TÍTULO II A Extinção do Posto de Trabalho
2.2.4 Acórdão n.º 602/2013 do Tribunal Constitucional
Se por um lado é verdade que as alterações inovadoras apresentadas pela Lei n.º 23/2012 visavam a maior aplicabilidade da modalidade em apreço, por outro lado estas alterações suscitaram dúvidas quanto à sua conformação com a CRP.
E foi, precisamente, na sequência de um pedido de fiscalização sucessiva da constitucionalidade, apresentado em julho de 2012 por um grupo de deputados à Assembleia da República relativamente a normas introduzidas no Código do Trabalho através da Lei nº 23/2012, de 25 de junho, que o TC se pronunciou pela inconstitucionalidade com força obrigatória geral no Ac. do TC n.º 602/13, de 20 de setembro49.
No que concerne à proibição do despedimento sem justa causa, concretamente quanto ao Artigo 368º, n.os 2 e 4, do Código do Trabalho (o despedimento por extinção de posto de trabalho), o pedido de fiscalização fundamentava-se, em síntese, no seguinte:
Por um lado, “Ao eliminar-se a obrigatoriedade de transferência para posto de trabalho compatível (e o ónus de verificar se há posto de trabalho alternativo), cria-se uma margem de discricionariedade que possibilita o «contorno», pela entidade patronal, da verificação dos elementos e procedimentos disciplinares baseados na existência de justa causa para despedimento, pondo assim em causa o princípio
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constitucional da segurança no emprego e a proibição dos despedimentos sem justa causa (artigo 53º da Constituição) ”;
Por outro lado, “ (…) a possibilidade de elaboração casuística, ah hoc, de critérios de seleção, diferentes em cada situação, não garante a objetividade na seleção do trabalhador a despedir antes permitirá a elaboração de critérios de seleção à medida do(s) trabalhador(es), que se pretenda despedir”.
Concluindo que “ (…) o enfraquecimento do sistema legal de garantias que rodeiam a admissibilidade do despedimento por extinção do posto de trabalho, nos termos constantes da Lei n.º 23/2012, de 25 de junho (artigo 368.º, n.ºs 2 e 4), põe claramente em causa a admissibilidade constitucional desta forma de despedimento, na medida em que permitirá a realização de despedimentos arbitrários ou baseados na mera conveniência da empresa, absolutamente vedados pela Constituição nos termos do artigo 53.º.”
No acórdão n.º 602/2013, de 20/09 (retificado pelo acórdão n.º 635/2013, de 1/10), o Tribunal Constitucional declarou a inconstitucionalidade com força obrigatória geral de algumas normas do Código do Trabalho (CT) na redação dada pela Lei n.º 23/2012. A verdade é que, só uma parte muito reduzida das alterações legislativas constantes da referida Lei mereceu a censura daquele Tribunal, sendo que uma delas foi relativa ao despedimento por extinção do posto de trabalho.
Neste contexto, a redação introduzida pela Lei n.º 23/2012 do n.º 2 do artigo 368.º do CT, onde se previa a prorrogativa de o empregador definir os critérios de seleção dos trabalhadores a despedir, nas situações em que existisse pluralidade de postos de trabalho com idêntico conteúdo funcional foi declarada inconstitucional, bem como a norma do art.º 368.º, n.º 4, do CT na redação dada pela Lei n.º 23/2012, a que supra se aludiu.
O TC considerou, assim, que o regime da extinção do posto de trabalho plasmado na Lei n.º 23/2012 padecia de desconformidade com a Constituição50 por violação do princípio da segurança no emprego, consagrado no artigo 53.º da CRP, nomeadamente por considerar que o n.º 2 do artigo 368.º, nos moldes em que estava estabelecido, não provia as necessárias indicações normativas quanto aos critérios que devem presidir à decisão do empregador de seleção do posto de trabalho a extinguir. Por outras palavras, para o TC a norma cuja fiscalização da constitucionalidade foi suscitada, por um lado, permitia que essa escolha ficasse na disponibilidade do empregador, e por outro lado, alheava a seleção do trabalhador a despedir das razões que devem presidir à escolha do concreto posto de trabalho a extinguir, na medida
50 Para MONTEIRO FERNANDES (2014b: 397), como veremos adiante, o TC julgou a incompatibilidade da norma em apreço com a CRP “partindo de um pressuposto (…) menos certeiro”, “o de que o critério legal visava essencialmente a “objetivação” da escolha, exigida pela noção de justa causa”. Para este Autor o que estava verdadeiramente omisso na Lei era a previsão de preocupação com as consequências para o trabalhador a despedir.
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em que os critérios deviam corresponder, exclusivamente, às razões subjacentes à decisão de extinção do posto de trabalho.
A declaração de inconstitucionalidade determinou a invalidação de tal regime desde a data da sua entrada em vigor (1 de agosto de 2012)51, determinando-se, assim, a repristinação do regime instituído antes da entrada em vigor da Lei n.º 27/2012.
Perante a reforma de 2012, a posição do TC foi determinante para a necessidade de se gerar a legislação corretiva, como se verá de seguida.
Note-se contudo, que a decisão do TC não foi unanime, contou com votos contra do juiz relator, PEDRO MACHETE, acompanhado por MARIA DE FÁTIMA MATAMOUROS, tendo feito a sua declaração de voto vencido precisamente quanto a esta matéria, com o fundamento de
que:
a) o “alinhamento do despedimento por extinção do posto de trabalho com o despedimento coletivo no tocante à objetividade dos respetivos fundamentos. Nessa mesma medida pode justificar-se um tratamento paralelo ao previsto no artigo 360.º, n.º 2, alínea c), do Código do Trabalho quanto à definição dos critérios para seleção dos trabalhadores a despedir”;
b) “não se compreende porque há de ser a antiguidade um critério mais importante ou mais objetivo” do que outros (por exemplo, “habilitações, o custo do trabalhador para a empresa, o custo do trabalhador para a empresa, a sua produtividade, os resultados da avaliação de desempenho ou a situação pessoal e familiar dos trabalhadores elegíveis"; finalmente,
c) o “controlo judicial da objetividade, relevância e do caráter não discriminatório dos critérios eventualmente definidos pelo empregador (…), estaria suficientemente acautelado pela exigência legal de fundamentação resultante da conjugação dos artigos 369.º, n.º 1, alínea c), e 371.º, n.º 2, alínea c), ambos do Código do Trabalho”.
51 Note-se que, apesar da invalidação de tal regime remontar à data da sua entrada em vigor (1 de agosto de 2012), parte da doutrina entende que as situações juridicamente consolidadas “não poderão ser atingidas” – consideradas ilícitas –, tais como aquelas em que já existe uma decisão judicial transitada em julgado ou em que a correspondente ação de impugnação não tenha sido interposta no prazo legalmente concedido para o efeito (Falcão e Tomás, 2016: 88). Neste sentido, veja-se Vieira Gomes e Carvalho (2014:205), em in “Anotação ao Acórdão do Tribunal da Relação de Coimbra de 15/05/2014 (ou da aplicação da declaração de inconstitucionalidade dos números 2 e 4 do artigo 368.º do Código do Trabalho) ”.
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Por último, importa referir que na declaração de voto contra de MARIA LÚCIA AMARAL é referido que o uso de “conceitos indeterminados são sempre suscetíveis de determinação perante o caso concreto, como são sempre suscetíveis de preenchimento valorativo as cláusulas gerais”, pelo que serão passíveis de “controlo jurisdicional” evitando-se os despedimentos arbitrários. 52