Capítulo 1 - A PERMEABILIDADE DAS NOÇÕES
1.5 Agroecologia e multifuncionalidade da agricultura
Uma das grandes inovações da agricultura em espaços periurbanos são as práticas de manejo agroecológico, as quais vem sendo fortalecidas pelo poder público no Município de São Paulo objetivando estratégias de conservação ambiental para recuperação e proteção das áreas de mananciais, além de funcionar como barreira de contenção do espraiamento da mancha urbana consolidada. Esta associação da atividade agrícola, com funções para além do abastecimento alimentar, pode ser chamada de multifuncionalidade da agricultura. Neste sentido, o cultivo da terra pode ser reconhecido pelas múltiplas funções que exerce, pois é uma atividade que tem características inerentes à proteção da natureza como: baixa densidade populacional, proteção e manutenção da permeabilidade da terra e dos recursos hídricos, assim configurando uma das melhores formas econômicas e ambientais do uso da terra em áreas de mananciais (CARVALHO, 2005).
A integração das funções da agricultura também representa a otimização e a racionalidade do processo, pois uma unidade de produção agrícola familiar baseada em práticas agroecológicas, ao mesmo tempo, preserva o tecido em que se apoia a lavoura,
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fornece uma base alimentar de qualidade, protege a paisagem natural e rural, além de gerar emprego e renda pela venda de produtos e prestação de serviços de turismo e lazer. Como consequência, a atividade agrícola, além da produção privada que sustenta a família, transborda para a esfera pública através da produção de bens públicos e serviços tangenciados pela segurança alimentar, preservação ambiental e manutenção das dinâmicas sociais e culturais, assim desmembrando a agricultura em produtos e serviço (CAZELLA, 2009, p. 297).
Este potencial ambiental reacendeu os estudos acadêmicos brasileiros rurais e agrícolas a partir da década de 1990, sobretudo pela integração entre agricultura familiar e a temática ambiental (SCHNEIDER, 2002), visto que o manejo em menor escala permite uma integração maior com o ambiente natural e pode se tornar uma importante ferramenta de conservação ambiental. Com efeito, além da função ambiental, a multifuncionalidade da agricultura pode ser traduzida como um novo olhar a respeito das dinâmicas de reprodução social das famílias que vivem da terra, pois a agricultura familiar representa uma categoria que contém per si todas as potencialidades para exercer múltiplas funções relacionadas entre si. Por este motivo, os(as) agricultores(as) podem ser valorizados como guardiões de bens públicos naturais e culturais que são compartilhados por todos habitantes do planeta. A multifuncionalidade da agricultura precisa ser incorporada às dinâmicas sociais para garantir o desenvolvimento de ações e estratégias do poder público, das redes de ONGs e de iniciativas privadas.
Contudo, a construção de políticas públicas deve traduzir visões de mundo que promovam a permanência das práticas agrícolas por meio das necessidades reais das famílias agrícolas expressas em seus territórios e em suas dinâmicas, as quais podem ser compreendidas como a “tradução no espaço e no tempo das repercussões econômica, social, política e ambiental das ações de atores e das relações (alianças e conflitos) entre eles” (CAZELLA, 2009, p. 60). Contudo, é necessário ponderar os conflitos entre a legislação ambiental e as práticas agrícolas familiares na realidade brasileira visto que os(as) agricultores(as) correm sérios riscos com a grande burocratização e custos para adequação ambiental. As sanções ambientais e falta de estratégias que fomentem incentivos do poder público, para fortalecimento da agricultura enquanto estratégia de conservação ambiental, podem ser responsáveis pelo enfraquecimento da própria
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agricultura. Outro risco é o crescente deslocamento da função agrícola fundamental, que é a segurança alimentar, para a exclusiva função de conservação ambiental que pode reduzir a agricultura apenas à sua função paisagista (CAZELLA, 2009, p. 15).
As políticas públicas específicas de caráter ambiental devem partir de uma agenda positiva, a fim de subsidiar as bases socioeconômicas da agricultura familiar e de promover a segurança alimentar, social e econômica das próprias famílias produtoras de alimento, além da remuneração de suas funções ambientais. As cidades têm um importante papel neste processo, pois a valorização da multifuncionalidade da agricultura surge, em grande parte, das necessidades advindas dos extensos aglomerados urbanos por qualidade ambiental e preservação dos recursos naturais vitais. Com efeito, pode-se afirmar que na procura urbana, pela valorização do equilíbrio ambiental e pelas atividades de turismo e lazer ecológicos, reside a viabilidade de transformar o mundo rural e agrícola em espaços multifuncionais (FERRÃO, 2000).
Contudo, a proteção da biodiversidade depende de um manejo agrícola, isento de venenos e adubos sintéticos, que seja equilibrado com as dinâmicas ecológicas. Por este motivo, os princípios e práticas agroecológicas tornam-se centrais para repensar o modelo agrícola brasileiro e entram na agenda das políticas públicas como a Lei Federal (no
10.831/2003) que regulamenta a agricultura orgânica e o Decreto (no 7.794/2012) que normatiza a Política Nacional de Agroecologia e Produção Orgânica (PNAPO). Isto mostra um avanço no fortalecimento da agricultura em bases agroecológicas, pois o Brasil apresenta um histórico de subsídios à atividade agrícola patronal e convencional que, mesmo com menor produtividade comprovada, ganha destaque no modelo agrícola brasileiro baseado no ‘pacote tecnológico’ proveniente do grande movimento de extensão rural cunhado como Revolução Verde.
1.6. OS MANEJOS DA TERRA
Os modelos agrícolas desenvolvidos na história da agricultura mundial conjugam a noção de natureza à uma grande diversidade de manejos antrópico que variam de acordo com o momento histórico, a região, o tipo de solo e as técnicas empregadas.
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Abaixo segue uma síntese de alguns marcos do detalhado percurso histórico que o autor Mazoyer (1997) apresenta:
PERÍODO TIPO DE MANEJO AGRÍCOLA
Sociedades agrárias neolíticas
cultivadores de derrubada-queimada dos meios arbóreos NEOLÍTICO
(10 mil a.C. - 3 mil a.C.)
Fim do Neolítico
utilização de ferramentas como machado e fogo possibilitou o desmatamento resultando na variação de manejo agrícola
IDADE DOS METAIS (3 mil a.C.)
Sistemas agrários pós-florestais diferenciados possibilidades pelo progresso do desmatamento Idade de ferro
utilização de instrumentos como machados e enxadas
ANTIGUIDADE Fim da Antiguidade
cultivo com tração animal leve nos sistemas hidroagrícolas e nos sistemas de alqueive (cultivo + pastagem)
nas regiões do Oriente Médio, África e Ásia
IDADE MÉDIA
Cultivo de tração pesada com arado, grade e carreta utilização de energia hidráulica e eólica com moinhos noroeste da Europa e regiões da Ásia
PERÍODO DA COLONIZAÇÃO
Grande intercâmbio de produtos agrícolas e animais domésticos entre a América e a Europa.
FIGURA 11: Histórico da agricultura
FONTE: (MAZOYER, 1997)
É possível identificar que o desenvolvimento do ferramental e técnicas agrícolas, seguido da incorporação da tração animal ao cultivo, uso de energia proveniente dos recursos naturais e o grande intercâmbio entre as diversas regiões produtoras do mundo caracterizam elementos transformadores do manejo da terra. Contudo, esta simbiose entre o manejo agrícola e o ambiente natural sofreu uma grande transformação a partir das
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chamadas Revoluções Agrícolas. A primeira ocorreu no século XIX, período em que o desenvolvimento industrial fomentou uma das maiores inovações para o cultivo por meio da mecanização conjugada ao uso de tração animal. O próximo século foi marcado pela adequação de um pacote tecnológico à agricultura, o qual disseminou a segunda Revolução Agrícola em escala mundial.