Historicamente não dá para negar que o século VI a.C., século em que ocorreu o exílio da Babilônia, foi um período de reviravolta, não somente para Israel, mas para grande parte do mundo antigo. Esse período é chamado pelos historiadores de “período axial”, registrado por inúmeras inovações.
[...] (símbolos personifi cados de tendências gerais nas respectivas comunidades): na China, Confúcio (550-480); na Índia, Buda (560-480); no Irã, Zoroastro (fi m do século VII);
na Grécia, os fi lósofos e os “cientistas” jônicos, que abrem o caminho para a grande fi losofi a, a tragédia, a historiografi a;
em Israel, os grandes profetas “éticos” (como Ezequiel e o Deutero-Isaías) do período do exílio (LIVERANI, ANO, p. 253).
O EXÍLIO, E A VOLTA DO EXÍLIO DECRETADA PELO IMPÉRIO PERSA
Capítulo 3
O exílio da Babilônia ocorreu no séc. VI a.C., contudo, para que possamos compreendê-lo melhor, é necessário fazer um recuo na história, voltando ao século VIII a.C. Nesse período, os assírios retomam seu projeto de dominação internacional. Eles eram originários da Mesopotâmia e viviam na parte norte, uma fértil região. Seus objetivos são justamente avançar rumo ao Mediterrâneo e chegar a ocupar cidades portuárias importantes da região. Após a ocupação, seguem rumo ao sul. Foi então que em 732 a.C. anexaram a Samaria. No ano 701 a.C. destruíram Judá e por pouco não conquistaram defi nitivamente Jerusalém. Após conseguirem controlar a Palestina, seguem em direção ao Egito. Foi então que no início do séc. VII a.C. (700 até 650) ocorreu o cume do domínio internacional dos assírios. Por conta dos seus exércitos serem terríveis no massacre, eram fortemente temidos.
No entanto, toda essa opressão não demorou por muito tempo, os egípcios reagiram, fi zeram uso da sua tradição milenar e seus férteis vales junto ao rio Nilo.
A partir disso, começaram a buscar por sua mais rápida autonomia e começaram por expulsar os assírios de suas terras. Além de afugentar os invasores, seguem perseguindo-os. A hegemonia da Assíria na Palestina é muito contestada.
Dessa forma, o império egípcio alcança o grande rio Eufrates na Mesopotâmia, no período da agonia assíria. Essa infl uência egípcia na Palestina, na segunda metade do séc. VII a.C. e no próprio VI séc. a.C., é importante e decisiva para a compreensão da expatriação de Judá.
Não foram apenas os egípcios que não aceitaram a supremacia assíria, os babilônios também não aceitaram essa predominância toda. Estes ocupavam as regiões ao sul da Mesopotâmia, área muito fértil entre os rios Eufrates e Tigres.
Passo a passo foram corroendo a dominação assíria desde o Sul, de sorte que estes se vissem entre duas frentes. De um lado estavam os egípcios e, de outro, os babilônios. Os assírios sucumbiram a esta dupla contestação. Em 612, Nínive, sua última capital, foi tomada e feita em ruínas.
Os egípcios e babilônios foram fortes aliados na decadência dos assírios.
Porém isso não aconteceu da mesma forma quando se tratou de defi nir a sucessão dos assírios no cenário internacional. Ambos se candidataram. Ambos trataram de pôr sob seu controle os territórios que, anteriormente, tinham estado sob a repressão assíria. Contudo, para a Palestina, esta disputa pela hegemonia teve fortes consequências, e decisivas. Isso porque estava justamente entre as duas potências em disputa.
Mas, enfi m, os babilônios fi zeram-se impor e conseguiram isso na Palestina, mas não conquistaram o Egito, este permaneceu autônomo. Perdurou como uma constante ameaça à vista.
ELEMENTOS E FUNDAMENTOS BÍBLICOS
Para Judá, esse impasse que ocorreu entre os babilônios e egípcios foi fatal.
Isso aconteceu por conta da posição estratégica ocupada por seu território.
Para os impérios egípcios era fundamental ter Judá como aliada. Afi nal, era uma área para o abastecimento de suas tropas. A rigor, para quem vem do Egito, Judá se constitui no primeiro lugar onde os exércitos podem reabastecer-se. Após centenas de quilômetros por terrenos áridos e inóspitos, a região de Judá fornece água e comida. Contudo, para as estratégias militares daqueles tempos, um tal território era decisivo. Os faraós egípcios da época trataram logo de manter boa vizinhança com os reis de Jerusalém.
Para os generais assírios, o pequeno e em si insignifi cante território judaísta impunha-se como importante. Necessitavam-no tanto para uma possível invasão do Egito, quanto para impedir contra-ataques egípcios. Esta posição estratégica de Judá é, possivelmente, a causa de sua destruição e de sua deportação. Judá como que foi triturado pelo entrechoque das duas grandes potências do VI séc.
a.C.: a Babilônia e o Egito.
Em resumo, veremos algumas questões internas de Judá:
A soberania, ora do Egito, ora da Babilônia, se refl ete na situação interna.
Tanto uma quanto a outra superpotência chegam a entronizar soberanos em Jerusalém.
Após a reforma josiânica de 622 a.C., Jerusalém é o centro religioso, cúltico e simbólico. No entanto, nem de longe todos os setores da sociedade judaísta concordavam com esta centralização. O profeta Jeremias contestou-a veementemente: “Assim diz Javé dos exércitos, o Deus de Israel: endireitem seus caminhos e sua maneira de agir, e eu morarei com vocês neste lugar, não se iludam com palavras mentirosas, dizendo: Este é o templo de Javé, templo de Javé!” (Jr 7, 3-4; cf. também Jr 26).
O povo da terra são os camponeses, representam uma política real, e passam a interferir de maneira revolucionária. Dão sustentação à política de Josias e de Jeocaz, e acabaram por permitir e impelir a política de emancipação nacional dos últimos soberanos.
O EXÍLIO, E A VOLTA DO EXÍLIO DECRETADA PELO IMPÉRIO PERSA
Capítulo 3