Acari – Recorte espacial do Bairro Centro, em 2016
Organização: Robenildo J. C. Moura, 2016. Cartografia: Anderson A. da Silva, 2016.
Nesse bairro é onde coexistem o maior número de atividades dos circuitos da economia urbana. Dados da pesquisa de campo que realizamos indicam que existem nesse bairro 238 atividades da economia não hegemônica, o que corresponde a 46% do total das atividades existentes na cidade. Há também 35 atividades do circuito superior, o que corresponde a 54% do total das atividades da economia hegemônica existentes na cidade de Acari. Tais atividades coexistem devido ao fato de se inter-relacionarem frequentemente, por meio de relações de complementaridade, concorrência e subordinação do circuito inferior ao circuito superior.
A proeminência quantitativa da economia não hegemônica, nos leva a compreender especificamente a importância do circuito inferior da economia urbana, levando em consideração o fato de o território não ser usado de maneira não homogênea, o que
propicia diferentes possibilidades e intencionalidades, segundo “as leis do desenvolvimento desigual e combinado” (TAVARES, 2014, p. 88).
A economia hegemônica é caracterizada pelo uso intenso de tecnologia e de capital, com organização burocrática e escala de atuação, geralmente, ampla. As atividades dessa economia são produções, comercializações e prestações de serviços veementemente modernas, padronizadas e fundamentadas na exploração do trabalho e no lucro. A economia não hegemônica é caracterizada pela necessidade intensa de trabalho e pelo uso inferior de tecnologia e de capital, sendo este, por vezes, desnecessário. A organização das suas atividades é mais criativa do que burocrática e a sua escala de atuação é bastante concatenada ao âmbito local. As atividades dessa economia são pequenas produções, comercialização e prestações de serviços, que usam variáveis-chave do período atual, mas que têm como principal obtenção a sobrevivência e não o lucro demasiado (SANTOS, 2008; SALVADOR, 2012a, 2016).
A pobreza estrutural e a precarização do trabalho existentes em Acari são marcas das relações entre os circuitos da economia urbana, pois, os agentes hegemônicos do mercado comandam a economia e determinam a divisão social e territorial do trabalho. Fazem isso produzindo
oferta de força de trabalho ao expropriarem os trabalhadores dos meios de produção e desempregá-los, mas não produzem, na mesma medida, demanda de empregados em número suficiente ao de trabalhadores expropriados, fato que contribui para precarizar o mercado de trabalho (SALVADOR, 2016, p. 289).
Nesse sentido, Antunes (2005 apud TAVARES, 2014, p. 89) destaca que a nova “morfologia do trabalho” pode ser caracterizada pelo desemprego estrutural, pela subcontratação de trabalhadores, pela terceirização do trabalho, pela flexibilização das leis trabalhistas e, portanto, pela precarização das relações e do mercado de trabalho.
A economia hegemônica mais desemprega do que emprega, tendo em vista que um dos seus fundamentos é a intensidade de capital e de tecnologia e não de trabalho. Destarte, a oferta de empregos é bem menor do que a demanda, fato que leva a maioria dos trabalhadores – que vivem uma situação de desemprego estrutural – a desenvolver alguma atividade do circuito inferior da economia urbana para buscar o seu sustento e o de sua família. Outrossim, os poucos empregos existentes são extremamente seletivos, sendo destinados, principalmente, para os trabalhadores que tenham alta e adequada qualificação
profissional. Assim, para os trabalhadores que não têm essa qualificação, resta a economia não hegemônica (MONTENGRO, 2006, 2011; SALVADOR, 2012a, 2012b, 2016; SANTOS, 2008; SILVA, 2012). Tal contexto, causa a expansão do circuito inferior da economia urbana que é sinônima da elevação da pobreza, bem como evidencia a importância socioeconômica da economia não hegemônica para a massa de trabalhadores.
4.2 A IMPORTÂNCIA DO CIRCUITO INFERIOR PARA A OCUPAÇÃO DE TRABALHADORES, PARA O CONSUMO DE OBJETOS MODERNOS E PARA A REVELAÇÃO DA POBREZA
Não obstante a ocupação no circuito inferior ser instável, devido ao fato de muitos estabelecimentos comerciais fecharem as portas antes do segundo ano de existência (SEBRAE, 2011), suas atividades gerarem baixos rendimentos, e as relações de trabalho serem acordadas, geralmente, no contrato pessoal entre o responsável pela atividade e o agente social ocupado, esse subsistema é, na contemporaneidade, o grande ocupador de trabalhadores pobres, sem muita qualificação ou até mesmo sem qualificação, excluídos da economia hegemônica. Por meio da economia não hegemônica, tais trabalhadores usam o território como abrigo para a sua sobrevivência (MONTENGRO, 2006, 2011; SALVADOR, 2012a, 2016; SANTOS, 2008; SILVA, 2012).
No centro da cidade de Acari, a maioria das atividades do circuito inferior é desenvolvida por meio de trabalho familiar e/ou autônomo. A maioria é de trabalhadores pobres e/ou sem muita qualificação profissional, porém, criativos, batalhadores. Do mesmo modo, esse subsistema ocupa poucas pessoas por unidade econômica, entretanto, no total, a ocupação de trabalhadores é considerável, devido ao grande número de atividades da economia não hegemônica.
Os rendimentos obtidos com o desenvolvimento de atividades da economia não hegemônica são baixos em decorrência dos elevados custos necessários para manter o negócio. Outrossim, a concorrência enfrentada pelas atividades é forte, o que torna as vendas cada vez mais fracas e contribui também para os irrisórios lucros obtidos.
A importância socioeconômica da economia não hegemônica está sendo intensificada atualmente, tendo em vista o agravamento da crise política e econômica que abala todo o país, a qual agrava a situação do desemprego e da pobreza. Dados do
Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) evidenciam que o desemprego vem aumentando no Brasil (gráfico 07), no Rio Grande do Norte (gráfico 08) e em Acari (tabela 12).
Gráfico 07
Brasil – Evolução mensal do emprego formal no ramo do comércio varejista, de julho de 2011 a julho de 2016
Fonte: MTE/SPPE/DES/CGET - CAGED Lei 4.923/65 (2016).
Gráfico 08
Rio Grande do Norte – Evolução do emprego formal, de 2015 a 2016
Fonte: MTE/SPPE/DES/CGET - CAGED Lei 4.923/65, 2016. 21.356 17.270 -589 -519 -29.847 -15.227 -40.000 -30.000 -20.000 -10.000 0 10.000 20.000 30.000 Anos 2011 2012 2013 2014 2015 2016
Julho Jan./Jul. 2016 Ago. 2015 /Jul. 2016 Admissões 11.725 81.215 147.425 Demissões 11.723 96.894 166.140 Saldos 2 -15.679 -18.715 -50.000 0 50.000 100.000 150.000 200.000 N º d e e m p re go s
Tabela 12
Acari – Desemprego formal em julho de 2016
Atividades econômicas Variável
Demissões e Admissões Indústria de transformação -24 Construção Civil -33 Comércio -20 Serviços -14 Administração Pública 4 Total -87
Fonte: MTE/SPPE/DES/CGET - CAGED Lei 4.923/65 (2016).
Tendo em vista o fato de a economia não hegemônica ser a abrigadora da maioria dos trabalhadores desempregados pelo circuito superior, acreditamos que tais dados indicam a expansão e a importância do circuito inferior da economia urbana na atualidade, especificamente, em Acari.
No centro da cidade Acari, o faturamento médio mensal bruto da maioria (58,3%) das atividades não hegemônicas era de mais de 6 salários-mínimos. Descontados os gastos correntes com o desenvolvimento do negócio (contas de água, luz, telefone, compra de mercadorias, pagamento de trabalhador, tributos para registro da atividade junto ao poder público, aluguel), o lucro obtido pela maioria (50%) dos agentes do circuito inferior correspondia, geralmente, a 100% de sua renda mensal familiar, sendo que 46,7% desses agentes afirmaram que sua renda mensal familiar era de 1 a 2 salários-mínimos, enquanto que 33,3% informaram ser de 2 a 3 salários-mínimos. Também existiam agentes (20%) que desencadeiam atividade da economia não hegemônica como um complemento de renda, para os quais o rendimento obtido nessa economia correspondia a menos de 50% de sua renda mensal familiar.
A baixa lucratividade das atividades do circuito inferior faz com que no centro da cidade a maioria (76,7%) dos agentes desse circuito utilize o lucro obtido com o desenvolvimento da atividade para realizar investimentos na própria atividade, como a compra de mercadorias, assim como para o consumo familiar (63,3%). Metade das atividades pesquisadas ofertava fiado para os clientes, fato que faz com que seus responsáveis destinem também parte dos seus lucros para uma pequena reserva monetária que garanta a sobrevivência da própria atividade, caso as vendas feitas à prazo não sejam quitadas no tempo esperado e/ou combinado. Ainda existiam agentes da economia não
hegemônica (20%) que disseram conseguir fazer uma poupança pessoal com os rendimentos obtidos.
A maioria (43,3%) das atividades não hegemônicas existentes no centro de Acari eram desenvolvidas apenas pelo seu responsável. Em 26,7% das atividades pesquisadas, trabalhava o responsável e mais uma pessoa e em 13,3% trabalhavam o responsável e mais duas pessoas. Assim, revelamos que o circuito inferior da economia urbana, apesar da sua baixa lucratividade por atividade, tem na ocupação de trabalhadores um dos seus principais fundamentos, garantindo, destarte, trabalho e renda para muitas pessoas. Sendo assim, a economia não hegemônica se apresenta como sendo fundamental para a dinâmica socioeconômica da urbe acariense, pois, garante a sobrevivência da maioria dos trabalhadores pobres, desempregados ou nunca empregados pelo circuito superior e sem qualificação profissional.
No centro de Acari, 10% dos agentes do circuito inferior inquiridos afirmaram ter iniciado sua atividade econômica sem nenhuma quantia em dinheiro, pois, já possuíam os instrumentos de trabalho necessários, como, por exemplo, os moto taxistas e os artesões. Todavia, a maioria (90%) dos agentes da economia não hegemônica declarou que investiu alguma quantia para iniciar a sua atividade econômica, a qual variou de acordo com a situação vivenciada por cada agente social. Para aqueles que não ganharam ou herdaram nenhum objeto ou dinheiro de amigos ou familiares, grosso modo, iniciaram a atividade econômica com R$ 700,00; já para aqueles que haviam sido empregados e foram demitidos, bem como pediram dispensa do antigo emprego, tendo acesso ao Fundo de Garantia por Tempo de Serviço (FGTS), ou que ganharam o imóvel de parentes, chegou-se a investir no desenvolvimento inicial do seu próprio negócio até R$ 20.000,00.
No que se refere à qualificação profissional e a escolaridade dos agentes do circuito inferior, em sua maioria, não têm alta qualificação profissional, apesar de terem estudado. A falta de emprego nas atividades hegemônicas, atraía jovens recém-formados em nível superior (6,7%) para desenvolver atividades comerciais no circuito inferior enquanto não conseguiam uma boa oportunidade de emprego, como um emprego público obtido por meio de aprovação em concurso. A maioria (66,7%) dos agentes do circuito inferior havia completado o Ensino Médio, em escola pública. Não obstante, a maioria (60%) desses trabalhadores também não tinha especialização para o trabalho que realizava. No entanto, muitos agentes do circuito inferior (40%) tinham feito algum curso que os ajudava a desenvolver seu negócio, como o curso de vendas, o de gestão empresarial, o de culinária
e/ou o de manipulação de alimentos, todos ministrados pelo Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (SEBRAE), em parceria com a Câmara de Dirigentes Lojistas (CDL) de Acari. Também foram citados os cursos de cabeleireiro, manicure e pedicure ministrados pelo Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial (SENAC), o de refrigeração comercial e residencial, ofertado pelo Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (SENAI), o de eletrotécnica, ministrado pelo Instituto Federal de Educação Tecnológica do Rio Grande do Norte (IFRN), e os cursos técnicos de informática possibilitados pela empresa MICROLINS.
As ocupações geradas pelo circuito inferior são precárias, mas não necessariamente informais (MONTENEGRO, 2006, 2011; SALVADOR, 2016). Há trabalhadores registrados na economia não hegemônica, o que não lhes garante acesso a todos os direitos trabalhistas previstos em lei. Isso por que o empregador não hegemônico, geralmente, faz acordos pessoais com o empregado, a fim de flexibilizar o pagamento de direitos trabalhistas, como férias e 13º salário (SALVADOR, 2016).
O registro em carteira de trabalho de trabalhadores em atividades do circuito inferior vem ocorrendo, na maioria dos casos, conforme a implementação da política do Microempreendedor Individual (MEI). Em Acari vem crescendo consideravelmente o número de microempreendedores individuais, segundo dados mostrados nas tabelas 13 e 14. Desse modo, no centro de Acari, a maioria (63,3%) dos responsáveis por atividades do circuito inferior possuía CNPJ, sendo que 53,3% destes eram registrados como MEI. Outrossim, 83,3% dos estabelecimentos possuíam Alvará de Funcionamento, pagando uma taxa anual ao poder público municipal. Com isso, 26,7% das pessoas que estavam ocupadas no circuito inferior tinha carteira de trabalho assinada, sendo que muitos destes (10%) tinham grau de parentesco com o responsável pela atividade, como filho, pai, esposa, irmão, cunhado.
Tabela 13
Acari – Número de empresas criadas, entre 2009 e 2014
Porte 2009 2010 2011 2012 2013 2014
Porte não informado 0 0 0 0 0 21
Microempresa 110 124 100 110 103 93
Microempreendedor individual 0 39 80 137 200 260
Empresa de pequeno porte 19 27 39 26 29 29
Empresa de médio porte 1 2 2 2 2 2
Total 130 192 221 275 334 405
Fonte: Celio Vieira – Escritório Regional do Seridó Oriental - Portal DATA SEBRAE, 2016.
Tabela 14
Acari – Número de Microempreendedores Individuais, de 2010 a 2015
Ano Quantidade total
2010 39 2011 83 2012 143 2013 208 2014 260 2015 306
Fonte: Celio Vieira – Escritório Regional do Seridó Oriental - Portal DATA SEBRAE, 2016.
No centro da urbe acariense, a maioria das pessoas contratadas por atividade da economia não hegemônica desempenhavam suas funções de segunda-feira à sábado, com jornada de trabalho que duravam de 08 a 11 horas diárias. Esse horário de trabalho para o proprietário da atividade é bastante flexível, durando, geralmente, por jornadas mais longas. Dados que indicam que o trabalho no circuito inferior é intenso, no que se refere à jornada de trabalho diária.
Os contratos de trabalho no circuito inferior são, na sua maioria, calcados no contato pessoal. Além disso, há várias atividades que só contratam trabalhadores em períodos determinados, quando aumentam a clientela. No caso de Acari, isso ocorre com a realização da Festa de Nossa Senhora da Guia, quando, lanchonetes, restaurantes, bares, lojas de vestimentas e calçados aumentam suas vendas e, assim, contratam trabalhadores. Além disso, há atividades que trabalham com encomendas, como serigrafias, as quais ocupam trabalhadores nos momentos em que as demandas aumentam.
Há trabalhadores que estão ocupados no circuito inferior por falta de opção. É o caso de 46,7% dos trabalhadores da economia não hegemônica do centro de Acari, os quais nunca estiveram empregados e, assim, nunca trabalharam com acesso a direitos trabalhistas. Todavia, havia trabalhadores (53,3%) que já tinham sido empregados, mas, devido aos baixos salários que recebiam, preferiram desenvolver o seu próprio negócio, com o qual têm rendimentos maiores e possibilidade de flexibilizar a sua própria jornada de trabalho, o que lhes possibilita momentos com a família antes impossíveis de serem vivenciados. Destarte, há trabalhadores que estão na economia não hegemônica por opção.
No que se refere ao consumo de objetos modernos pelos agentes não hegemônicos, temos, atualmente, aumento exponencial das práticas de consumo moderno. Salvador (2016, p. 296) afirma que “a ideia de escassez é dinâmica e ligada à noção de pobreza. Não devemos considerar tal ideia e tal noção como estáticas, nem mesmo como homogêneas em todas as formações sociais ou em todos os subespaços de dado território nacional”. Assim sendo, essa escassez relaciona-se à “falta de mercadorias ou objetos essenciais à vida individual e coletiva, como alimentos, vestimentas e moradia; e a resultante da força da propaganda e do crédito, cuja falta é de bens modernos essenciais à vida alicerçada no consumismo, como eletroeletrônicos” (SALVADOR, p. 296). Ou seja, atualmente, a expansão das variáveis finanças e consumo exerce papel estruturador na vida individual e social (SILVEIRA, 2015).
No centro de Acari, os agentes não hegemônicos da economia urbana vêm usando parte de sua renda com o consumo de objetos modernos, muitos dos quais servem também para o desenvolvimento de seus negócios. A maioria dos agentes do circuito inferior residia em casa própria (73,3%), constituindo família com 3 ou com 4 pessoas (36,7% e 23,3%, respectivamente). Todos os agentes inquiridos possuíam televisão, geladeira, celular e aparelho de som; quase todos (96,6%) tinham acesso à Internet; 86,6% possuíam micro-ondas, parabólica e máquina de lavar roupas; 76,6% possuíam DVD; 63,3% tinham computador; 60%, ar condicionado; e 50% dispunham de TV por assinatura. Muitos também possuíam veículo ou motocicleta, sendo que 66,6% tinham motocicleta com ano de 2002 a 2016) e 50% possuíam automóvel, com ano de 1979 a 2016.
Acerca da contribuição com o sistema previdenciário, os dados da pesquisa realizada no centro de Acari indicam a precarização do trabalho, especificamente, no circuito inferior da economia urbana. Nesse sentido, as palavras de Salvador (2016, p. 298) são pertinentes:
[...] o circuito inferior faz perdurar a pobreza pela precariedade das ocupações que gera. Afora baixos rendimentos, longas jornadas de trabalho, falta de acesso a direitos trabalhistas e difíceis condições de labor, grande parte dos agentes da economia não hegemônica desenvolve atividades sem nenhuma perspectiva de descanso ou de acesso a algum direito social no futuro. Isso devido a não terem condições de contribuir para a previdência nacional e, desse modo, não saberem se haverá alguma possibilidade de aposentadoria e repouso após muitos anos de trabalho.
No centro de Acari, 40% dos agentes inquiridos não recolhia taxas de INSS para a sua aposentadoria. Todavia, a política do Microempreendedor Individual (MEI19) contribui para que 53,3% dos agentes da economia não hegemônica realizassem tal recolhimento, devido a cumprirem seus deveres tributários de microempreendedores. Tal política é apoiada pelo poder público municipal, pois, sendo microempreendedores os agentes do circuito inferior da economia urbana geram tributos para o poder público e têm a possibilidade de concorrer em licitações e prestar serviços ao poder municipal (SERETARIA DE DESENVOLVIEMENTO ECONÔMICO, TURISMO, DESPORTO E LAZER, 2016). Não obstante, segundo Salvador (2016, p. 298 - 299), “nos dias atuais, os impactos da política do MEI ainda precisam ser ampliados e melhorados, tendo-se em vista que a maioria dos trabalhadores pobres responsáveis por micro e pequenas atividades econômicas continua sem ter acesso a garantias sociais trabalhistas”.
4.3 A IMPORTÂNCIA DO CIRCUITO INFERIOR PARA A REPRODUÇÃO AMPLIADA DO SISTEMA ECONÔMICO VIGENTE, PARA A DINÂMICA TERRITORIAL URBANA DE ACARI E PARA O TERRITÓRIO USADO COMO FATOR DE DESIGUALDADES, ALTERNATIVAS E RESISTÊNCIAS
A produtividade dos agentes da economia não hegemônica é importante para a reprodução ampliada do estágio atual do capitalismo (SALVADOR, 2016). Tal
19
Atualmente o Microempreendedor Individual (MEI) pode ter até um funcionário. Muitos negócios apresentam bastante limitação em razão disso, pois, a mão de obra limitada muitas vezes impossibilita o crescimento do empreendimento. Como regra geral, pode ser MEI quem tem rendimento anual máximo de R$ 60.000,00, não podendo ter participação em outra empresa como sócio ou titular e possuir, no máximo, um empregado com salário limitado ao mínimo vigente ou ao piso da categoria. Contudo, mesmo se enquadrando na regra geral, não é qualquer profissional autônomo que pode ser MEI: existe uma lista das atividades permitidas. Portanto, em razão da natureza jurídica do MEI, o mesmo não tem contrato social ou mesmo sócio. Cadastrando-se como MEI, o agente passa a ser um empresário individual, ou seja, o agente é sua própria empresa, não havendo, portanto, necessidade de contrato social. (Disponível em: <http://www.portalmei.org/category/portal-mei/microempreendedor/>. Acesso em 07 de dez. de 2016).
produtividade decorre da intensidade de trabalho que é um dos fundamentos do circuito inferior da economia urbana. Essa intensidade deve-se ao fato de o trabalho no circuito inferior ser alicerçado em contratos pessoais, em longas jornadas e em baixos rendimentos. Destarte, os trabalhadores desse subsistema não conseguem, geralmente, acumular capital, tendo que trabalhar cada vez mais.
Os baixos rendimentos gerados pelas atividades da economia não hegemônica também decorrem dos gastos correntes com o desenvolvimento dessas atividades, que são consideráveis para o baixo nível de capital do circuito inferior. Assim, o que sobra para os agentes desse circuito serve, na maioria dos casos, apenas para manter a atividade funcionando e para sustentar a família. Por isso, Salvador (2016) destaca que a não acumulação de capital pelos agentes do circuito inferior da economia urbana é um fato que faz com que esse subsistema econômico seja mantenedor da pobreza, hoje, estrutural.
Geralmente, quando há reserva de dinheiro em atividade do circuito inferior, decorre da realização de empréstimo. No centro de Acari, a maioria (70%) dos agentes não hegemônicos da economia urbana declarou que tinha ou já havia tido alguma reserva de dinheiro, conseguida com o desenvolvimento da atividade e/ou com a realização de empréstimo bancário. Do mesmo modo, a maioria (60%) dos agentes informou que utilizou essa reserva para investir na atividade desenvolvida, comprando mercadorias, instrumentos ou equipamentos de trabalho, realizando a manutenção destes, construindo ou reformando o estabelecimento comercial e/ou adquirindo automóvel ou motocicleta para realizar serviços da atividade.
As atividades não hegemônicas da economia urbana também fazem publicidade atualmente. Em Acari, a maioria (83,3%) das atividades pesquisadas faz divulgação utilizando, geralmente, redes sociais da Internet, como Facebook, What’s App e Instagran. Também há atividades que fazem publicidade por meio de carros ou motos de som, da rádio comunitária local, de cartões de visita ou de telões instalados em locais da cidade durante a realização de eventos. Vale frisar que, hoje, há atividades não hegemônicas que comercializam publicidade, como os carros e as motos de som, o que faz da publicidade uma variável-chave do período atual que fundamenta o circuito inferior da economia urbana.
Além de ser importante do ponto de vista socioeconômico, o circuito inferior também exerce importância territorial, sobretudo, em cidades pequenas que se caracterizam também como centros locais, pela pouca complexidade de seu mercado.
Nesse contexto, as atividades não hegemônicas são proeminentes e atraem consumidores que residem próximos do centro local e necessitam de algum serviço aí ofertado e ausente nos seus lugares de origem, o que torna a dinâmica econômica do centro local importante