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CAPÍTULO 2 ACIDENTES E DOENÇAS OCUPACIONAIS

2.4 Abordagens dadas aos Acidentes do Trabalho

Segundo LUCCA e FÁVERO (1994), existem alguns autores que ao analisar o acidente em seus aspectos econômico, social e legal escrevem que o mesmo não resultaria apenas da interação dos fatores de microambiente (agentes químicos, físicos, biológicos e ergonômicos) mas principalmente das relações de produção e de seus componentes culturais, sociais e econômicos. Assim sendo, as abordagens poderão assumir característica sistêmica, social, legal e econômica.

2.4.1 Abordagem Sistêmica

Em 1931, H.W. Heinrich visualizou o acidente como todo evento não planejado, não controlado e não desejado que interrompe uma atividade ou função. Sob este enfoque são considerados todos aqueles acidentes que, de uma forma ou de outra, comprometem o andamento normal de uma atividade, provocando danos materiais e lesões pessoais. (CARDOSO, 1994).

Para LEPLAT e CUNY (1979), o acidente é visto como um resultado não esperado do trabalho; uma conseqüência mais ou menos longínqua, mas sempre necessária, de uma certa forma de interação criada dentro de um sistema assumindo a sua função. É um sintoma de disfuncionamento: um sintoma porque envia ou revela a interação em causa; de disfuncionamento na medida em que pode ser admitida a hipótese de que tal efeito (o acidente) é necessariamente devido a uma forma de interação julgada defeituosa em algum lugar.

Segundo BIRD (1974), os acidentes podem ser vistos como os mesmos princípios efetivos de administração que podem ser usados para eliminar ou controlar muitos, senão todos, os incidentes comprometedores que afetam a produção e qualidade. Para o autor, prevenindo e controlando os incidentes através do controle de perdas, todos: pessoas, equipamentos, material e ambiente, estarão protegidas com segurança. Assim, além das lesões

pessoais, são considerados como acidentes, quaisquer acontecimentos que gerassem danos à propriedade, ou seja, aqueles acontecimentos que provocassem perdas para a empresa, mesmo que substanciais, em termos de materiais e equipamentos.

Para SELL (1995), o acidente é visto como uma colisão repentina e involuntária entre pessoa e objeto, que ocasiona danos corporais e/ou materiais. Segundo o autor, o acidente pode também ser entendido como uma perturbação no sistema de trabalho em seu estado ideal, cujos fatores técnicos, organizacionais e humanos estão em harmonia. Desta forma, o acidente prejudica ou impede o alcance dos objetivos deste sistema.

Segundo SOTO (1978), um acidente do trabalho é visto como uma ocorrência inesperada, que interrompe ou interfere no processo normal de uma atividade, ocasionando perda de tempo, lesões nos trabalhadores ou danos materiais.

Para ACHCAR (1989), o acidente é visto dentro de um contexto sócio- técnico. Nesta visão leva-se em consideração o estudo do funcionamento do sistema, isto é, o acidente é abordado como uma última etapa de uma série de perturbações ou variações dos componentes que aparecem nas atividades da vítima e de seus companheiros.

2.4.2 Abordagem Social

Para ALMEIDA e BINDER (2000), os acidentes do trabalho são vistos como fenômenos socialmente determinados, previsíveis e preveníveis. Ao contrário de constituir obra do acaso como sugere a palavra acidente, os acidentes do trabalho são fenômenos previsíveis, dado que os fatores capazes de desencadeá-los encontram-se presentes na situação de trabalho (passíveis de identificação) muito tempo antes de serem desencadeados. A eliminação/neutralização de tais fatores é capaz de evitar/limitar a ocorrência de novos episódios semelhantes, ou seja, além de previsíveis, os acidentes do trabalho são preveníveis. Segundo o autor, afirmar que os acidentes do trabalho são socialmente determinados equivale a dizer que resultam de

fenômenos sociais, sobretudo da forma de inserção dos trabalhadores na produção e, conseqüentemente, no consumo, expressando as correlações de forças existentes em sociedades concretas.

HEINRICH apud HEMÉRITAS (1981), em sua obra "Industrial Accident Prevention", aponta que os acidentes de trabalho, com ou sem lesão, são devidos à personalidade do trabalhador, à prática de atos inseguros e à existência de condições inseguras nos locais de trabalho. Supõe-se, desta forma, que as medidas preventivas devem ater-se ao controle destes três fatores causais.

Segundo BINDER et al.(1994), no Brasil, grande parte das investigações de acidentes realizadas por força de normas legais pela maioria das empresas, ainda se baseia na concepção dicotômica de ato inseguro e de condições inseguras, freqüentemente desembocando na atribuição de culpa ao trabalhador pelo evento que o vitimou e recomendando medidas de prevenção orientadas para mudanças de comportamento, sabidamente as mais frágeis.

Para DWYER (1994), os acidentes são produzidos por relações sociais do trabalho, sendo que a relação social do trabalho constitui na maneira pela qual é gerenciado o relacionamento entre uma pessoa e seu trabalho. Para o autor, estas relações se apresentam em três níveis dentro de uma organização, assim estabelecidos:

a) Nível de rendimento: os acidentes são produzidos por fatores tais como, incentivos financeiros, excesso de carga horária, e incapacidade dos trabalhadores mal nutridos de executar tarefas com segurança. Segundo o autor nenhum desses fatores em si causam acidentes e também podem variar de uma fábrica ou de setor para setor.

b) Nível de comando: os acidentes podem ocorrer por desintegração do grupo de trabalho e pelo autoritarismo. Neste sentido a desintegração é devida a não coesão e pela dificuldade de comunicação e o autoritarismo ocorre em função do trabalhador executar tarefas sob pressão e ameaça de punição.

c) Nível de organização: os acidentes ocorrem quando o trabalho é produzido pelo controle sobre a divisão do trabalho, isto é, a falta de

qualificação que leva o trabalhador a realizar uma tarefa sem conhecimento suficiente e sua desorganização quando o trabalhador não tem conhecimento adequado para evitar acidentes ou eventos produzidos fora do alcance da tarefa.

Neste sentido, os acidentes de trabalho vistos numa abordagem social, causam no trabalhador o afastamento temporário ou definitivo do mercado de trabalho, trazendo-lhe perdas econômicas e o estigma da sociedade e da própria família por ser uma pessoa inválida e não produtiva.

2.4.3 Abordagem Econômica

Numa abordagem econômica os acidentes de trabalho são vistos sob três aspectos:

a) Empresa: neste aspecto o acidente de trabalho significa uma "uma redução no número de homens/horas trabalhadas", isto é, o acidente causa um custo direto que é representado pela perda temporária e/ou permanente do trabalhador quando a empresa paga o salário do trabalhador dos primeiros 15 dias de afastamento e podendo ai incluir o dano material de máquinas e equipamentos. Existe ainda o custo indireto provocado pelo acidente que significa o tempo de parada da linha de produção no local do acidente, o envolvimento dos colegas de trabalho ao socorrerem o acidentado e as despesas com assistência médica.

b) Estado: existe as despesas decorrentes dos acidentes do trabalho, sob a forma do pagamento de benefícios previdenciários, a partir do 16º dia de afastamento do trabalho do acidentado e o pagamento das despesas do tratamento e reabilitação profissional, quando necessário.

c) Trabalhador: para o trabalhador quando afastado do mercado de trabalho em decorrência do acidente do trabalho, resta-lhe o benefício ou aposentadoria por invalidez.

2.4.4 Abordagem Legal

Numa abordagem legal, o estado é colocado como o grande protetor do empregador e dos empregados, estabelecendo a legislação e realizando a fiscalização. Já o empregador assume o cumprimento da legislação existente e todas as responsabilidades pelos infortúnios do trabalho, pagando adicionais de periculosidade e/ou insalubridade que os empregados poderão estar sujeitos.

LUCCA e FÁVERO (1994), escrevem que muito mais do que a presença dos agentes ambientais do local de trabalho (microambiente), a ocupação teria estreitas relações com a posição que o trabalho tenha adquirido na estrutura social de cada sociedade. Ou seja, como reflexo da estrutura social e econômica, haveria formas particulares de adoecer e morrer para determinados trabalhadores. Os acidentes do trabalho, doenças profissionais, entre outras, tendem a apresentar a incidência diferenciada nos diversos grupos operacionais.

Para COLETA (1991), só é possível entender o processo de segurança e prevenção de acidentes do trabalho dentro da empresa moderna, como uma atividade cooperativa e não-competitiva entre os diversos segmentos que a compõem, classificando-a não como uma reivindicação dos trabalhadores, uma concessão do empresário, ou uma imposição do governo, mas com a necessidade de qualquer sistema produtivo, como um direito de todo ser humano que se dedica ao trabalho.

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