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I. Da Espiritualidade e da Arte

I.4.2. Abstracção

O termo abstracção, surgido da noção de origem latina abstrahere, significa ‘tirar de’, ‘extrair de’, ou ‘sair de’. A abstracção nasce da operação de separação da realidade figurativa, da separação do sujeito com os lugares, com o que lhe é exteriormente visível, logo, o sujeito fica numa dimensão ulterior ao sensível, para lá da resistência da matéria e dos corpos138. Tem-se pois, por um lado, a figuração, a representação, o aspecto exterior (corpóreo e superficial) dos fenómenos e, por outro, a abstracção, a apresentação do aspecto interior, essencial ou possivelmente espiritual dos fenómenos. O acabar com a figuração, com o mimetizar a natureza e a realidade, permite também aos primeiros autores abstractos encontrar as condições necessárias para a expressão de uma subjectividade cada vez mais autonomizada, isto é, a rejeição do mundo visível exterior permite-lhes admitir o acesso a um mundo (in)visível interior e, com isso, aceder a uma dimensão sagrada. A abstracção era, na arte, um meio para atingir uma verdade maior, como fica bem expresso nas palavras de Rudolf Steiner: “(…) «what appears in painting is a depiction of something supersensible», a «revelation of the spiritual world».”139. Muitos autores abstractos rejeitam a figuração, porque acreditam que essa é uma forma de evasão do mundo alienado em que se encontram, e assim podem exprimir melhor a sua subjectividade e os valores que lhes parecem os mais autênticos, ou seja, os espirituais. Como dirá Kandinsky: “A forma abstracta é mais vasta e mais livre do que a forma figurativa e o seu conteúdo mais

138 Cf. Fernado Rosa DIAS, “Arte Abstracta: Autonomia e Retaliação da «Gnoseologia Inferior»”, in AAVV, Arte e

Abstracção, (…), p. 11.

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Rudolf STEINER, em conferência de 1920, citado in James ELKINS, op. cit., p. 79. Para Steiner a pintura era a reminiscência de um sistema ancestral perdido (superior à visão objectiva/fisiológica) de comunicação com o mundo espiritual.

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rico.”140. Segundo Robert Rosenblum, historiador de arte e um dos autores do catálogo da já mencionada exposição de 1986, a abstracção, mais do que apresentar uma ruptura definitiva com a arte figurativa, na realidade faz parte duma tradição, iniciada no período romântico, que impulsionou um tipo de pintura paisagística com ‘sentido de divindade’141. Rosenblum afirma que os primeiros abstraccionistas se debateram com os mesmos problemas dos românticos: como encontrar, num mundo secular, meios convincentes de exprimir o sagrado, e de exprimir experiências de cariz religioso? Porque, na realidade, o que se tratava para os pioneiros do abstraccionismo era de tentar o acesso a algo transcendente, de justificar e apresentar a existência do Absoluto, mas através de uma perspectiva invisível. Como refere Alain Besançon, o movimento abstracto é pontuado por referências directas ao iconoclasmo religioso142; Besançon sublinha os grandes ciclos do iconoclasmo histórico: o platónico (Antiguidade Clássica), o bíblico (a interdição da imagem de Deus pela Torah hebraica), os dois ciclos medievais, o ciclo protestante (Idade Moderna) e, por último, o recente (e laico) ciclo do simbolismo e da arte abstracta (no período contemporâneo). Curiosamente, uma ‘chave’ para compreender a definição de abstracção (e em última análise para se entender grande parte da arte contemporânea) é um conceito teológico surgido nos primórdios do cristianismo - a mistagogia -, que significa a precedência de toda a experiência à significação que ela possa vir a ter143, ou seja, a arte (e a pintura em particular) deixa de representar a realidade para a exprimir em primeira instância e torna-se ‘partilha’ de experiência com o espectador, e não acto de justificação da realidade.

Este desligar do processo histórico, e da renúncia e desconfiança em relação à tradição judaico-cristã ocidental, é explicitado por muitos artistas vanguardistas, que preferem um regresso ao olhar primitivo, às origens das emoções universais primordiais, onde a condição humana está indissociada da experiência do sagrado144.

140 Wassily KANDINSKY, O Futuro da Pintura, (…), p. 58. 141

Cf. Pamela SCHAEFFER, op. cit., p. 1. 142

Cf. Alain BESANÇON, L’Image Interdite, Paris, Éditions Gallimard, 1994, p. 14. 143

Por mistagogia compreende-se o encontro da significação última de todas as coisas (p. ex.: Deus, ou o Absoluto), que se faz através de uma experiência sensível - fé, milagre, iluminação, etc. - e não através de uma explicação racional, cf. Philippe MARKIEWICZ, “Art Contemporain et Christianisme”, in ARTS Sacrés, Éditions Faton, nº 5, Mai.-Jun. 2010, p. 34.

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Paulo Pires do Vale escreve sobre esse período inaugural do século XX: “Um regresso às origens mais puras da relação com os mitos e a nostalgia das origens, a comunhão com a matéria, a simplicidade das formas originais, o cosmos, e as suas forças sagradas, o fascínio pelo informe e o caos.”, Paulo Pires do VALE, Uma Fenda no Mundo. Do

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Georges Rouault (1871-1958), por exemplo, considera que a ‘humanidade está perdida’, e é na cor, na luz, nos meios pictóricos, que encontra a verdade que, para ele, equivale a uma essência religiosa e salvífica145. Franz Marc (1880-1916), pintor pertencente ao grupo Cavaleiro Azul, afirma em 1912: “A aspiração ao ser indivisível, o desejo de libertar a nossa vida efémera da ilusão dos sentidos é a tendência de toda a arte… mostrar o ser não terreno que está por detrás de tudo, quebrar o espelho da vida para podermos olhar para esse ser.”146

. A pintura abstracta foi literalmente inventada por artistas que acreditavam que a arte deveria fornecer uma mensagem transcendente. Os artistas desta vanguarda inovavam porque acreditavam que correr um risco artístico significava também correr um risco espiritual. Estes autores sentiam-se ‘criadores’ porque eram motivados pela descoberta de novas formas, novas linguagens, motivados pelo sonho de criar verdadeiramente ‘outra coisa’, e surpreendiam-se com as suas descobertas. A este propósito pode-se ler: “A abstracção é assim esse contacto mais intenso com o mundo, para lá da epiderme das aparências, para exprimir as suas leis cósmicas.”147. Tudo isto poderá parecer estranho na actualidade, porque muita da concepção sobre arte abstracta, e muito do pensamento teórico sobre o abstraccionismo, se baseou (e foi amplamente difundido mais tarde) nas teorias formalistas de Clement Greenberg (1909-1994) que, ao recusar analisar qualquer sentido ou conteúdo na pintura além do formal, e ao negar a própria ideia de profundidade ilusória, rejeita a possível espiritualidade ou religiosidade associadas à pintura abstracta148. Em 1912, num tom quase profético, o crítico de arte alemão Wilhelm Hausenstein (1882-1957) escreve um texto sobre arte e religião no qual advoga uma ‘nova religiosidade’ - a da arte -, a única possível num futuro próximo; afirma

http://www.snpcultura.org/vol_uma_fenda_no_mundo_do_espiritual_na_arte_contemporanea_2.html de 12-10-2010, p. 5.

145 Cf. Walter HESS, Documentos Para a Compreensão da Pintura Moderna, Lisboa, Edição Livros do Brasil, s.d., p. 69.

146

Idem, p. 151. 147

Fernando Rosa DIAS, “Introdução ao Expressionismo”, in AAVV, As Artes Visuais e as Outras Artes, As Primeiras

Vanguardas, (…), p. 26.

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Donald Kuspit afirma que a teoria modernista de Clement Greeberg é o último degrau do processo modernista de desespiritualização da pintura que, em última instância, passa a ser vista apenas como um médium, cf. Donald KUSPIT,

Reconsidering the Spiritual in Art, (…), p. 7. Curiosamente a pintura não-objectiva dos primeiros abstraccionistas, que

anos mais tarde será vista como arte moderna revolucionária, é anti-modernista em espírito; Greenberg ao afirmar, anos mais tarde, que a arte abstracta reflecte o positivismo materialístico da modernidade, não considera que Kandinsky (e outros autores da época) era totalmente contra esses valores, cf. idem, p. 13.

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o autor que só através de êxtases poéticos e pictóricos é que o público ultrapassará a sua condição finita e acederá ao infinito e ao incompreensível149.

No documento Vox Dei:metáfora(s) da espiritualidade (páginas 45-48)