ALGUMAS CONSIDERAÇÕES

No documento O diário de bordo como instrumento de reflexão crítica da prática do professor (páginas 81-84)

2. ESCRITA DE PROFESSORES

2.3 ALGUMAS CONSIDERAÇÕES

Ao nos determos de forma mais aprofundada nos estudos aqui apresentados em relação ao diário de bordo, levantamos alguns pontos que julgamos válidos para a compreensão desse instrumento e para sua configuração como importante suporte para o estabelecimento de uma reflexão crítica por parte dos professores. Não se trata de afirmativas prontas e acabadas, mas de pontos relevantes destacados nas pesquisas que nos propusemos a analisar e que não se excluem mutuamente, muito pelo contrário, são complementares no sentido de favorecer a análise deste instrumento que é o diário.

Em primeiro lugar, consideramos que, para o professor, a possibilidade de registrar suas práticas, por meio de um diário de bordo, é mais que a possibilidade de deixar suas memórias da aula, da escola, dos alunos registradas; é a possibilidade de analisar, organizar, avaliar e reavaliar suas práticas. Por se tratar de um processo de construção bastante pessoal, é o professor quem seleciona o que vai ser escrito, para isso organiza suas ideias de forma a registrar aquilo que considerou mais relevante de ser anotado, em um processo que envolve escrever, ler, reestruturar o texto, acrescentar ou retirar passagens, reler. Nesse movimento, o docente vai se apropriando do seu fazer, tornando-o mais claro e próximo para si mesmo. À medida que se instaura essa possibilidade de reflexão crítica sobre o que se está realizando, instaura-se também uma dimensão de avaliação/reavaliação do realizado. O como, o porquê, a forma daquilo que o professor escolhe ao dar sua aula, ao realizar uma avaliação, ao resolver um conflito interpessoal entre alunos, ao conduzir uma reunião de pais, pode ir se clarificando para o professor, ajudando-o a estabelecer o que se efetivou de maneira mais produtiva em termos de aprendizagem, de resolução de conflitos, de proposta de trabalho, de interação com os pais. Esse pode ser um processo que resulta em esclarecimento para o professor das teorias que fundamentam o seu trabalho.

Apontamos também que a escrita do diário mostra-se como um processo cíclico, praxiológico, em que a oportunidade de escrever e refletir gera um movimento de ação-reflexão-ação. Esse

movimento permite ao professor escrever sobre suas ações pedagógicas, sobre suas impressões, dilemas, fracassos e sucessos e, concomitante e/ou posteriormente à escrita, refletir a partir da mesma. Esse movimento permite também uma ação baseada na reflexão, consubstanciada nas impressões e considerações feitas tendo como base os registros escritos.

Compreendemos que esse “ciclo” ou essa “espiral” – conforme imagem utilizada por Kurt

Lewin (apud DINIZ-PEREIRA, 2002) – permite ainda o estabelecimento de uma práxis pedagógica, lugar de diálogo entre a teoria e a prática.

Indicamos ainda que os registros dos diários mostram-se como reveladores dos processos que estão sendo vivenciados, permitindo a percepção das dificuldades, dos acertos, das descobertas. Como dito anteriormente, a escrita do diário de bordo pelo professor pode favorecer o desvelamento de suas práticas, tornando-as mais clara para ele. Por meio da sua escrita e da leitura e releitura da mesma, pode o professor se auto proporcionar retornos em relação à sua atuação docente e, dessa forma, compreender os processos pertinentes à mesma. Compreender esses processos significa que o professor vai se apropriando do seu fazer, interpretando-o, detectando os pontos que são considerados como permanentes e aqueles passíveis de mudança.

As condições para que a escrita do diário se concretize é outro fator preponderante quando se trata de formalizar a proposta de escrita dos diários. Nas experiências de formação, muitas vezes esta escrita está relacionada ao cumprimento das exigências dos cursos e, por pertencer às dinâmicas de formação e/ou avaliação, são aceitos pelos docentes com certa tranquilidade. Já nas experiências de escrita de professores propostas em seus ambientes de trabalho, a exigência da escrita como atividade regular passa por dimensões bem mais complexas. Em primeiro lugar, em muitas situações, a proposta de se escrever um diário de bordo pode ser vista como mais uma tarefa imposta aos professores que já têm no seu cotidiano de trabalho inúmeras tarefas extra sala de aula. Escrever seria, então, mais uma sobrecarga à já saturada rotina do professor. Outro aspecto está relacionado ao tempo de dedicação para essa escrita. Os diários de bordo são escritas reflexivas que dizem respeito ao cotidiano profissional do professor e tem como objetivo final seu desenvolvimento profissional e a transformação de suas práticas – relembrando todos os aspectos já discutidos da educação como prática social e seu objetivo de emancipação de todos os seus atores. Sendo assim, escrever um diário de bordo com vistas a refletir sobre suas práticas, repensá-las e se preciso for transformá-las, está diretamente ligado ao trabalho do professor e, como hora de trabalho, deveria ser remunerado.

Um último aspecto é relativo a institucionalização dos diários de bordo como prática dos professores, ou seja, a obrigatoriedade da escrita dos professores imposta pelas escolas. Se por um lado os estudos aqui discutidos nos mostram que o hábito de escrever auxilia os professores a refletir sobre suas práticas e que esse hábito favorece uma reflexão cada vez mais crítica, por outro lado, os mesmos estudos nos remetem a possibilidade da escrita dos diários estar marcada pelos seus possíveis interlocutores, o que incorreria no risco de não se configurar como autêntica e espontânea. Nesse aspecto, seriam os diários realmente instrumentos que permitiriam aos professores se apropriar de seu fazer e gerar emancipação ou seriam eles instrumentos de maior controle de seu trabalho por agentes externos?

E, por fim, a escrita do diário de bordo pelos professores tem se mostrado realmente como uma oportunidade de desenvolvimento profissional. Durante todo este capítulo, desenvolvemos uma reflexão a partir da ideia do professor como produtor de conhecimentos e que compreende a prática docente como local de formulação de teorias sobre a docência. Todos os estudos aqui analisados caminham na direção das possíveis contribuições para o desenvolvimento profissional dos professores mediante a prática de registrar os acontecimentos pertinentes à sua ação. Como visto, os diários permitem ao professor uma aproximação com o exercício da sua docência, o estabelecimento de uma relação entre a teoria e a prática, um espaço de levantamento de dúvidas e de autocrítica. Desse modo, tendo como referência os estudos já realizados, os diários são relevantes no sentido em que contribuem para a configuração da autonomia dos professores, para sua capacidade de dialogar com seu fazer, de compreender sua prática como local de produção de saberes e assim favorecem o estabelecimento de uma prática pedagógica de qualidade.

No documento O diário de bordo como instrumento de reflexão crítica da prática do professor (páginas 81-84)