. Não por funcionarem em simultâneo (como se fossem um reflexo diacrónico) mas porque constituem ângulos distintos do olhar multidimensional que procurámos por em prática.
Estas lentes são históricas porque – como nos alertam diversas autoras (nomeadamente R. W. Connell 1987; 2009b; Scott 2008 [1989]; ou Offen 2008 [2000]) – uma análise descontextualizada e a-histórica desemboca facilmente em descrições vagas ou extrapolações de pendor universalista e/ou determinista. Os estudos historicamente situados de género (e não só) permitem-nos desconstruir os termos da “diferença sexual” e “recusar a qualidade fixa e permanente das oposições binárias” (Scott 2008, 63 [1989]). A visão histórica possibilita uma compreensão mais rigorosa das permanências e mudanças nos regimes e ordens de género, aprofundando o que se entende como alternativa e de que modo são construídas (R. W. Connell 1987; 2009b). Como refere Offen (2008, 37 [2000]) em relação à história comparada dos feminismos, o estudo historiográfico requer uma investigação do passado de “dentro para fora” (e não de cima para baixo ou de baixo para cima). As forças “profundas” ou “subterrâneas” que estruturam os modos de (des)fazer o género num determinado contexto fornecem pistas que não podem ser negligenciadas na análise empírica.
Ao considerar as potencialidades e limites da abordagem histórica comparativa, a historiadora Anne Cova (2008 [2006]) demonstra como uma comparação requer necessariamente seleção e abstrações. Estas ajudam a alcançar uma visão abrangente e simultaneamente a compreender o que é distintivo. Para discernir o que permanece e o que muda precisámos de captar os níveis implicados na abordagem comparativa das práticas de género. A realidade social é relacional e comporta uma grande complexidade (Bourdieu 2001). As lentes comparativas foram fundamentais para olharmos para o todo e aceitar a sua complexidade. Para identificar as estruturas organizadoras e os princípios implícitos nas práticas de género (Grenfell e Lebaron 2014). A nossa análise do “espaço social” valorizou as diferentes lógicas (dominantes e alternativas) na construção do género e as suas especificidades contextuais. Uma abordagem comparativa que privilegiou os processos e modos de diferenciação e as relações sociais objetivas resultantes das estruturas distributivas, performativas e discursivas para (des)fazer o género. A seleção de dois contextos socioculturais e institucionais, seus entrecruzamentos e especificidades, possibilitou uma maior compreensão de como se movem as linhas de força assumidas como pertinentes e legítimas na constituição do sentido. Multiplicando os terrenos de observação pudemos aprofundar a diversidade e as lógicas presentes nos “microcosmos” (Guerra 2006; Burawoy 2000).
Estas lentes cruzam-se com as transnacionais porque concorrem para situar as vidas no seu momento histórico mas também “extra-local”. Isto é, a relação entre os conhecimentos situados e os processos sociais no seu contexto mais vasto de determinação (Burawoy 2000).
Compreender os processos e modos de diferenciação de género e a mobilidade de ideias implicou ir além de categorias discretas como “nação” (Guarnizo e Smith 1998; Schiller, Basch, e Blanc-Szanton 1992). Analisar como o género é (des)feito através das lentes transnacionais exigiu dois enfoques. Por um lado, naquilo que é “relativamente visível” como os “fluxos entre fronteiras de ideias, pessoas, conhecimento, tecnologias e recursos económicos” (Widen 2014, 58). Por outro lado, foi preciso ver estas manifestações perante aquilo que não é assim tão “tangível”, ou seja, dos “fluxos de diferenças e delineamentos” (ibid.). A procura dos princípios geradores das diferenças e, particularmente, dos mecanismos que determinam as transgressões de género teve de ser compreendida na articulação entre a distribuição desigual dos recursos e o poder. Uma análise crítica dos processos e modos de diferenciação nas práticas de género que aprofunda as lógicas presentes nos microcosmos específicos mas também investe em situá-los no seu contexto histórico e extra-local (Guerra 2006; Burawoy 2000).
Esta abordagem tripartida foi uma oportunidade para compreender as práticas de género e a sua relação com a ordem e o poder. Sobretudo face à relevância das dimensões temporal, relacional e territorial para o nosso objeto de estudo. Encontramos frequentemente a alusão à multiplicidade e variabilidade nos estudos de género. Contudo, esta foca-se grosso modo numa diversificação a partir das masculinidades e/ou feminilidades. As configurações do poder e do que é considerado legítimo no fazer do género não só marginalizam alternativas (desconhecidas ou ignoradas) como solicitam o seu enquadramento num dos conjuntos antagónicos. Quando as diferenças de género não são inter (práticas masculinas vs. práticas femininas) só podem ser intra (diferentes masculinidades, etc.). As possibilidades da diferença no género ser supra (práticas diferentes) estão constantemente na incógnita porque não são vistas, são desvalorizadas ou porque são ininteligíveis. Isso levou-nos a adotar uma pesquisa qualitativa ou compreensiva (Flick 2007) – uma investigação focada na interpretação destas diferenças. A complexidade do fenómeno convidou a uma análise intensiva que permitisse captar os paradoxos e entrelaçamentos existentes na (re)produção do género e, especificamente, na construção social das diferenças. Esta aproximação foi a mais a adequada para o nosso tipo de análise porque pressupõe uma compreensão diferente da relação entre o assunto e os métodos mobilizados para a sua exploração (Flick 2007; Guerra 2006; Glaser e Strauss 2006; Mason 2002; Strauss e Corbin 1998). Este tipo de análise não se incompatibiliza com as investigações quantitativas. Mas a ausência de dados específicos sobre este tema – que só recentemente se começaram a recolher e ainda com dificuldade (Titman 2014) – aliada à “população escondida” que se posiciona e (des)faz o género de forma alternativa à oposição implicaram outro tipo de
aprofundamento. Além disso, a preocupação com as lógicas dos processos sociais (como) e com uma reflexividade e objetividade trans/feminista afastou-nos dos modelos positivistas1 e das
correntes que procuram estritamente as causalidades dos processos sociais (porquê). As nossas lentes carregam, portanto, um conjunto de pressupostos epistemológicos e ontológicos nos quais nos baseámos para definir as prioridades e os critérios do nosso contributo científico (Patton 2002)2. Compromissos que se tornaram cada vez mais evidentes ao longo do nosso
percurso de pesquisa.