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a homossexualidade, enquanto o desvio é a heterossexualidade, apenas mantida para garantir a continuidade da tribo, evitando a sua extinção (Paulos, 2002).

30 Os dois tipos de relacionamento sexual aos quais se pode aludir remetem para a relação activa e

coitocêntrica (a que é desejada, pois permite a reprodutividade e tem como protagonistas um homem e uma mulher) e a relação sexual passiva e não coitocêntrica (relação entre dois homens ou duas mulheres, que impossibilita entre si a procriação da espécie; que, diga-se, pode existir igualmente entre um homem e uma mulher).

tentativa de assinalar a descoberta ou o reconhecimento de um tipo diferente de indivíduo – “cuja essência sexual era significativamente diferente daquela do/ da “heterossexual” (…)” – ao definir “sentimento sexual contrário”, “terceiro sexo” ou “género intermediário”, constituiu uma mudança bastante marcante na definição pública e privada da homossexualidade, bem como em relação à emergência de uma política gay e lésbica aberta a desafios, simbolizando ambas, rupturas cruciais nos significados atribuídos à diferença sexual (Weeks, 2000:58).

Um outro aspecto importante que informará as interrogações iniciais, remete para o recorrente e (quase) inquestionável uso de conceitos pré-formatados e instituídos social e cientificamente. Estes podem, em casos concretos, simbolizar a desigualdade e a discriminação, se os seus significados provierem e informarem, com base no preconceito, no estigma e no estereótipo, as representações sociais acerca da homossexualidade e, consequentemente, dos indivíduos com essa orientação sexual. Como tal, ponderando o posicionamento crítico de Guasch a respeito da conceptualização rígida das terminologias, este questiona a adequabilidade científica do vulgar uso do termo “heterossexualidade”, propondo – ainda que não deixando de categorizar indivíduos neste ou naquele patamar – o termo “ortossexualidade” como mais correcto e lógico para definir a sexualidade daqueles que cumprem o estabelecido e aceitável socialmente, portanto, o mesmo é dizer com a “ortodoxia” no âmbito do sexual (Guasch, 2000:17). Adoptando semelhante raciocínio, também o conceito “homossexualidade” poderia ser submetido a redefinições, quebrando as amarras da crença na categorização rígida e imutável dos conceitos. Desse modo, talvez se pudesse privilegiar uma terminologia como “heterodoxia sexual”31, por exemplo, que

admitisse definir e abranger as diversas preferências, manifestações e significados daqueles que se dissemelham do determinado nas pautas do social e moralmente correcto, caso contrário aquele “erro histórico” – o “monstro linguístico” designado por heterossexualidade – continua a “condiciona[r] negativamente a vida afectiva de milhões de seres humanos e [a limitar] a expressão dos seus afectos e das suas emoções” (Guasch, 2000:17).

Assim sendo, tem existido a necessidade de atribuir aos indivíduos uma verdade cristalina – que não dê margem à dubiedade – proveniente de uma estreita relação entre o “sexo verdadeiro”, a respectiva sexualidade e a identidade32. Assim se percebe em parte o

“como” a sociedade portuguesa pode discriminar a homossexualidade ao defini-la como

31 Termo sob criação própria, ainda que em analogia ao pensamento de Guasch e ao conceito citado

acima. Nesta definição recairia a real significância de “héteros”, de origem grega, que “significa diferente, outro, irregular”, opondo-se a “homós”, também de origem grega, e que “exprime a noção de igualdade ou semelhança” (Dicionário Universal, 2007:852, 870).

32 Cita-se aqui o exemplo evidenciado por Foucault a respeito desta matéria, o qual contempla o caso de

“uma moça pobre e digna de mérito [criada] num meio quase que exclusivamente feminino e profundamente religioso (…) [a qual] foi finalmente reconhecida como sendo um “verdadeiro” rapaz; obrigado a trocar legalmente de sexo após um processo judiciário e uma modificação do seu estado civil, [que, sendo] incapaz de adaptar-se a uma nova identidade (…) terminou por se suicidar. (…)” (in Weeks, 2000:45). O exemplo permite aludir a questões particulares cuja tónica assenta, manifestamente, na necessidade social de se estabelecer como que critérios de correspondência rígidos e não ambíguos entre a “verdade” revelada corporeamente e uma “verdadeira” sexualidade que, no cômputo final, defina e determine uma “real” identidade, aceite, valorizada e tida como socialmente normativa.

categoria fixa que baliza os significados e os comportamentos ditos “não-normais”, acarretando, com isso, a discriminação e exclusão dos indivíduos com orientação homossexual, pois aprisionados (numa) categoria invariável na qual não cabem as definições da “norma heterossexual”. Como refere Weeks, a descrição rigorosa das “verdadeiras” características femininas e masculinas associadas à heterossexualidade, encontra-se intimamente relacionada com a definição do que é socialmente entendido como “normal” – uma “plena correspondência entre o corpo e a identidade de género socialmente aceitável” –, sendo assim percebida como expressão sexual da normatividade social e da não- discriminação. Ao contrário, o que é definido como “não-normal” (a homossexualidade) – uma incongruência entre as evidências corporais e a identidade que caracteriza o indivíduo do género masculino ou feminino –, passa a ser apreendida como expressão sexual da diferença que gera desigualdade e, não raro, situações de exclusão social e política (2000:46), como será explicado no próximo subcapítulo. Citando Rubin, pode aqui referir-se a resistência social ou incapacidade de aceitação da diversidade sexual, apoiada no facto de se pensar “o sexo como um vetor de opressão que atravessa outros modos de desigualdade social, ta[l] como (…) [o] género” (in Piscitelli, 2003:215).

As grandes preocupações subjacentes aos recorrentes debates sobre a moralidade e os comportamentos sexuais incidem, nitidamente, sobre as relações entre homens e mulheres, o problema do desvio sexual, a questão da família e de outros relacionamentos, as relações entre adultos e crianças e a questão da diferença (de classe, género ou etnia) (Weeks, 2000:49). Deste modo, sexualidade deve ser estudada como um domínio não unificado, onde o poder não actua sobre ela por mecanismos simples de controlo, mas através de outros complexos, sobrepostos e, não raras vezes, contraditórios, que produzem e explicam a sexualidade como um processo influenciado por mecanismos sociais, designadamente, a dominação, oposição, subordinação e a resistência.

Cruzando os significados conceptuais e reais da exclusão social e da homossexualidade, e para que se perceba melhor esta última como expressão sexual da discriminação e exclusão sociopolíticas, poderá afirmar-se a existência de um sentimento enraizado da norma (sexual e, logo, social) transgredida, geradora de exclusão, pois, como explica Estivill,

“[q]ualquer sociedade, qualquer grupo, mesmo qualquer indivíduo, cria e possui as suas regras, mais ou menos explícitas, e ao fazê-lo estabelece uma diferenciação que permite definir, com ou sem razão, as categorias do eu, do nós e do vós e eles-elas” (2003:14).

Tendo vindo a especificar-se o campo de análise deste trabalho, percebe-se que a sociedade portuguesa diferencia dos indivíduos com orientação heterossexual e, consequentemente, estigmatiza e segrega legalmente – isto é, não integra – os indivíduos com orientação homossexual, privilegiando e tornando dominante a heterossexualidade como forma desejável e aceite de viver a sexualidade, cujas repercussões se estendem a estruturas sociais como a justiça ou a família, para exemplificar. Como menciona Fernandes, a “estigmatização é uma forma de classificação que, avivando a sua identidade negativa, lança

no descrédito determinadas categorias sociais consideradas como anormais face aos padrões dominantes”, o que pode provocar nos indivíduos um sentimento de inferiorização e rejeição por parte da sociedade em que se inserem (1991:60). A estigmatização, assinalando a diferença, é então “uma marca do indesejável, (…) e, por isso, deve ser posto fora do alcance do quotidiano da normalidade”, algo que “marca culturalmente (…) a exclusão”, destruindo o espaço para a vivência da cidadania (Fernandes, 1991:60). No entanto, como Guasch defende, numa sociedade democrática, alegadamente aberta, é difícil existir uma só opção de sexualidade legítima (2000:91).

2. O Sexo e a Cidadania: Da diferença sexual às desigualdades