ALGUMAS CONSIDERAÇÕES SOBRE O SISTEMA DE SOBRENOMES LATINO

No documento Antroponímia e identidade cultural em Nova Milano, Farroupilha - RS (páginas 37-40)

Ficha 99 História, variação, classificação e etimologia do sobrenome Gaviraghi

2.6 ALGUMAS CONSIDERAÇÕES SOBRE O SISTEMA DE SOBRENOMES LATINO

Os sobrenomes, conforme proposto até aqui, em sua grande maioria, possuem sua origem em uma palavra que já existia, como um nome próprio, nome de uma profissão, de um local, um apelido, etc. Somente após ser consolidado o sistema de sobrenomes, é que foi escrito com letra maiúscula. Tartamella explica como pode ser estudada a “anatomia”, a estrutura dos sobrenomes:

Portanto um dos métodos mais diretos para compreender o significado do sobrenome é o de examinar os componentes desta palavra particular, fazendo uma espécie de “anatomia” do sobrenome. Deste modo, poderemos decifrar as inumeráveis mensagens que os sobrenomes podem esconder: desde a origem geográfica ao trabalho dos nossos avós. Descobriremos, dentre outros, que para “decifrar” estas mensagens, não é sempre necessário empreender difíceis pesquisas etimológicas: para alguns sobrenomes podem ser suficiente alguns pequenos indícios, também um par de letras do alfabeto. (TARTAMELLA, 1995, p. 61).

Assim, por tentarmos decifrar as mensagens e compreender o sentido dos sobrenomes pelo significado original das palavras, o mesmo autor apresenta uma possibilidade cômica de buscar essa significação: “E poderíamos também nos divertirmos em imaginar como poderia ser uma pessoa desconhecida (magra ou gorda, impetuosa ou gentil), simplesmente analisando

o som do sobrenome que leva”. (TARTAMELLA, 1995, p. 62). O estudioso também apresenta um quadro com as divisões da construção dos sobrenomes, cujas especificidades veremos a seguir:

Quadro 1 - Quadro derivado do esquema apresentado por Tartamella (1995, p. 61).

Som distintivos

–– Prefixos Anatomia do sobrenome –– Sufixos

–– Vogal final Forma –– Preposições, artigos Composições –– Sobrenomes compostos –– Sobrenomes duplos e triplos

Sobrenome Gramática do sobrenome Transformações e

anomalias

Significado Conteúdo

Como “soa” o sobrenome

Fonte: Adaptado pela autora (2016).

Analisaremos os principais tópicos desse esquema, com exemplos e uso nos sobrenomes italianos, nas subseções seguintes.

2.6.1 Os prefixos

Os prefixos são partes fundamentais do sobrenome e podem dar indícios importantes a respeito do seu significado. Tartamella considera que existem quatro prefixos típicos dos sobrenomes italianos:

A-: além das normais funções (preposições de lugar; negações, etc.), em alguns sobrenomes do Sul continental, e também sicilianos, tem função reforçativa, provocando também, a reduplicação da consoante inicial do sobrenome. É o caso de sobrenomes como Abbagnale, Abbene, Ammaturo, Appugliese.

In-: pode também ter função reforçativa, no Sul e sobretudo na Sicília (Ingrosso, Ingrassia,

Ingallina, Ingrande...).

Inter- ou intra-: na Sicília, tem função de patronímico (= filho de...) ou de coletivo

familiar (-pertencente à família dos...), dado que é sempre seguido por um nome pessoal masculino (Interguglielmi, Intersimone, Intermaggio, Intrabartolo).

S-: em vez da usual função privativa, tem função reforçativa, e, em alguns casos, também

pejorativa (Scalzolaro, Scarciofalo, Sgariboldi, Sbergamo, Scardinale...). Está difundido em alguns sobrenomes do Norte, do Centro e, sobretudo, do Sul. (TARTAMELLA, 1995, p. 64).

Esses prefixos também possuem a função de auxiliar no entendimento do significado dos sobrenomes. Visto que alguns dos sobrenomes não têm uma definição clara, esse conhecimento pode trazer benefícios para a análise.

2.6.2 A vogal final

Seguindo os estudos do Tartamella (1995), o autor afirma que praticamente todos os sobrenomes italianos terminam com uma vogal: “Os sobrenomes, como todas as palavras, terminam quase sempre com uma vogal (-a, -e, -i, -o, às vezes, também com -u). Esta variedade testemunha que um tempo também os sobrenomes – como os nomes ‘comuns’ – eram declinados em gênero (masculino e feminino) e número (singular e plural)” (TARTAMELLA, 1995, p. 64).

Com o tempo, o sobrenome passou a ser indeclinável a fim de preservar sua forma e favorecer a sua cristalização e transmissão. Nesse processo, segundo o pesquisador, ganhou predominância a vogal final -i: “Entre as vogais terminais dos sobrenomes, observa-se certa prevalência do -i. Por quê? Estes sobrenomes derivam de um ‘genitivo’, (isto é, exprimem o dizer ‘filho de...’) ou ainda uma forma plural (Rossi = pertencente à família dos Rossi)?” (TARTAMELLA, 1995, p. 64-65).

2.6.3 Os sufixos

Assim como os prefixos, os sufixos também são muito constantes e carregam grande carga de importância no sistema antroponímico italiano. De Felice aponta duzentos e quatro sufixos no sistema de sobrenomes italianos:

Os sufixos acrescidos aos nomes individuais ou aos nomes comuns para formar os apelidos ou os patronímicos foram, na origem, diminutivos, aumentativos, ou

diminutivo e afetivo), -accio (ex.: Portaccio, aumentativo), -acco (ex.: Bertacco, afetivo e pejorativo), -astro (ex.: Ogliastro, pejorativo), -one (ex.: Perone, aumentativo), etc. (TARTAMELLA, 1995, p. 65-66).

Ainda no que concerne aos sufixos, Tartamella indica diversas formas de identificar um sufixo através da procedência, profissão, nomes e apelidos. Vejamos a seguir:

Um sufixo pode estar difundido, sobretudo pelo seu liame com os dialetos, numa precisa região ou zona da Itália: por exemplo, -ace e aci são típicos do extremo Sul:

-ieri do Piemonte e Valle d’Aosta; -engo do Norte; -esco da Toscana e da Itália

central; -à, -ò do Trivêneto; -essa e –issa do Sul; -esso do Trivêneto; -it da Lombardia; -ia do extremo Sul; -igo do Vêneto; -oglia e –oia da Lombardia; -ullo e –uddo do Sul; -uro e –or do Vêneto; -oto do extremo Sul; -ot e –oto do Norte; -ut do Fríuli; -(a)z e –(o)z da Valle d’Aosta e Piemonte; -ugi da Toscana. (TARTAMELLA, 1995, p. 66).

Por intermédio dos sufixos, é possível depreender a localidade da qual o sobrenome foi derivado, como -ago (ex: Cambiago) e -asco (ex: Bagnasco), bem como as profissões de que se originam, como no caso dos sufixos -adro e -aio, que remontam, respectivamente, a advogado e pecoraio, ‘pastor de ovelhas’. Ainda a respeito dos sufixos, os originários de qualidade e condição podem exprimir “a derivação de uma forma verbal no particípio, imperativo” (TARTAMELLA, 1995, p. 67). Alguns exemplos são: -ato (ex: Amato), -ito, -uto (ex: Caputo), dentre outros.

2.6.4 Composições, preposições e artigos

Alguns sobrenomes são frutos da junção entre mais palavras, não somente de sufixos ou prefixos. Dentre elas, possuem papel relevante as preposições e os artigos. No sistema antroponímico italiano, segundo Tartamella, algumas preposições e artigos de destaque são Di, De, Dello, Dei, Degli, Dè, Della, e Lo, Li, La, Le. O autor considera que “as preposições simples ou articuladas podem ter a função de patronímicos ou matronímicos (Di, De significam, portanto, ‘filho, descendente de...’) ou, ainda, toponímica (Di, De, Da significam ‘proveniente de..., originário de...’)”. (TARTAMELLA, 1995, p. 67).

No documento Antroponímia e identidade cultural em Nova Milano, Farroupilha - RS (páginas 37-40)