Relator - Des. J. J. Costa Carvalho Segunda Turma Cível
EMENTA
AGRAVO DE INSTRUMENTO EM MANDADO DE SEGU- RANÇA- DESCREDENCIAMENTO DE INSTRUTOR DE TRÂNSITO CONDENADO POR CRIME SEXUAL - PENDÊN- CIA DO TRÂNSITO EM JULGADO - PRESUNÇÃO DE INO- CÊNCIA - RELATIVIZAÇÃO - INTERESSE PÚBLICO - PRIN- CÍPIOS DA RAZOABILIDADE E DA PROPORCIONALIDADE. 1) O princípio da presunção de inocência, consagrado no art. 5º, LVII, da Constituição Federal, visa a resguardar a liberdade pessoal, numa garantia predominantemente processual.
2) A presunção da inocência, mesmo considerada em sua forma extrema, é passível de relativização em face de outros princípios igualmente protegidos pela Constituição Federal, expressa ou implicitamente.
3) Havendo a necessidade de composição, é preciso sopesar os bens jurídicos tutelados, servindo como principal instrumento norteador os princípios da razoabilidade e da proporcionalidade, buscando atender ao espírito da norma no caso concreto. 4) Agravo de instrumento provido.
ACÓRDÃO
Acordam os Senhores Desembargadores da 2ª Turma Cível do Tribunal de Justiça do Distrito Federal e dos Territórios, J. J. Costa Carvalho - Relator, Sérgio Rocha - Vogal, Waldir Leôncio Lopes Júnior - Vogal, sob a presidência do Senhor Desembargador Waldir Leôncio Lopes Júnior, em proferir a seguinte decisão: dar provimento. Unânime, de acordo com a ata do julgamento e notas taquigráficas.
Brasília (DF), 7 de dezembro de 2011.
RELATÓRIO
Trata-se de agravo de instrumento interposto em face de decisão proferida em mandado de segurança, pela qual o d. juiz concedeu liminar para que o DETRAN
restabelecesse o credenciamento do impetrante como instrutor de trânsito (fls. 71/72).
Nas razões do agravo, o DETRAN defende a inexistência de ato ilegal ou arbitrário, considerando que o ato de descredenciamento se pautou em norma interna do órgão, que exige a apresentação de certidão negativa criminal. Alega que a sentença de condenação foi mantida em grau de recurso pelo Tribunal de Justiça e que os recursos especial e extraordinário interpostos do acórdão não foram admitidos, estando pendente de julgamento os respectivos agravos. Afirma a impossibilidade de se conceder alcance exagerado ao princípio da presunção de inocência, devendo ser considerado o interesse público no caso concreto.
Com respaldo no art. 558 do CPC, antecipei os efeitos da tutela recursal, para suspender os efeitos da decisão agravada (fls. 93 e verso).
H. H. R. apresentou defesa, alegando que o descredenciamento levado a efeito pelo DETRAN ofende o princípio da presunção de inocência, haja vista que a punição ocorreu antes do trânsito em julgado da ação penal na qual foi condenado. Além disso, o próprio ato no qual o DETRAN se baseou para descredenciá-lo - Instrução de Serviço 267/2011 - estabelece que os efeitos decorrentes da condenação se sujeitam ao trânsito em julgado (fls. 97/105).
É o relatório.
VOTOS
Des. J. J. Costa Carvalho (Relator) - Presentes os pressupostos, conheço
do recurso.
O d. magistrado de primeira instância determinou, em caráter liminar, o recredenciamento do impetrante como instrutor de trânsito, por entender que o DETRAN não poderia ter aplicado a punição antes do trânsito em julgado da condenação criminal.
O impetrante foi condenado nas penas dos artigos 213 e 214 c/c 224 (estupro e atentado violento ao pudor com violência presumida por se tratar de vítima com menos de 14 anos) a 9 anos e meio de reclusão, em regime inicialmente fechado. Ainda estão pendentes de julgamento os agravos interpostos contra o não processamento dos recursos especial e extraordinário.
Ainda assim, permaneço convicto de que a decisão de descredenciamento se pautou no interesse público, haja vista que não se mostra razoável permitir que o impetrante permaneça na condição de instrutor de trânsito, após a condenação por um crime sexual (confirmada pela instância revisora), haja vista a natureza do contato mantido com os aprendizes.
Não discordo do juízo monocrático quanto à inexistência do trânsito em julgado e nem ignoro a posição majoritária da jurisprudência no sentido de que não é possível a execução provisória da condenação antes do esgotamento de todas as vias recursais.
Contudo, o caso concreto requer uma análise criteriosa, porque se trata de atestar a idoneidade de um instrutor de trânsito para exercer uma função delegada (em sentido amplo) pelo Poder Público, apesar de existir uma condenação por crime sexual, confirmada pela instância revisora.
A necessidade de trânsito em julgado não é absoluta e merece ser relativizada diante de outros princípios, sobretudo quando a discussão está fora do âmbito penal, como no caso.
Até mesmo a instrução baixada pelo DETRAN deve ser interpretada em favor do interesse público. Admitir simplesmente a sua interpretação literal significaria admitir que o descredenciamento somente poderia ser implementado após o cumprimento da própria condenação criminal: “No caso da Certidão criminal registrar a expressão CONSTA, o DETRAN/DF não autorizará o trabalho dos profissionais do CFC que estejam cumprindo pena imposta pelo Poder Judiciário em razão de sentença transitada em julgado, até o término do seu cumprimento”.
Dessa forma, reitero no presente os argumentos utilizados quanto da decisão antecipatória da tutela:
“O impetrante foi condenado1 nas penas dos artigos 213 e 214
c/c 224: estupro e atentado violento ao pudor com violência presumida por se tratar de vítima com menos de 14 anos. A sentença, proferida pelo Juízo do 2º Juizado Especial Criminal e Violência Doméstica contra a Mulher de Ceilândia/DF, foi manti- da na íntegra pela 2ª Turma Criminal desse Tribunal de Justiça (fls. 9/15). Apesar de interpostos recursos especial e extraordinário, os mesmos tiveram indeferido o processamento (fls. 18/20). Da decisão, foram interpostos agravo de instrumento.
O ato de descredenciamento foi motivado pela condenação im- posta ao impetrante, conforme disposto na Instrução Normativa 267/11, que exige a apresentação, por aquele que pretende o credenciamento, de “Certidão Negativa Criminal da Justiça do DF” (art. 55, V).
Pois bem.
O d. juiz concedeu a liminar no mandado de segurança, com fundamento no princípio da presunção de inocência. Além disso, o magistrado considerou previsão da própria instrução normativa
no sentido de que há necessidade de prévio trânsito em julgado. Em que pesem as considerações do d. magistrado, é preciso pon- derar que os recursos pendentes de apreciação não possuem efeito suspensivo, significando dizer que o pronunciamento judicial é plenamente eficaz. Além disso, o princípio da presunção de inocência, consagrado no art. 5º, LVII, da Constituição Federal, visa a resguardar a liberdade pessoal, numa garantia predominan- temente processual.
Por outro lado, ainda que a presunção de inocência fosse aqui considerada na sua forma mais ampla, a medida administrativa teria respaldo em outros princípios. Não há como ignorar as razões trazidas pelo DETRAN em seu recurso, no sentido de que o descredenciamento é pautado no interesse público, “uma vez que visou evitar que mulheres jovens e vulneráveis ficassem expostas a situações de proximidade com um instrutor acusado de crimes sexuais. Não há que se falar em desproporção da medida, uma vez que é de praxe que apenas o instrutor e a candidata permaneçam dentro do carro durante todo o período das aulas teóricas, sem interferência de terceiros”.
A presunção da inocência, mesmo considerada em sua forma extrema, é passível de relativização em face de outros princípios igualmente protegidos pela Constituição Federal, expressa ou implicitamente. Havendo a necessidade de composição, é preci- so sopesar os bens jurídicos tutelados, servindo como principal instrumento norteador o princípio da razoabilidade/proporcio- nalidade. Esse princípio, na visão de Luis Roberto Barroso, “não está expresso na Constituição, mas tem seu fundamento nas idéias de devido processo legal substantivo e na justiça”. Segundo o autor, o “princípio pode operar, também, no sentido de permitir que o juiz gradue o peso da norma, em determinada incidência, de modo a não permitir que ela produza um resultado indesejado pelo sistema, fazendo assim a justiça do caso concreto” (“Curso de Direito Constitucional Contemporâneo”, Ed. Saraiva, fls. 304/305).
A definição dada pelo autor se encaixa exatamente na situação. De um lado, o impetrante se vale do princípio da presunção de inocência, de forma a justificar o recredenciamento. De outro, o DETRAN sustenta a razoabilidade da medida, em razão do interesse público, aqui identificado numa medida preventiva, com respaldo em uma condenação criminal.
Em face do bem jurídico tutelado, é razoável que o ato coator prevaleça, ainda que em juízo primário de cognição, por atender ao interesse público.
Pelo exposto, antecipo a tutela recursal, para suspender os efeitos da decisão agravada, até o julgamento do presente recurso (CPC, art. 558).”
Pelo exposto, dou provimento ao recurso, para indeferir o pedido liminar formulado no mandado de segurança.
É o voto.
Des. Sérgio Rocha (Vogal) - Com o Relator.
Des. Waldir Leôncio Lopes Júnior (Vogal) - Com o Relator. DECISÃO
Dar provimento. Unânime.
Nota
1 9 anos, 6 meses e 10 dias de reclusão, em regime inicialmente fechado.