3.3.3 – Ter objectivos, estar presente, deixar-se conhecer e saber esperar
4.1 – A S ACA EM TMAD, EM NÚMEROS
Em TMAD, inscritas no RNPC, existem cerca de uma centena e meia de ACA: 53 associações, entre as quais 9 são associações florestais; 30 centros de gestão; 40 cooperativas, 8 das quais cooperativas olivícolas; e, 24 adegas cooperativas. Destas, como já dissemos, apenas conseguimos confirmar a existência de 123, correspondendo a 84% do total; as menores taxas de confirmação ocorreram com os centros de gestão e as cooperativas olivícolas, pelas razões apontadas anteriormente. Entre as ACA não confirmadas, com grande probabilidade, muitas existirão apenas no “papel”. O Quadro 4.1 reúne os principais elementos caracterizadores das ACA que conseguimos confirmar, merecendo destaque a diversidade de situações encontradas.44
Quadro 4.1 - Elementos caracterizadores das ACA em TMAD.
Ass. CG Coop. Acoop.
µ Máx. Min. µ Máx. Min. µ Máx. Min. µ Máx. Min. Idade da ACA (anos) *7,7 27 2 *5,4 15 3 *26,7 62 2 *44,6 52 9 Membros fundadores *16,5 400 4 18,2 48 10 *10,9 1360 9 *27,4 350 10 Membros actuais (ma) *248,2 3000 17 *168 280 45 *298,4 4383 18 *662,1 2100 300 Técnicos superiores *1,7 20 0 1,8 5 1 1,4 4 0 *0,9 9 0 Pessoal administrativo 1,2 7 0 0,4 2 0 *0,5 7 0 *2,7 10 0 Pessoal qualificado 0,3 7 0 0,1 1 0 *0,4 10 0 *1,1 8 0 Pessoal não qualificado 0,2 4 0 0,2 3 0 3,9 40 0 *4,3 18 0 Carros *0,6 16 0 0,1 1 0 0,6 3 0 *0,4 3 0 Veículos especiais 0,5 3 0 0,0 0 0 1,8 11 0 *1,2 3 0 Computadores *2,3 20 0 *3,2 6 1 *1,8 9 0 *4,6 8 1 ACA s/ téc. Sup. (%) 11 0 32 13 ma/téc. sup. *166 *105 *310 *445 ma/outro pessoal *308 *143 *59 *55 Sede própria (%) 18 10 88 100 Acesso à Internet (%) 88 85 42 93
Relativamente aos indicadores estudados as diferenças são significativas (Teste de Kruskal Wallis)45, para todos excepto para o número de membros fundadores (KW=7,1; p=0,068), o número de computadores pessoais disponíveis (KW=4,5; p=0,214), e o número de técnicos superiores (KW=0,181; p=0,181). Por esta razão os indicadores são estudados e comentados relativamente ao tipo de ACA.
Iniciando pela idade das ACA (KW=47,5; p=0,000), em média, as associações e os centros de gestão foram constituídos há cerca 8 anos e 5,5 anos, respectivamente. Em ambas se verifica alguma variação que é resultado de alguns casos isolados, designadamente: uma associação com 27 anos e duas com apenas 2 anos de existência e um centro de gestão com 15 anos de existência enquanto que os outros variam de 11 a 3 anos. As cooperativas e as adegas cooperativas são muito mais antigas, tendo sido fundadas, em média, há cerca de 27 e 45 anos, respectivamente. As cooperativas apresentam uma variação muito grande, havendo algumas muito antigas (nomeadamente as que derivaram dos antigos grémios da lavoura com mais de meio século de existência) e três fundadas há menos de 10 anos.
44 Dado que algumas variáveis apresentam observações com valores muito grandes e/ou muito pequenos
em relação à média (outliers) tornando esta um indicador pouco fiável da realidade, optámos nestes casos por apresentar o Tukey’s M-Estimator (média ponderada) que diminui gradualmente de 1 até 0 o peso atribuído às observações de acordo com o aumento da sua distância à média (Vinacua, 1997: 61-62).
Por seu turno as adegas cooperativas são praticamente todas da mesma época, com a excepção de um único caso com apenas nove anos de fundação. O Gráfico 4.1 ajuda a visionar a disparidade existente. Por fim, de realçar que as adegas cooperativas, que salvo raras excepções se situam na região vitivinícola do Douro, independentemente das vicissitudes por que passaram e passam, representam, desde há meio século, em conjunto com a entreajuda, o melhor exemplo de organização da sociedade civil agrária e da oposição aos poderes institucionais e privados daquela região tão peculiar de TMAD. Quanto ao número de associados/cooperantes, os diferentes tipos de ACA apresentam, em média, um número de fundadores próximo do limiar mínimo à fundação (razão pela qual as diferenças não são significativas), variando entre uma e três dezenas de associados/cooperantes. Também se verificam algumas excepções, como é o caso de uma associação que começou com 400 sócios fundadores e uma outra com 200.
Pelo contrário, o número actual de associados/cooperantes diverge de forma significativa consoante o tipo de ACA (KW=32,8; p=0,000) e, exceptuando os centros de gestão, também diverge dentro de cada tipo (cf. Gráfico 4.1).
Gráfico 4.1 – ACA por anos de fundação e número actual de associados/cooperantes
As associações têm, em média, cerca de duas centenas e meia de associados, registando-se a existência de três grandes associações. Os centros de gestão, comparativamente com restantes tipos de ACA, são muito uniformes e situam-se praticamente todos aquém das duas centenas de associados. As cooperativas, com um número médio de três centenas de cooperantes, são o tipo de ACA mais heterogéneo, verificando-se a existência de três subgrupos: a maioria até às cinco centenas de cooperantes (tendencialmente as mais recentes); um grupo mais pequeno variando entre o milhar e os dois milhares e meio; e três grandes cooperativas com mais de três milhares de cooperantes (tendencialmente as que derivam dos antigos grémios da lavoura), nas quais grande parte dos cooperantes são-no apenas para aprovisionamento de factores de produção. Finalmente, as adegas cooperativas, que são um grupo também homogéneo, com um número médio de cooperantes próximo das sete centenas; as maiores estão situadas no Douro e dotadas de
Anos desde a fundação da ACA 50 40 30 20 0 60 70 N º actual de associados/cooper antes 4500 4000 3500 3000 2500 2000 1500 1000 500 0 Adega Cooperativa Cooperativa Centro de Gestão Associação 10
instalações que lhes permitem manter uma posição no difícil mercado dominado pelas empresas produtoras e exportadoras de vinho. Verifica-se, em síntese, uma homogeneidade relativa dos centros de gestão e das adegas cooperativas, sendo estas bem mais antigas e de maior dimensão; a grande dispersão no tempo e número de cooperantes das cooperativas; e, finalmente, a dispersão das associações quanto ao número de associados.
O número médio de técnicos superiores é próximo de 2 nas associações e centros de gestão, 1,4 nas cooperativas e 0,9 nas adegas cooperativas; regista-se, todavia, a existência de algumas ACA com um número muito superior de técnicos superiores (Gráfico 4.2).
Nº associados actual 5000 4000 3000 2000 1000 0 N º d e técn ico s su periores 25 23 20 18 15 13 10 8 5 3 0 Adega Cooperativa Cooperativa Centro de Gestão Associação
Gráfico 4.2 – ACA por nº. de técnicos superior e número actual de associados/cooperantes
Considerando o número de associados/cooperantes por técnico superior as diferenças já são significativas (KW=29,0; p=0,000), as cooperativas e as adegas cooperativas exibem rácios mais desfavoráveis. Outro factor de desequilíbrio consiste na proporção de ACA sem técnico superior, destacando-se pela positiva os centros de gestão, que possuem todos pelo menos um técnico superior e, pela negativa, as cooperativas, pois cerca de um terço (32%) não tem técnico superior. Algumas adegas cooperativas “resolvem” o problema estabelecendo avenças com técnicos superiores (enólogos) para apoio técnico especializado, nomeadamente no processo de vinificação e constituição de lotes.
Quanto a pessoal sem formação superior, passa-se exactamente o contrário, as cooperativas e as adegas cooperativas empregam significativamente mais pessoas, sobretudo pessoal não qualificado (KW=12,7; p=0,007). Quanto a meios informáticos, eles são equivalentes (em valor absoluto) nos diferentes tipos de ACA. Cerca de três quartos das ACA possuem já ligação à Internet, destacando-se pela negativa as cooperativas, com apenas 42%. Quanto à posse de sede própria, destacam-se pela positiva as cooperativas e adegas cooperativas e pela negativa as associações e centros de gestão. De igual modo, as cooperativas e adegas cooperativas são as que estão melhor equipadas com veículos. Em síntese, o panorama relativamente diversificado das ACA explica-se, por um lado, pela maior ou menor capacidade para conquistarem o seu espaço de utilidade
(normalmente de âmbito local ou concelhio) num espaço regional (TMAD) “saturado” de ACA e, por outro lado, reflecte as diferenças de génese das organizações, pois, de facto, muitas das cooperativas e praticamente todas as adegas cooperativas são muito anteriores à “reforma” dos anos 80 e algumas delas derivam directamente das antigas organizações corporativas fomentadas pelo Estado Novo. A modernização resultante da “reforma” incidiu mais nos recursos técnicos e materiais e menos na qualificação dos recursos humanos. Por outro lado, as cooperativas e adegas cooperativas requerem equipamento e instalações especializadas inerentes aos processos de transformação e de comercialização dos produtos agrários. Pelo contrário, as missões das associações e centros de gestão são mais do tipo administrativo, burocrático e de apoio técnico, o que as obriga a investir mais em recursos humanos qualificados e meios de informação e comunicação actualizados. Continuando a descrever as ACA analisamos alguns elementos de caracterização dos seus directores (presidente e dois vice-presidentes, sendo vulgar um lugar de vice ser ocupado pelo tesoureiro) (Quadro 4.2).
Quadro 4.2 – Elementos de caracterização dos directores das ACA em TMAD. Elementos caracterizadores dos dirigentes das ACA
(frequências em %, por ACA e por total de ACA)
Ass. CG Coop. ACoop. Total das ACA Formação superior 12º Ano de escolaridade 9º Ano de escolaridade Ensino Básico 39 14 17 30 24 26 24 28 29 20 17 35 28 15 26 31 32 18 20 31 ACA em que pelo menos um director tem educação superior 63 47 64 57 60 Agricultores
Técnicos superiores agrários Reformados Outras profissões 61 17 7 15 75 13 5 7 39 13 20 28 40 9 28 42 56 14 13 18 Homens Mulheres 96 4 95 5 100 0 100 0 97 3 Cerca de um terço (32%) tem formação superior (incluímos neste grupo os antigos regentes agrícolas equiparados a engenheiros técnicos agrários); outro terço (31%) tem o ensino básico, encontrando-se os restantes nos níveis intermédios. Um estudo da CCRA (1988)46 aponta para o Alentejo valores da mesma ordem de grandeza dos por nós encontrados para TMAD. Esta nota positiva é reforçada pela existência de pelo menos um director com formação superior em cerca de 60% das ACA.
Por tipo de ACA, o número de dirigentes com formação superior diminui das associações, para as cooperativas e adegas cooperativas e destas para os centros de gestão, porém as diferenças não têm significado estatístico (V=0,102; p=0,481)47. Nas associações isto pode dever-se a muitas terem sido promovidas por indivíduos com formação superior agrária (técnicos recém formados, ou técnicos funcionários do Ministério da Agricultura), alguns dos quais passaram a integrar os corpos sociais. Nos centros de gestão, porque a promoção partiu quase sempre de técnicos recém-formados (particularmente bacharéis em gestão de empresa agrícola da ESAB) e, para além disso, a menor presença de directores com formação superior é “compensada” pela presença de técnicos superiores (cf. Quadro 4.1) que, devido à especificidade dos serviços prestados, têm um papel semelhante ao dos directores.
46 Neste estudo cerca de um terço de associações e cooperativas estudadas pertenciam ao sector agrário. 47 Conferir anexo 3.2.
Passando à profissão principal dos dirigentes, predominam os agricultores (cerca de 56% dos casos); o grupo dos técnicos superiores agrários (14%) e o grupo dos reformados tem também alguma representatividade (13%); o grupo que denominamos “outros” inclui várias profissões, com predomínio dos professores e funcionários públicos. Por tipo de ACA, o grau de associação entre o tipo de ACA e a profissão dos dirigentes é baixo mas tem significado estatístico (V= 0,205; p=0,000)48. Merece destaque a proporção elevada de reformados nas cooperativas e adegas cooperativas, verificando-se que muitos deles são ex-funcionários dos serviços regionais do Ministério da Agricultura, o que reflecte, mais uma vez, a génese destas ACA. No caso das associações, a maior proporção de dirigentes que são técnicos superiores agrários deve-se à razão anteriormente apontada.
Quanto ao género, o predomínio dos homens é esmagador (97%). O afastamento da mulher do dirigismo associativo é, segundo o estudo já referido, extensível à região alentejana (92%), o que indicia tratar-se de um fenómeno nacional. O contraste entre a ausência da mulher no dirigismo associativo e a presença de mulheres técnicas nas ACA, que é de 42,6% (cf. Quadro 5.1) sugere as diferenças sócio-culturais da nossa sociedade, por exemplo, em função das classes etárias (a classe dos dirigentes é mais idosa que a classe dos técnicos) e em função do efeito da educação e do estatuto profissional.
Quanto ao envolvimento activo dos associados/cooperantes nas actividades da ACA, estudámos a participação em assembleias-gerais, acções de formação e em feiras/exposições/concursos (Gráfico 4.3). Ass. CG Coop. ACoop. Geral Ass. CG Coop. ACoop. Geral 0% 20% 40% 60% 80% 100% Ass. CG Coop. ACoop. Geral 0-10% 10%-20% 20%-50% > 50% A ssem ble ia s G er ais F or m aç ão Pr of is si on al En co nt ro s Ass. CG Coop. ACoop. Geral Ass. CG Coop. ACoop. Geral 0% 20% 40% 60% 80% 100% Ass. CG Coop. ACoop. Geral 0-10% 10%-20% 20%-50% > 50% A ssem ble ia s G er ais F or m aç ão Pr of is si on al En co nt ro s
Gráfico 4.3 – Participação dos associados/cooperantes nas actividades das ACA
Os níveis de participação muito baixo, baixo, baixo/médio e médio correspondem, respectivamente, aos seguintes níveis percentuais de participação: 0-10%, 10-20%, 20-50% e superior a 50%. Tivemos de criar esta escala qualitativa para evitar a confusão com os
48 Conferir anexo 3.3.
níveis percentuais das ACA. A maioria dos entrevistados frisava que, embora estimassem que o nível de participação se situava no intervalo 20%-50%, o valor real estaria mais próximo do nível inferior do intervalo, pelo que escolhemos a designação baixo/médio em vez do normal médio.
Embora os níveis de participação dos associados na vida associativa não registem diferenças significativas49, assembleias-gerais (KW=3,1; p=0,382), acções de formação profissional (KW=5,2; p=0,157) e encontros (KW=5,0; p=1,74), registam-se algumas tendências que importa notar.
A participação em assembleias-gerais é muito baixa ou baixa em quase metade das ACA (cerca de 45%). Destacam-se, pela positiva, as adegas cooperativas, em que este nível de participação só afecta cerca de 21% destas organizações, o que se deve à importância da presença aquando da discussão dos preços das campanhas e na organização da entrega da uva pelas vindimas.
A participação em acções de formação promovidas pelas ACA é ligeiramente superior, embora se verifique uma participação muito baixa ou baixa em cerca de 37% das ACA. Neste caso, destacam-se pela positiva os centros de gestão, em que o nível baixo só afecta cerca 21% deles e, desta vez pela negativa, as adegas em que o nível muito baixo ou baixo afecta cerca de 67% das mesmas, o que, até certo ponto, confirma o que dissemos anteriormente. Não se deve estranhar estes valores, pois os centros de gestão, e em menor escala as associações, actuam em áreas relativamente novas (comercialização, marketing, gestão, contabilidade, etc.), em que a formação dos associados é fundamental. Por outro lado, para o caso dos centros de gestão, a formação profissional é mesmo uma área de actuação “nobre” e também a que mais receitas gera para a organização.
Finalmente, em feiras, exposições e concursos a participação é mais elevada. Comparativamente, as cooperativas e as associações apresentam valores mais modestos de participação. Estes eventos de carácter lúdico/competitivo são extremamente importantes no processo de interiorização dos princípios associativos/cooperativos e também das boas práticas técnico-produtivas. Durante o trabalho etnográfico ouvimos relatos entusiasmados aos criadores que participavam em concursos e que, por via disso, se esforçavam por melhorar as práticas de maneio, nomeadamente: alimentação, condições de estabulação (cuidados com os aprumos, evitar traumatismos, limpeza, etc.) e selecção de reprodutores.
49 Conferir anexo 3.4.