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A integralidade no âmbito do SUS se configura como “um conjunto articulado e contínuo das ações e serviços preventivos e curativos, individuais e coletivos, exigidos para cada caso em todos os níveis de complexidade do sistema” (BRASIL, 1990). No entanto, como vimos à consolidação e a construção da integralidade da assistência à saúde se evidenciou como um grande desafio para a total implementação do SUS.

Na redefinição da proposta de Acolhimento, ganha destaque a busca pelo alargamento dos mecanismos de acesso aos serviços de saúde, e de explorar as possibilidades de novos desenhos micro-políticos no modo cotidiano de realização de certos modelos de atenção à saúde.

Desta forma, o acolhimento passa a ser mediado pelas necessidades de saúde dos usuários de forma a envolver o espaço micro e macro de uma unidade de saúde como uma rede composta por serviços de saúde. No espaço micro ocorre o esforço de toda equipe para captar as necessidades de saúde da população e no macro ocorre a articulação dos serviços que é fundamental para a concretização da integralidade (CECÍLIO, 2001).

No debate com a integralidade, percebemos que o acesso aos serviços de saúde deixa de se constituir simplesmente como um sinônimo de cobertura populacional. Nesse contexto, busca-se a quebra da lógica racionalizadora que toma conta dos serviços de saúde e que prevê apenas a simples satisfação destas necessidades sem ter como prisma o cenário que as produzem.

Desta forma, Franco et al (1999) propõe o Acolhimento como um dispositivo capaz de interrogar os processos intercessores que constroem as relações clínicas das práticas de saúde e que permite escutar ruídos do modo como o trabalho vivo é capturado, conforme certos modelos de assistência, em todo lugar em que há relações clínicas em saúde. E de expor a rede de petição e compromisso que há entre etapas de certas linhas de produção constituídas em certos estabelecimentos de saúde, interrogando as relações de acessibilidade.

Para Carvalho e Campos (2000), o Acolhimento se constitui como um arranjo tecnológico que busca garantir o acesso a todos os que procuram os serviços, de modo que todos sejam escutados pelos profissionais que buscarão a

resolução do caso ou o referenciamento se necessário. A regulação ao acesso por meio da oferta de ações e serviços mais adequados contribui para a satisfação do usuário e assim, a construção de um vínculo entre profissionais/usuários estimulando a autonomia e a cidadania, promovendo a sua participação no processo de produção de saúde.

Esse processo estabelece a abertura dos serviços à demanda espontânea e a responsabilização por todos os casos da região, de modo a adaptar os serviços e técnicas aos aspectos sociais, culturais e econômicos da vida diária da região (Souza et al, 2008.).

Tal perspectiva considera que no trabalho em saúde as necessidades se colocam quanto a ter boas condições de vida, acesso e consumo de toda a tecnologia de saúde capaz de melhorar e prolongar a vida, respeito à insubstituível criação de vínculos (a)efetivos entre cada usuário e uma equipe e/ou um profissional e a autonomia no seu modo de levar a vida (Cecílio, 2001). Percebemos que a efetivação da integralidade na PNH, através do dispositivo do Acolhimento buscou sistematizar em sua proposta, principalmente, as questões do acesso, da produção de uma linha de cuidado com responsabilização e construção de vínculos solidários de humanização entre usuários/profissionais, dimensões que abordaremos nessa dimensão.

Com isso, novas maneiras de produzir conhecimento se fizeram necessárias para pensar a educação e o trabalho em saúde, reconhecendo novos atores, novos papéis, novas referências. O conhecimento sobre micro-política no processo de trabalho da saúde abriu o caminho para novas possibilidades de compreensão sobre o complexo processo de transversalidades e atravessamentos no interior das instituições de ensino e dos serviços de saúde na conformação dos modos de educar/formar e trabalhar/cuidar em saúde (Merhy, 1997).

Assim, no estabelecimento do acesso integral percebemos a perspectiva da reorganização e desburocratização dos serviços na equalização da relação oferta- demanda com qualidade e resolutividade. Desta forma, busca-se interrogar a micro- política da organização do serviço de saúde a fim de revelar: as relações ali estabelecidas entre trabalhadores e usuários, os nós críticos do processo de trabalho, o jogo de interesses, poder e os processos decisórios (Franco e Merhy, 2003; Merhy, 1997).

A produção de uma linha de cuidado integral se coloca frente a responsabilização da equipe na produção do projeto do projeto terapêutico como um conjunto de atos assistenciais pensados para resolver determinado problema de saúde do usuário, com base em uma avaliação de risco sob todas as variáveis (clínica, social, econômico, ambiental e afetivo, etc). Assim, o serviço de saúde deve operar suas ações nas necessidades dos usuários, e não mais na simples oferta de serviços, o que geralmente limita o acesso (Franco e Franco, 2010).

Nesse sentido, a construção de vínculos se sustenta na efetivação do ato de cuidar como campo solidário de humanização das relações, onde podem acontecer fluxos de afetos que façam com que o usuário se sinta protegido pelos atos assistenciais através da identificação da sua história de vida e do seu contexto cultural.

Entretanto, no campo da saúde do Brasil, estas reflexões já se colocavam de forma mais intensa desde o final da década de 1980, não só através do Movimento da Reforma Sanitária que naquele momento se fortalecia a partir dos amplos movimentos de redemocratização política, mas também, pelo movimento de mulheres, em torno de pautas de direitos sexuais e reprodutivos e das críticas ao modelo médico hegemônico (Deslandes, 2005).

Quanto à atenção à saúde da mulher, a integralidade se coloca como fundamental não só para a total integração entre os serviços de pré-natal, parto e peurpério, mas também para que as mulheres pobres possam desfrutar do seu direito de ter saúde com maior nível de qualidade, tal como está expresso em suas muitas lutas (sejam estas políticas ou não).

Por isso, acreditamos que seja de fundamental importância identificar na construção do movimento de mulheres como ator político a emergência desta questão social, tendo em vista que esta compreensão pode ter tido grandes influencias não só nas políticas específicas desta demanda, mas também na própria construção do SUS e, conseqüentemente da PNH.