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Algumas complexidades e controvérsias da tarefa

SOME SPECIFICITIES OF SONG TRANSLATION

4. Algumas complexidades e controvérsias da tarefa

Nesse contexto, torna-se notória a existência e o papel da tradução no movimento musical. Apesar dessa clara presença da tradução na vida cotidiana das sociedades e da escassez (não somente no Brasil, mas em âmbito mundial) de pesquisas sobre tradução de canções cantáveis dentro dos Estudos da Tradução (GORLÈE, 2005), é inegável a relevância de pesquisas que se dediquem à tradução da palavra cantada, não só pelo simples fato de que músicas são vertidas, mas principalmente por conta do papel de mediação cultural exercido pela tradução.

Esbarramos aí em um cenário significativamente diverso. Com canções cuja tradução é apresentada em sites na internet que publicam letras, cifras e áudio; canções traduzidas na forma de legenda para clips exibidos em canais de televisão; canções traduzidas para o

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português de musicais da Broadway; canções traduzidas para serem regravadas e até mesmo, canções traduzidas nas salas de aulas de inglês (ou outros idiomas).

Vistas dessa forma podem parecer algo simples. Entretanto, são várias as situações tanto quanto são diversos os produtos de tais traduções. No caso específico abordado, de canções traduzidas para serem cantadas, facilmente nos deparamos com traduções que revelam uma total ausência com o cuidado de sua cantabilidade e do respeito à prosódia - demanda de um trabalho que preza pelos elementos estéticos de uma letra de canção elevada à categoria de poesia, por exemplo. Em contrapartida, há trabalhos extraordinários de versão nos quais o tradutor (por vezes também músico, a exemplo de Tom Jobim, Gilberto Gil, Chico Buarque) acaba por recriar e transcriar o poema, transpondo aspectos estéticos imprescindíveis da relação entre letra e melodia, como defende Haroldo de Campos ao discutir a tradução da poesia e seus limites (CAMPOS, 1977).

Essas e outras amostras do tratamento que vem recebendo, revelam que a tradução de canção tem sido um campo negligenciado pelos Estudos da Tradução. Como sugere Gorlèe (2005), além da necessidade de uma rigorosa multidisciplinaridade, pesquisadores irão precisar de novas ferramentas e modelos que dêem conta de aspectos muito além das abordagens baseadas no texto. Após um período em que o tratamento do processo tradutório se deu basicamente no campo normativo, estudos recentes têm tentado lidar com uma série de questões.

Os estudos baseados em polissistemas (EVEN-ZOHAR, 1990), por exemplo, oferecem possibilidades de embasamento teórico para pensarmos nas questões plurissemióticas da tradução de canção, como faz Kaindl (2005) ao tratar de palavras, música, voz e imagem, argumentando que até mesmo o perfil artístico da personalidade de um cantor pode justificar escolhas feitas pelo versionista, e mais, que a tradução de uma dada canção pode vir a ser interpretada de modo a assumir um caráter bem distinto daquele da sua

performance original, como se deu com a canção romântica “Without you”, da cantora Mariah

Carey, interpretada pela banda de forró Calcinha Preta, na versão “Paulinha”.

Assim, seria possível partirmos do pressuposto de que a tradução de canção encontra- se enredada por uma série de restrições que se impõem como elementos determinantes das eventuais escolhas do tradutor, uma vez que essa categoria de tradução não diz respeito somente ao texto, mas a significados atrelados à melodia, ritmo, dinâmicas, harmonia, pausas, modos, articulações musicais e performance. Segundo Susan-Sarajeva (2008), poucos são aqueles que, embora possuam formação nos Estudos da Tradução, conseguem de fato lidar com tais significados.

Como já argumentamos, pesquisas em tradução de canção requerem, de um lado, conhecimentos multidisciplinares, e de outro, reconhecer que a emoção resiste à verbalização, o que amplifica o desafio da tradução (KAINDL, 2005). Tradicionalmente, a principal questão parece não ater-se a como traduzir uma canção ou por que fazê-la de uma dada maneira, reduzindo a discussão às perdas e às compensações, além das críticas comumente presentes. Contudo, pesquisas recentes passam a revelar inúmeras novas perspectivas a serem levadas em consideração ao traduzir canções, tais como: A versão que está sendo criada será cantável? Se cantável, será performatizada? Que artista irá executá-la? À que público se destina? Por que meio a canção vertida será veiculada (TV, DVD, shows ao vivo)? O arranjo da versão será o mesmo que acompanha a letra original? O público já conhece a canção original? Há questões mercadológicas envolvidas? Os detentores dos direitos autorais da canção impõem condições ao trabalho de tradução?

Para entender melhor a tarefa do tradutor de elaborar as letras de canções pré- existentes, a forma como o texto original está escrito deve primeiro ser completamente analisada. Na maioria significativa dos casos, na assim chamada música popular, a música é composta em primeiro lugar. Só depois que a estrutura musical foi criada é que o compositor

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compõe a melodia e coloca as palavras em harmonia com a música. A este respeito a tarefa do tradutor é semelhante a do compositor: eles devem elaborar um texto cantável que se encaixe no quadro musical, com a diferença de que a melodia já existe e o texto que vai ser escrito tem o seu modelo no idioma de origem. Isto significa que, desde o início, a letra original bem como a tradução, são subservientes à música.

Esta relação parece ser de uma importância fundamental no processo de tradução de canção. Para elaborar um texto cantável um tradutor é obrigado a seguir regras rígidas. As letras das canções são caracterizadas pela instantaneidade de percepção e, assim, o texto deve ser imediatamente compreensível. Isto implica o uso de uma sintaxe natural e evitando quaisquer palavras que poderiam ser mal interpretadas pelo público. Além disso, a distribuição adequada de vogais e consoantes é também desejada. Finalmente, a música também influencia o padrão de rima, uma vez que pode fortalecer ou enfraquecer o efeito da rima, alterando a distância de tempo entre os elementos de rima. Portanto, os tradutores devem cuidadosamente examinar o impacto que os elementos de rimas exercem sobre o texto e decidir como eles devem ser processados.

A principal dificuldade e dever do tradutor são se esforçar para perder o menor número de aspectos do texto fonte quanto possível. No que diz respeito à tradução de canção, um rigoroso quadro de limitações musicais devem ser considerados em conjunto com os impedimentos acima mencionados. Um tradutor tem de trabalhar dentro do quadro musical que, em muitos casos, é impróprio para a língua alvo. Isto leva à conclusão de que muitos elementos dos textos originais já foram perdidos e um tradutor tem de ganhar de volta muitos desses elementos, uma vez sendo isso possível. Quanto maior o número de elementos recuperados, mais fiel ao original torna-se o texto alvo. A partir dessa perspectiva, o processo de tradução de canção é baseado na reconstrução do original e envolve uma grande dose de inventividade.

Pode parecer, paradoxalmente, que o quadro de restrições, ou seja, principalmente a estrutura musical em que o texto de destino tem de ser montado, limita tradutores e, ao mesmo tempo, exige muita criatividade da sua parte. Esta capacidade inventiva faz com que o próprio ato de tradução de canção se faça possível. Sendo que as restrições não limitam, mas facilitam este tipo de tradução, uma vez que um tradutor tem mais liberdade em compor as camadas semânticas do texto alvo.

Tendo isso em mente, o processo de tradução torna-se uma questão discutível. Assumindo que o texto alvo é reconhecido como representante do texto de origem, muitas traduções podem ser definidas como adaptações. De acordo com Vinay e Darbelnet (1995), o termo adaptação pode ter uma aplicação mais ampla e pode ser considerado como um catalisador para as lacunas culturais na tradução. Mas, com tantas limitações no caso da tradução de canção como ela pode tornar-se funcional também no nível da forma, estilo, etc? Por isso, este estudo refere-se à tradução de canção, como um processo de recriação do texto de origem por meio da língua alvo que é "obrigado a ser adaptado" a fim de se conseguir produzir uma canção traduzida que faça sucesso na cultura de chegada. Pode ser facilmente notado, no entanto, que os textos traduzidos mostram diferentes graus de fidelidade ao original. Alguns deles são significativamente fiéis ao texto de destino no nível semântico, enquanto outros manifestam um grau notável de criatividade por parte do tradutor.

Considerando adaptação, deve referir-se claramente que o próprio termo é altamente vasto. O limite entre o que pode ser chamado de tradução e o que pode ser referido como adaptação não é claro. Para enfatizar a relação estreita entre tradução e adaptação de um novo termo, readaptação, tem sido cunhado (BASTIN, 1998). Além disso, as alterações no texto alvo podem ser aplicadas tanto a certa parte dele ou em todo o texto. Estas técnicas são referidas como adaptações locais e adaptações globais (BASTIN, 1998).

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Tomando essas controvérsias em consideração, pode-se afirmar que quanto mais o texto alvo é alterado em relação ao texto fonte, quer domesticado ou poetizado, mais aceitável a utilização do termo adaptação torna-se. Também é digno de nota que, tem de se lidar com as limitações impostas pela estrutura musical e, portanto, a necessidade de adaptar o texto alvo em diferentes níveis é consideravelmente urgente. O que resulta em um alto grau de adaptação para tornar os menores aspectos musicais em harmonia com a métrica sem desconsiderar o significado do texto.

Isto, mais uma vez, prova que não há regras fixas para a tradução de canção devido à impossibilidade de localizar a tradução de canção na escala entre seus aspectos literários e seus efeitos musicais. Ela dá ao tradutor muita liberdade, assim, a tradução de canção pode ser referida como tradução livre. Além disso, o tradutor pode concentrar-se na recriação de apenas alguns elementos escolhidos do original, por exemplo, apenas os aspectos musicais da letra. O que assegura uma reconhecível relação entre o texto de origem e o de destino, mesmo apenas no nível musical. Robinson (1998) se refere à esta pratica como estratégia de imitação.

Outras imprecisões e controvérsias na tradução de canção dizem respeito à preocupação com a equivalência. Equivalência é geralmente definida como uma ligação entre o texto de origem e o texto alvo que assegura o reconhecimento do texto alvo (ou suas partes) como uma tradução do original (ou suas partes). O conceito de equivalência parece complicado quando se refere à tradução literária, à tradução poética e especialmente quanto à tradução de letras de canção por causa da necessidade de transmitir os vários aspectos significativos do texto de origem. Portanto, diferentes tipologias de equivalência podem ser úteis com referência à tradução de canção.

A mais segura definição de equivalência é fornecida por Kołakowski (2007), que a considera como a transposição do valor dos elementos envolvidos no processo de tradução. Sua interpretação pode ser aplicável a qualquer tipo de tradução literária, incluindo também a tradução de canção. A mais específica abordagem é proposta por Chesterman (1997). Ele discute a mesmice de imagem e conceituação, ou seja, "uma espécie de equivalência estilística-semântica". O que dá prioridade à entrega de conteúdo e estilo do original. Afirmando que a equivalência estilística-semântica garante um resultado comparável ao original.

Tal ponto de vista se sobrepõe com a noção de equivalência de Nida e Taber (1969). Ambos têm como objetivo a "inteligibilidade da tradução... medida em termos do impacto total da mensagem sobre aquele que a recebe "(Nida e Taber, 1969). A tarefa dos tradutores é, então, a de capturar o espírito do original e transmitir a intenção do autor como consequência das suas ações.

A principal falha da equivalência é sua imprecisão. Sendo que se baseia na recriação do efeito do texto e seu impacto sobre o receptor, ou seja, a experiência estética e emocional evocada pelo original na cultura do público fonte. Os valores culturais do público de origem para com o original e os valores culturais do público alvo à sua tradução não podem ser medidos ou explorados de qualquer maneira e assim, são impossíveis de serem escalados.

Quanto à tradução de canção, a principal diferença entre a visão dos tradutores sobre termos equivalentes, no que diz respeito à abordagem da equivalência semântica-estilística, está no transporte de estilo e conteúdo da canção original e da semelhança que foi seguida de fato no decorrer do processo tradutório. A noção de equivalência destaca o fato de que o resgate adequado do conteúdo e estilo do texto-fonte é muitas vezes impossível, por causa das numerosas limitações presentes neste sistema. Portanto, a ênfase é colocada na semelhança do impacto sobre o ouvinte alcançado por uma interpretação mais livre dos elementos do texto de origem, isto é, do seu conteúdo.

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Apresentado desta forma, a tradução de canção é vista sob uma luz diferente. Combinando os fatores estritamente textuais com os extratextuais como consequência da junção entre texto e música com a arte performática. Trata-se de uma grande quantidade de criatividade, mas também traz o risco de má interpretação. Uma questão diferente é a autonomia do texto alvo. Por exemplo, no caso de tradução de poesia, a tarefa do tradutor é produzir um texto que irá ser aceito como um poema na cultura alvo (RAFFEL, 1988). Do ponto de vista dos leitores, há duas situações possíveis em que eles reagem à uma tradução:ou eles não estão familiarizados com o original ou algumas partes do original não são compreensível para eles. A segunda sugere que os leitores têm, até certo ponto, uma série de expectativas evocadas pelo original quanto à tradução. No que se refere à tradução de canção, a tarefa do tradutor é elaborar um texto que vá operar como uma canção na língua alvo. Isto implica que os ouvintes não só podem sentir-se parcialmente familiarizados com a letra original, mas que eles sabem a música ou, em alguns casos, até mesmo o vídeo clipe. Deste modo, pelos ouvintes também pode ser evocado expectativas pelas formas de arte visuais e acústicas. Quer dizer que, a tradução de canção é mais contida do que qualquer outro tipo de literatura atendendo ou não às expectativas dos ouvintes podendo assim determinar a popularidade da tradução.

A última questão levantada neste trabalho diz respeito à inaplicabilidade das teorias de tradução. É impossível encontrar suporte total para a interpretação dos aspectos literários e todas as limitações incomuns próprias da tradução de canção em qualquer teoria da tradução existente. Tal situação ocorre principalmente por causa das restrições impostas pela música que não são encontradas em qualquer outro tipo de tradução, exceto para tradução vocal. As teorias que dizem respeito à tradução literária são apenas parcialmente relevantes para traduzir canções cantáveis, uma vez que nenhuma delas considera os fatores musicais envolvidos.