Aguafuertes Cariocas: um cronista viajante no Rio de Janeiro

No documento ANDREIA MOURA DOS SANTOS. A cidade nas Aguafuertes Cariocas de Roberto Arlt. Versão original. São Paulo 2021 (páginas 29-32)

CAPÍTULO 1: Aguafuertes Cariocas: a viagem e seus antecedentes

1.2 Aguafuertes Cariocas: um cronista viajante no Rio de Janeiro

Foi com grande alegria e empolgação que, no início do ano de 1930, Arlt recebeu a notícia de que viajaria para o Brasil em nome do jornal para escrever notas de viagem.

Como cronista, viajar era uma oportunidade de sair de seu espaço habitual e conhecer novas realidades.

A legitimidade de Arlt como escritor não era algo dado, pois sua origem humilde e consequentemente sua formação cultural cheia de dificuldades foram obstáculos para firmar-se no meio literário. Por esse motivo é grande o entusiasmo que manifesta na água-forte “Con el pie en el estribo”, na qual ele informa aos seus leitores sobre sua viagem próxima. No texto, transparece a euforia de um escritor que sabia o significado que uma viagem como cronista internacional tinha em sua carreira. Além da euforia pela conquista, Arlt manifesta a certeza de que a viagem próxima é um justo reconhecimento pelo esforço de um homem que já trabalhou muito e em muitos trabalhos diferentes.

De fato, viajar como correspondente de um jornal era um grande reconhecimento para um jornalista, em um contexto em que relatar impressões nas páginas de um jornal era constituinte da atmosfera de modernidade que pairava sobre as cidades latino-americanas. Como já foi assinalado, o surgimento de grandes jornais de tabloide e as campanhas de alfabetização em massa possibilitaram em muitas dessas cidades que grande parte da população pudesse ler e se informar, criando a necessidade de imediatismo na transmissão das informações. Assim, o leitor de um jornal poderia saber o que se passava do outro lado do mundo e conhecer os hábitos de povos distantes sem sair de sua cidade, por conta do trabalho de correspondentes de jornais, os quais, muitas vezes, eram escritores cronistas, como foi o caso de Arlt e, antes dele, escritores consagrados como Rubén Darío e José Martí.

A decisão do diretor do jornal de enviar Arlt em uma viagem sul-americana certamente não foi aleatória, pois, segundo relata João Paulo Coelho de Souza Rodrigues, (2017), havia entre o final do século XIX e os primeiros 35 anos do século XX um intercâmbio de jornalistas que se dedicavam ao papel de mediadores culturais entre Buenos Aires e Rio de Janeiro. Em seu artigo “Embaixadas originais: diplomacia, jornalismo e as relações Argentina-Brasil (1888-1935) ”, Rodrigues relata que, antes de

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Arlt, diversos jornalistas argentinos viajaram ao Brasil. Somente no ano anterior a sua visita, os escritores Nicolás Olivari e Raúl González Tuñón, ambos integrantes do Grupo Boedo, visitaram o país como correspondentes do jornal Crítica. Logo, não era uma novidade um jornalista argentino ser enviado como correspondente ao Rio de Janeiro. De acordo com Rodrigues, os jornalistas cumpriam um papel de diplomatas culturais nas relações entre Brasil e Argentina, uma vez que as viagens possibilitaram uma aproximação entre as duas nações, pois as matérias resultantes estimulavam uma troca de conhecimento sobre a cultura dos dois países. Havia muita pompa nas visitas jornalísticas realizadas naquele período e os jornalistas, tanto num país quanto no outro, eram recebidos e levados a diversas atividades pensadas exclusivamente para entretê-los. Essa informação ajuda a compreender as palavras de Arlt na crônica “Llamémoslo ‘Jardín Zoológico’”, publicada em 29 de abril de 1930. Após relatar todos os problemas que encontrara no zoológico e dizer que o lugar parecia não ter diretor, escreveu as seguintes palavras: “No quisiera que esa nota provocara un conflicto diplomático.” (ARLT, 2013, p.117). Embora, em uma primeira leitura, possa parecer que Arlt estava sendo irônico, a informação de que entre os jornalistas dessas duas nações sul-americanas existia essa espécie de diplomacia cultural indica a possibilidade de que a preocupação de Arlt fosse real.

Talvez por esse movimento comum de jornalistas argentinos em direção ao Brasil, o país tenha sido um dos escolhidos como destino da primeira viagem internacional de Arlt. Embora antes tenha passado alguns dias no Uruguai, foi ao Rio de Janeiro que Arlt dedicou a maior parte de sua viagem, uma vez que permaneceu nessa cidade por quase dois meses. Enquanto esteve trabalhando no Brasil, utilizou as dependências de O Jornal para escrever suas crônicas. Rodrigues comenta que, apesar de ser considerável o número de jornalistas que visitaram o Rio de Janeiro nos anos que sua pesquisa compreende, poucos jornalistas argentinos efetivamente trabalharam nas redações de jornais cariocas, como fez Arlt. Isso se deve, explica o autor, ao fato de que Arlt viajava sozinho e que esteve no Brasil por um período maior, pois muitas vezes os jornalistas argentinos vinham em comitivas que permaneciam no país por um curto período. Esse definitivamente não era o propósito de Arlt, que via em sua primeira viagem internacional uma oportunidade de experimentar uma cultura diferente da sua, andando pelas ruas cariocas de forma anônima, quase que despercebido, como era natural para o flâneur de cidade moderna:

31 Pienso mezclarme y convivir con la gente del bajo fondo que infesta los pueblos de ultramar. Conocer los rincones más sombríos y más desesperados de las ciudades que duermen bajo el sol del trópico.

Pienso hablarles a ustedes de la vida en las playas cariocas de las muchachas que hablan un español estupendo y un portugués musical.

[...] ¡Qué multitud de temas para notas en ese viaje maravilloso que me hace escribir en la Underwood de tal manera que hasta la mesa tiembla bajo la trepidación de las teclas! (ARLT, 2013, p.13).

A viagem significava para Arlt novos lugares para explorar e conhecer, além da perspectiva de encontrar novos temas para suas águas-fortes, algo que talvez não fosse mais tão fácil após dois anos escrevendo sobre suas observações em Buenos Aires.

Certamente a ideia de realizar uma viagem e conhecer uma nova cidade para escrever crônicas causava muitas expectativas e desejos. Jorge Monteleone, no prólogo a El relato de viaje. De Sarmiento a Umberto Eco (1998, p.11), pontua que a viagem é um espaço de desejo, sonho e reflexão e que a literatura é justamente o lugar em que um roteiro de uma viagem pode transformar-se em discurso. Esse sentimento transparece nessa primeira crônica das Aguafuertes Cariocas

¡Viajar...viajar...!

¿Cuál de nosotros, muchachos porteños, no tenemos ese sueño?

¡Viajar! Conocer cielos nuevos, ciudades sorprendentes, gente que nos pregunte, con una escondida admiración:

— ¿Usted es argentino? ¿Argentino de Buenos Aires? (ARLT, 2013, p.13).

Arlt, como escritor e jornalista reconhecido, iria enfim ampliar seus horizontes e viver novas experiências. A euforia que esse cenário prometido lhe causava é facilmente observável nas linhas da crônica em que anuncia a viagem.

É também nessa crônica que ele fala dos trajes que levará, os lugares que deseja visitar e os procedimentos que pretende adotar como cronista internacional. Toda essa preparação é parte do que Monteleone define como o momento inicial da viagem, o qual é “un estadio de impulso puro, una especie de infancia del deseo donde el tiempo aún no ha pasado” (MONTELEONE, 1999, p. 11). De fato, nos dias que antecedem a viagem, Arlt fica extasiado com a nova aventura que se delineia e esse estado de desejo e ansiedade é externado nessa crônica escrita ainda em Buenos Aires:

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¡Conocer y escribir sobre la vida y la gente rara de las Repúblicas del norte de SudAmérica! Digan, francamente, ¿no es una papa y una lotería? (ARLT, 2013, p.12). (Grifos nossos).

¡Saraca! ¡Victoria! ¡Abandono la noria! Van a ver a ustedes qué notas les enviaré… (ARLT, 2013, p.14).

Além da alegria evidente, aparece pela primeira vez a expectativa de Arlt em relação ao outro, aquele que é alheio a ele e a sua experiência de vida. Sabe-se que viagens envolvem sempre relações de alteridade, conceito que, como explica Gabriel Weisz (2007, p. 19), é uma experiência que nos permite perceber diferenças. Nesse sentido, mesmo antes da viagem, Arlt apresenta esse interesse pelo diferente, o qual já de início classifica como raro.

A leitura dessa primeira crônica do livro possibilita uma aproximação ao imaginário do escritor ao saber da futura viagem para fora de seu país. Serve como ponto de partida para entender quais eram as motivações, expectativas e interesses de Arlt nos dias que antecedem a viagem ao Brasil.

No documento ANDREIA MOURA DOS SANTOS. A cidade nas Aguafuertes Cariocas de Roberto Arlt. Versão original. São Paulo 2021 (páginas 29-32)