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Por outro lado, ao analisar a história e os bastidores do atual paradigma tecnológico, não é difícil perceber que tecnologias como o Kernel Linux, o desktop GNOME, as impressoras 3D, a Internet, os PCs, além da maioria dos verbetes da Wikipédia, todos esses bens não foram concebidos e idealizadas num escritório

durante o horário comercial. Essa aparente e simples ruptura com o locus formal de trabalho técnico na verdade indica uma mudança muito mais profunda e subversiva, além de tornar mais fácil o entendimento inicial de que

[...] os hackers otimizam o tempo para ter mais espaço para brincar: Torvalds acha que no meio do trabalho sério do Linux, sempre havia espaço para a diversão e algumas experiências de programação que não têm

objetivo imediato. A mesma opinião é compartilhada pelos hackers desde o MIT na década de 1960 (HIMANEM, 2001, p.41-.42).

No desenvolvimento do desktop e da plataforma GNOME, por exemplo, essa mesma práxis não se faz diferente. Ao adentrar a página principal do site da Conferência Anual Europeia para Desenvolvedores e Usuários GNOME (GUADEC) de 2007, um dos poucos encontros “técnicos” da comunidade fora da Internet, fica claro ao se olhar o slogan (Meet-Plan-Party!), qual é a real natureza desse suposto momento de “planejamento” para novos rumos do projeto – como montra a figura 26.

Encontros dessa natureza – no mundo dos “átomos” e não digital - são normalmente denominados pelas comunidades de “hack day” ou “hack party”. No caso do projeto GNOME, além do GUADEC - que é o maior evento presencial dessa comunidade (ocorre anualmente), é possível descobrir também uma lista de encontros locais ou setorizados que são divulgados por meio do seguinte endereço: http://wiki.gnome.org/Hackfests Além da dimensão lúdica e social, todos esses eventos presenciais (de caráter local ou internacional) estão associados a algum desafio ou meta técnica a ser alcançada e, por conta disso, acabam gerando uma espécie de imbricamento entre produção técnica e socialização. O resultado dessa fusão de lógicas parece se manifestar com certas especificidades em cada projeto ou localidade.

No caso da Wikipédia Lusófona, alguns encontros entre os wikipedistas (editores, administradores, novos membros, etc.) da comunidade lusófona também ocorrem presencialmente, porém sempre de forma “local”, isto é, apesar de serem abertos para qualquer membro ou simpatizante interessado em contribuir, eles acabam evolvendo apenas voluntários de uma mesma localidade ou cidade – sem uma periodicidade definida. Dentro do universo de todos esses momentos presenciais da comunidade lusófona, o “WikiSampa” (que acontece na cidade de São Paulo) é o encontro de maior periodicidade e participação entre os membros lusófonos, seguido pelo “WikiRio”, “WikiSalvador” e “WikiNorte”, em Portugal – como

demonstra a página do “Wiki-Encontros”:

http://pt.wikipédia.org/wiki/wikipédia:encontros

No entanto, mesmo com esse tipo de encontro presencial, é no mundo dos bits que essa cultura hacker se manifesta de forma mais evidente. Por exemplo, em qualquer uma das mais de 60 listas de e-mails do projeto GNOME (isto é, num ambiente onde normalmente se tem mais discussão operacionais e técnicas), é muito comum de se ver conteúdos relativos a viagens, casamentos, nascimento de filhos, além – é claro – de piadas e brincadeiras de todos tipos. Ao adentrar em qualquer um dos canais IRC (Chats) do projeto GNOME, não é difícil perceber também que a maior parte do tempo é tomada por brincadeiras e piadas entre os membros do grupo.

Já no caso da Wikipédia, o “clima” desse embricamento entre produção técnica e socialização no ambiente da comunidade é um pouco diferente. De acordo com Johnson (2009), o processo de desenvolvimento dos verbetes enciclopédicos é, em muitos casos, objeto de tensões e disputas de visões editoriais que tomam proporções bem intensas. Afinal, como a própria página do projeto Wikipédia menciona107, isso se deve à diversidade de contribuidores com visões de mundo muitas vezes, radicalmente, diferentes — “de religiosos fanáticos até humanistas laicos, de conservadores a progressistas, etc”. No entanto, com o objetivo de lembrar os editores voluntários que se divertir é “a chave para que qualquer editor se mantenha ativo no projeto”, a comunidade possui um “Departamento de Diversão,” com concursos, jogos e diversas ações para sempre manter o clima lúdico que dá vida a comunidade, mesmo num contexto de extrema diversidade editorial. Afinal, como é possível encontrar escrito na página pública de um dos usuários mais ativos da comunidade lusófona, “não há disputa que uma cerveja e uma caipirinha partilhada não consigam resolver”108.

107http://pt.wikipedia.org/wiki/wikipédia:wikiamor

108A página do usuário de nome “GoEThe, ” onde está escrito a frase na legenda da foto de um encontro entre wikipedistas, pode ser visualizada aqui:

https://pt.wikipedia.org/w/index.php?title=Usu%C3%A1rio%28a%29:GoEThe&oldid=43498923 Figura 27 - página da Wikipédia Encontros.

No universo de múltiplas ações desse departamento de diversão, foi possível encontrar “Wikigincanas”109 com objetivo de promover o aumento da boa edição dos artigos em diversas atividades lúdicas - até mesmo o “I Grande Prêmio (GP) Wikimedia Brasil” que tinha a meta de melhorar a qualidade de cinco mil verbetes lusófonos, em dois meses, classificados pela comunidade como essenciais. Toda essa mobilização voluntária e lúdica contra o tempo foi motivada por um anúncio110 da empresa Positivo de produção de computadores, quando ela se comprometeu a instalar uma versão off-line da Wikipédia em português nos seus produtos que chegavam a atender, na época, 13% do mercado brasileiro.

109https://pt.wikipedia.org/wiki/Wikipédia:Wikigincana

110Mais informações sobre o histórico dessa iniciativa podem ser consultadas no link abaixo: https://br.wikimedia.org/wiki/wikimedia:ágora/post_de_divulgação_do_i_gp_wikimedia_brasil

Desta forma, esse aspecto central da ética hacker acaba também contrastando com a ética protestante analisada por Weber (1999), tanto em termos da sua relação trabalho-tempo como também da questão do prazer no trabalho, lançando assim dúvidas sobre o célebre slogan de Benjamim Franklin: “tempo é (só) dinheiro”? Na visão do fundador do projeto Linux, “com relação ao dinheiro, é importante frisar que ele compra a sobrevivência, mas dificilmente compra laços sociais e diversão. Sobretudo, Diversão com “D” maiúsculo, do tipo que dá sentido à vida. ” (TORVALDS, 2001, p.15)

Partindo deste contexto, Himanem (2001) leva em consideração que o objetivo da vida para os hackers estaria mais próximo da diversão

ligada ao tempo livre do “domingo” do que o tempo de trabalho formal

da “sexta-feira. Contudo, os hackers não adotam a ideia de um paraíso semelhante a um domingo de pleno ócio, como imaginaria esta ética original cristã. Para eles a centralização num lazer “improdutivo” pode ser tão indesejável quanto a centralização no trabalho.

Dito de outra forma, ao se descrever a ética de trabalho que fundamenta a própria cultura hacker, do ponto de vista de uma vida significativa, toda dualidade “trabalho X lazer” deve ser abandonada. Na cultura hacker – seja na programação ou na edição de verbetes – não se dá mais importância ao “tempo de lazer” em detrimento do “tempo de trabalho”, ou vice-versa. Ambos os tempos são intimamente imbricados na realização de um trabalho prazeroso e dotado de significado. Por isso,

é possível afirmar que

[...] um hacker é uma pessoa para quem o computador já não é um meio de sobrevivência ('eu ganho o pão de cada dia como programador') e partiu para outra duas etapas (de significado). Ele (ou ela, em tese, mas que raramente ocorre na prática) usa o computador para formar laços sociais – o e-mail e a Internet são excelentes formas de se ter uma comunidade. Mas, para um hacker, o computador também significa diversão. (Torvalds, 2001, p.16)

Assim, para além da “sexta” e do “domingo”, Linus Torvalds (2001) ao descrever seu trabalho de programador, afirma que o projeto Linux foi sempre um passatempo para ele (que foi o hacker fundador desse popular projeto de software). Contudo, com um detalhe que agora é mais fácil de ser compreendido: mais do que um projeto de software de alta complexidade, o Linux é “um passatempo sério” e “divertido”. No caso do intenso trabalho intelectual na comunidade wikipedista, pode- se dizer que “é um grande passatempo, que traz suas dores de cabeça, mas é em geral uma experiência que me faz sentir bem (sic)” (Entrevistado 10 da Wiki-pt)111. Isto porque, para muitos wikipedistas esse trabalho representa "um pouco de satisfação pessoal no que diz respeito a edições de assuntos que gosto. Para mim é um tipo de passatempo que agrega conhecimento (sic)" (Entrevistado 11 da Wiki- pt)112. Ou ainda, é possível encontrar, nas respostas das entrevistas, a afirmação de que “utilizo a Wikipédia como forma de lazer, e o relacionamento, embora esparso, que mantenho com outros editores é parte do que procuro na Wikipédia” (sic). (Entrevista 04 da Wiki-pt)113.

Já Eric Raymond (2005) reforça em seu guia de Como Tornar-se um Hacker que “ser hacker é muito divertido, mas é um tipo de diversão que necessita de muito esforço. [...] O trabalho duro e dedicação se tornaram uma espécie de um intenso jogo, em vez de trabalho repetitivo” (Raymond, 2005, p.01). Isso porque os programadores e wikipedistas querem dedicar seu tempo a algo dotado de significado, prazer e reconhecimento, ou seja, eles querem trabalhar em algo

111Entrevista concedida pelo Entrevistado 10 da Wikipédia Lusófona. Bloco 03, Pergunta 07. [out. 2015]. Entrevistador: Vicente Macedo de Aguiar. Mensagem recebida por: <[email protected]>. em: out. de 2015. A entrevista na íntegra encontra-se transcrita nos Anexos desta tese.

112Entrevista concedida pelo Entrevistado 11 da Wikipédia Lusófona. Bloco 03, Pergunta 07. [out. 2015]. Entrevistador: Vicente Macedo de Aguiar. Mensagem recebida por: <[email protected]>. em: out. de 2015. A entrevista na íntegra encontra-se transcrita nos Anexos desta tese.

113Entrevista concedida pelo Entrevistado 04 da Wikipédia Lusófona. Bloco 03, Pergunta 07. [out. 2015]. Entrevistador: Vicente Macedo de Aguiar. Mensagem recebida por: <[email protected]>. em: out. de 2015. A entrevista na íntegra encontra-se transcrita nos Anexos desta tese.

intelectualmente estimulante, criativo e entre pares. Assim, “o significado não pode ser encontrado no trabalho ou no lazer, mas deve surgir da natureza da atividade em si. Nascer da paixão. Valor social. Criatividade” (Himanem 2001, p.134). Além disso, para se opor definitivamente à perspectiva de uma lógica protestante, tanto a ética original dos primeiros hackers de computadores, como sua versão contemporânea no universo wikipedista consideram o compartilhamento livre do conhecimento (por meio de um verbete ou código fonte) como um bem positivo e poderoso, além de um dever moral para que um indivíduo que se considere programador ou editor enciclopédico. Por desse comportamento, é possível afirmar que, dentro do universo da cultura hacker:

[...] o motivo que leva os hackers do Linux (por exemplo) a entrar em ação é que eles acham isso interessante e gostam de compartilhar suas descobertas com outras pessoas. E, partir daí, é possível se divertir fazendo algo interessante e também preencher a parte social. É, assim, que se produz o efeito social do Linux, que leva uma porção de hackers a trabalhar juntos só porque gostam do que fazem. (TORVALDS, 2001, p.16)

Bem, o que nos move a compartilhar conhecimento? Para mim, além do prazer de aprender, está o prazer de poder compartilhar isso… Vou contar dois casos: (1). Estava na minha casa, anos atrás, quando alguns alunos vieram me entrevistar sobre Horácio de Matos. É um artigo que fizemos por lá (na Wikipédia Lusófona), considerado 'destaque' por sua boa qualidade. Isto acontecia na minha cidade, imagine no resto do estado, onde Horácio realmente teve importância central para a história... tem preço uma satisfação como essa? (2). Sem outro uso para mim, coloquei no Commons114 a fotografia do Barão do Sincorá, que tinha no meu acervo.

Algum tempo depois um jovem historiador, formado na UNEB de Caetité, me ligou da cidade de Brumado, querendo saber como conseguira tal imagem. Revelei que a possuía, não apenas com a efígie e ele me contou que o historiador Ordálvio Guimarães, de Ituaçu, primo do Moraes Moreira, havia publicado um livro extenso sobre aquela cidade – e deixara uma página em branco com a legenda: 'espaço reservado para a fotografia do Barão do Sincorá'… Mandei-lhe a foto e Ordálvio, pouco antes de morrer, publicou um novo livro, dando destaque àquela imagem que lhe enviáramos e que tinha passado a vida a procurar, sem sucesso…(sic)” (Entrevistado 03 da Wiki-pt)115

Assim, depois de horas desprendidas no trabalho de desenvolver códigos, fazer traduções ou criar verbetes, os indivíduos movidos pelo espírito da cultura hacker distribuem livremente o fruto da sua criação para todos aqueles indivíduos que tenham interesse de testar, usar ou remixar, isto é, desenvolver e aperfeiçoar

114 Nesse momento, o entrevistado se refere ao projeto wikicomons.org para armazenamento de arquivos de imagem.

115 Entrevista concedida pelo Entrevistado 03 da Wikipédia Lusófona por e-mail. Bloco 03 - Pergunta 07. [out. 2015]. Entrevistador: Vicente Macedo de Aguiar. Mensagem recebida por: <[email protected]>. em: out. de 2015. A entrevista na íntegra encontra-se transcrita nos Anexos desta tese.

ainda mais o bem que foi criado. E isso é possível de se perceber não apenas entre os indivíduos que compõe hoje o projeto como também nos valores, na ética e na força dos princípios que mantém on-line até hoje a produção do desktop GNOME e dos próprios verbetes da Wikipédia Lusófona. Assim, por conta desse tipo de conduta não utilitária e colaborativa,

[...] em plena época em que o dinheiro é o motivo principal e levou a casos cada vez mais frequentes de sonegação de informações, é surpreendente que os hackers assumam (por exemplo) um projeto das proporções do Linux, no qual o dinheiro não é a força motriz, pelo contrário, as invenções são dadas livremente a terceiros (HIMANEM. 2001, p.54).

Para superar o caráter surpreendente desse fenômeno, faz-se necessário então compreender os fundamentos desse espírito e dessa ética que move a ação e os projetos desses indivíduos. Para isso, este trabalho parte do pressuposto de que “é ainda uma noção complexa a que inspira todos os atos econômicos que descrevemos; e essa noção não é nem a da prestação puramente livre e gratuita, nem a da produção e da troca puramente interessadas, do útil. É uma espécie de híbrido” (Mauss, 1950: 184).

7 DÁDIVA E O HACKERISMO COMO UMA AÇÃO HUMANA PARADOXAL

Mesmo com essa noção inicial sobre a força de uma ética e cultura hacker que também se manifesta por meio da cultura wiki, uma questão central se torna muito recorrente ao se deparar com a intrigante e eficiente dinâmica organizacional empreendida pelos wikipedistas e hackers nessas comunidades on-line: “por que eles compartilham? ” Ou então, utilizando o questionamento elaborado por Bill Gates na sua já mencionada carta, Open letter to hobbyists: “quem pode se permitir fazer um trabalho profissional a troco de nada? ”

No entanto, mais recorrente do que esse tipo de pergunta é o tipo de resposta comum (e muitas vezes apressada) que se oferece hoje para o entendimento sobre esse fenômeno social. Em outras palavras, pode-se dizer que, no âmbito do atual postulado utilitarista dominante nas ciências humanas aplicadas, o engajamento voluntário de pessoas num processo de produção – a exemplo do que é desenvolvido no universo das comunidades on-line de software livre – partiria de três premissas da satisfação individual de desejos (utilidade) do indivíduo, a exemplo do que sugerem McKenzie e Lee (2006). Em primeiro lugar, que o indivíduo tem uma preferência e pode identificar, dentro de limites, o que deseja. Assim, na segunda premissa, o indivíduo é capaz de ordenar seus desejos consistentemente, do maior ao menos preferido. E, por fim, o indivíduo escolherá dentre essas preferências a que maximizará sua satisfação.

A partir de tais postulados, de fato, como demonstrou Godbout (2002) no seu artigo Homo donator versus Homo oeconomicus, é um grande desafio para um indivíduo moderno conseguir compreender a natureza de um sistema de trabalho e produção de bens e serviços como ocorre na Wikipédia ou no GNOME, já que todo esforço nessa direção implica a exposição dos limites inerentes ao postulado utilitarista dominante. Como já exposto na introdução desta tese, um outro bom exemplo dessa dificuldade de entendimento ocorreu numa entrevista realizada pelo apresentador Jô Soares, num programa de televisão de audiência nacional, no Brasil. Ao ser informado sobre esse engajamento voluntário dos hackers por meio de um professor universitário que colabora com algumas comunidades de software livre, o apresentador logo afirmou: “não adianta vir com esse papo que 'é de graça', 'é de

graça', 'é de graça'.... porque há uma intenção anterior de vender isso!”116

Dessa forma, segundo as análises de Benkler (2002 e 2011), os resultados, a eficiência e a grande capacidade de inovações, incorporadas ao processo de produção tecnológica pela experiência organizacional dos indivíduos associados a cultura hacker, colocam alguns enigmas não apenas para o indivíduo moderno, como também para as teorias clássicas nas ciências sociais aplicadas, a exemplo da Teoria da Firma. Como pode ser observado pelo exemplo desse tipo de produção por pares

[...] projetos de software livre não dependem de mercados nem de gestões hierárquicas para organizar sua produção. Programadores não participam de um projeto porque alguém que é seu chefe disse que era para ser feito. [...] A maioria dos processos de participação nos projetos não pode ser então explicada pela presença direta de um comando, de preço, ou de qualquer retorno monetário (BENKLER, 2002, p. 373, tradução nossa)117.

Apesar dos exemplos muito ocasionais de abusos (que comunidade é geralmente rápida para detectar e corrigir), a Wikipédia ainda oferece um extraordinário exemplo de sistema que se rege principalmente através da conversação e normas autorreguladas em vez dos mecanismos de mercado ou de uma estrutura formal e autoritária de gestão” (BENKLER, 2011, p. 154, tradução nossa).

De forma contrária ao que descrevem autores como Ronald Coase em A Natureza da Firma, ao longo desse processo de produção, mediado pelo

computador, emerge uma dinâmica de trabalho informal entre pares, de forma espontânea e “autoevolutiva”, mais elaborada e eficiente que qualquer planejamento central e hierárquico poderia alcançar. Além disso, como se pôde perceber pelos exemplos do Projeto GNOME e da Wikipédia Lusófona, Eric Raymond (1999) lembra que os adeptos da cultura hacker são estimulados pelos interesses de poder e de reconhecimento individual, numa comunidade de pares onde suas paixões são simplesmente compartilhadas. Partindo dessa perspectiva, é

[...] a ‘função empreendedora’ que os hackers do Linux (por exemplo) estão maximizando não é economia clássica, mas é a intangível satisfação do seu próprio ego e reputação entre outros hackers - Alguém pode chamar a sua motivação de 'altruísta', mas isso ignora o fato que altruísmo é, em si mesmo, uma forma de satisfação do ego para um altruísta. (RAYMOND, 116 Essa entrevista foi realizada por Jô Soares em 06 de outubro de 2006. Para assistir o momento exato da entrevista em que o entrevistador faz essa afirmação, acesse o link http://youtu.be/GyM0tY3yHVQ

117 “Despite the very occasional instance of abuse (wich the community is generally quick to detect and strike down) Wikipedia still offers an extraordinary example of a system that governs itself primarily through conversation and self-regulating norms rather than by market mechanisms or a formal and authoritarian management structure."

2004, p.10)

Em outras palavras, essa relação paradoxal de “altruísmo” e “satisfação do ego” como uma forma de retorno do trabalho empreendido nesses projetos comunitários – como a do projeto GNOME ou da Wikipédia – não flui, portanto, segundo os parâmetros econômicos do mercado ou de qualquer instituição tradicionalmente formal. Por outro lado, Benkler (2002), Himanem (2001), Castells (2003), Howe (2006) e Raymond (1999) relatam que a dinâmica de trabalho empreendida pelos indivíduos que se afirmam como hackers ou wikipedistas, estando desvinculada de instituições compensatórias, requer uma forma única de vínculo social e adesão a um conjunto de valores diferentes que articulam, ao mesmo tempo, a reputação e o prestígio entre os pares com o prazer e a alegria do ato de criar.

Dentre esses valores, segundo Stallman (2002), Castells (2003), Silveira (2005), Aguiar (2007), a liberdade (de ter acesso, de usar, de contribuir e redistribuir todo o conhecimento possível) é a força maior e o valor supremo desses indivíduos – apesar de não ser o único. Essa liberdade parece se traduzir em um jogo de reputações e troca entre pares, quando a lógica social passa a ser determinada não pelo retorno monetário ou pela acumulação de bens, mas sim pela informação, conhecimento ou código-fonte que é compartilhado. Em outras palavras, a dinâmica empreendida no seio dessa cultura hacker estaria, assim, associada a uma “regra de