4.4 Contornos distintivos entre institutos correlatos
4.4.4 Adimplemento substancial e adimplemento parcial de obrigações divisíveis e
Conforme dito supra229, nos programas obrigacionais em que se tem uma prestação
divisível admite-se, em tese, a vedação da resolução quando o adimplemento inexato da prestação principal for próximo ao resultado pactuado, quer em casos de inexatidão quantitativa, quer nos casos de inexatidão qualitativa. Deu-se como exemplo um precedente jurisprudencial relativo a contrato de empreitada em que se verificou um pequeno descumprimento quanto a detalhes de acabamento por parte do empreiteiro, incumprimento este que viabilizou somente o pagamento de perdas e danos, mas não o desfazimento do contrato de empreitada.230
Nesse sentido, torna-se importante reprisar o elo existente entre o adimplemento substancial e o adimplemento parcial de obrigações divisíveis e indivisíveis231, como critério norteador do adimplemento inexato passível de manutenção do contrato ou motivador da resolução contratual.
No que se refere às obrigações indivisíveis, a questão não apresenta contornos complexos, já que se mostra evidente diante do fato de o inadimplemento ensejar diretamente uma hipótese de inadimplemento absoluto. Isso porque o simples fato de descumprir uma obrigação indivisível configura em si uma violação grave e relevante ao programa contrato, não sendo possível, portanto, enquadrar o caso na teoria do adimplemento substancial, nem sequer do cumprimento parcial. A solução para este caso não poderá ser outra senão o decreto
228 Ver item 4.3.3 229 Item 4.3.1.
230Apelação Cível Nº. 597044718, Quinta Câmara Cível, Tribunal de Justiça do RS, Relator: Araken de Assis,
Julgado em 17/04/1997.
231 A indivisibilidade da obrigação foi disposta pelo art. 258 do Código Civil brasileiro ao dispor que: “a
obrigação é indivisível quando a prestação tem por objeto uma coisa ou um fato não suscetíveis de divisão, por sua natureza, por motivo de ordem econômica, ou dada a razão determinante do negócio jurídico.” Entretanto, a divisibilidade da obrigação não foi conceituada pelo Código.
de dissolução do vínculo e o pagamento das perdas e dos danos. Suponhamos o exemplo de um contrato de compra e venda de uma máquina de reciclagem. Só interessa ao credor receber a coisa por inteiro, sem esta o contrato se desnatura e não se atinge a função econômico-social pretendida (reciclagem).
Já no que se refere às obrigações divisíveis, deve-se traçar um paralelo com os contornos da teoria do adimplemento substancial. Isso porque o descumprimento só será de escassa importância e a manutenção do vínculo só será possível se a proporção de parcelas da obrigação divisível realizada for de proporção suficiente para configurar um quase que integral adimplemento da prestação prometida. Entretanto, se a prestação efetuada pelo devedor não se mostrar substancial diante da totalidade do programa obrigacional visualizado complexamente, não haverá fundamento para a aplicação da teoria do adimplemento substancial. Evidentemente que o critério para se avaliar a mensuração de parcelas pagas, para fins de avaliar a gravidade do inadimplemento, deverá ser construído caso a caso pelo juiz, considerando a função econômico-social pretendida pelas partes, a satisfação do interesse do credor, além de uma avaliação da importância de cada parcela em relação a todo o programa contratual.
4.4.5 Adimplemento substancial e impossibilidade parcial
Como já foi dito anteriormente232, considera-se a impossibilidade parcial quando, sendo vários objetos ou um só um objeto cindível, apenas parte da prestação se tornar inviabilizada. Assim, se a obrigação compreender vários objetos, sendo um ou mais entregues e perecendo os restantes por culpa do devedor, não haverá mora, já que a entrega nem se fez nem se fará. Neste caso, o que se tem é a impossibilidade parcial.
A impossibilidade parcial decorrente de causa natural ou jurídica é uma espécie de cumprimento imperfeito, imputável ou não ao devedor. Servirá de fundamento para o pedido resolutório se a falta ofender substancialmente o interesse do credor, tenha ou não havido
culpa do devedor. Segundo Ruy Rosado de Aguiar Júnior a solução para esta problemática está nos artigos 235233 e 236234 do Código Civil.235
Assim, pode-se entender que a resolução do contrato em casos de impossibilidade parcial fundamenta-se essencialmente no interesse do credor. Se a falta da prestação ofender de maneira substancial o interesse do credor o pedido resolutório se justifica, uma vez que a prestação efetivada não atinge os elementos de utilidade e prestabilidade convencionados pelas partes.
Contudo, não ocorrerá a resolução do contrato se, analisada a impossibilidade parcial, se verificar que a essencialidade da obrigação foi atingida, isto é, se o cerne do negócio jurídico for cumprido em proporção suficiente para satisfazer os interesses do credor e a finalidade do contrato. Nesta hipótese haverá a liberação do devedor em relação ao que foi executado, remanescendo, todavia, a responsabilidade quanto aos danos sofridos pelo credor, na medida da extensão de sua culpabilidade, descontando-se a contraprestação da parte adimplente.
Dessa forma, verifica-se que a distinção desses institutos situa-se fundamentalmente no plano da verificação do interesse do credor em relação à parte adimplida do programa contratual.
Não havendo este interesse, a impossibilidade se concretiza. Ao contrário, se a prestação cumprida em parte atende, ainda que parcialmente, o interesse do credor, veda-se a resolução do contrato.
É certo afirmar que “afetando apenas parte da obrigação principal, diz-se que há impossibilidade parcial (o caminhão de transporte perdeu parte da carga); aplica-se a regra do 235 do Código Civil, criada para o caso análogo da deterioração : o credor pode aceitar a
233 in verbis: “Art. 235 Deteriorada a coisa, não sendo o devedor culpado, poderá o credor resolver a obrigação,
ou aceitar a coisa, abatido de seu preço o valor que perdeu”.
234 in verbis: “Art. 236. Sendo culpado o devedor, poderá o credor exigir o equivalente, ou aceitar a coisa no
estado em que se acha, com direito a reclamar, em um ou em outro caso, indenização das perdas e danos”.
prestação, com o correspondente abatimento do preço, ou enjeitá-la, optando por resolver o contrato. Para admitir a resolução , deverá o juiz verificar se houve impossibilidade total, se a prestação parcial efetivamente não atende ao interesse do credor ou se a prestação é possível não significa o cumprimento substancial da obrigação (a falta de um volume, na coleção rara de 10 livros, pode destruir o seu valor; já a falta de um exemplar, em partida de 10 exemplares iguais, significa que o devedor cumpriu substancialmente sua prestação, não cabendo resolver”.
Assim, de um lado, se a fração adimplida da obrigação não satisfaz os interesses do credor, extingue-se o vínculo contratual mantido entre credor e devedor, desnatura-se o contrato, ocasionando a resolução contratual. Por outro lado, se a fração adimplida da prestação interessa ainda que parcialmente ao credor, que conserva o seu interesse em recebê- la, ter-se-á a preservação do contrato, com a redução proporcional da contraprestação devida pelo credor.
Nota-se, assim, uma coincidência entre os institutos impossibilidade parcial e adimplemento substancial diante dos reflexos de suas incidências na satisfação do interesse do credor e na essencialidade da prestação e ambos podem trazer a conseqüência da vedação quanto à resolução contratual. Entretanto, os fundamentos que autorizam tal solução para cada instituto são distintos e não se confundem.