Algumas considerações sobre os conceitos de cidade, campo e urbano

No documento Diagnóstico sobre a institucionalização e o grau de efetividade do planejamento em municípios históricos: Diamantina e Tiradentes (páginas 70-76)

B- Descentralização e Desconcentração Administrativa em

2 A PROBLEMÁTICA DO PATRIMÔNIO : AVANÇOS E RETROCESSOS

3.1 Algumas considerações sobre os conceitos de cidade, campo e urbano

Primeiramente, no contexto de cidade, convém evidenciar uma observação fundamental de Hissa (2006, p.88) em que “a cidade é interrogada por vários outros olhares”. Existe uma série de publicações sobre a concepção de cidade, afinal, o espaço urbano é, por natureza, “uma categoria transdisciplinar”. Existe uma multiplicidade de esforços teóricos, em diferentes áreas do conhecimento, que tentam fornecer especificidade “ao espaço com o qual trabalham”. Este trabalho procurou evidenciar o conceito de cidade focando nas concepções de teóricos arquitetos-urbanistas.

Através das análises de Souza (2005, p.25) sobre a evolução histórica do significado de cidade, pretende-se ressaltar algumas considerações pontuais apresentadas. Ainda em 1921, o sociólogo Max Weber definiu cidade como um “local de mercado”, porém lembrava que nem todo o mercado era cidade. Após uma década, o termo cidade recebeu o conceito de “localidade central”, em que poderia haver maior ou menor centralidade proporcionalmente à quantidade de bens e serviços que ela ofertasse e que, consequentemente, atraísse compradores de diversas regiões e até mesmo de diferentes países.

Sobre o conceito de cidade, Souza (2005) e Rolnik (2004), apesar de apresentarem abordagens diferenciadas – o que pode ser explicado pela própria especialização de cada um – destacam dois elementos, desvinculados do tempo e do espaço, consensuais às áreas de análise geográfica, sociológica e urbanística. O primeiro se refere ao significado de cidade como um lugar voltado para a organização da vida social. Em relação a este aspecto, Rolnik (2004, p. 13) caracteriza a cidade como um “ímã” que atrai as pessoas para seu interior, mesmo antes de se tornar local permanente de trabalho e moradia. A fim de exemplificar, cita os antigos templos gregos como símbolo das “cidades dos deuses”. Segundo Souza (2005), as cidades são “assentamentos humanos” extremamente diversificados, no que se refere às atividades econômicas produzidas e às relações sociais estabelecidas, fato que colabora para a formação de diferentes grupos sociais. A formação desses grupos se evidencia espacialmente46. Ou seja, a cidade representa um espaço de convívio, onde as pessoas se

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Souza em seu livro “Mudar a cidade” (2006, p.52), sintetiza bem essa parte ao se referir à cidade como um espaço social em que inserem as relações sociais “produtoras do espaço” e cuja “espacialidade

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organizam e interagem com base em interesses e valores os mais diversos, formando grupos que irão se definir espacialmente.

Em conformidade com a idéia de que a cidade é o espaço do encontro e da consolidação das relações sociais, Hissa (2006, p.89) ressalta que “é o lugar fabricado para o encontro, para o entretenimento, para a troca. Assim, floresceram as cidades ao longo da história, fortalecendo significados”. Nesse espaço, os homens se encontram e se reconhecem. Contraditoriamente, nesse mesmo espaço, no lugar do encontro, do diálogo, da criação de identidades, existe também o “espaço do estranhamento”. Segundo Hissa (2006, p. 89) “o espaço do estranhamento” é aquele em que ocorre também a exclusão, a marginalidade e a frustração dos sonhos. Assim, “vida e morte se encontram na cidade da criação”. A cidade é, na verdade, um conjunto de contradições em que reúne a “complexidade da vida e a inevitabilidade da morte”.

O segundo elemento se refere ao conceito de cidade como o lugar em que se situa o poder político e administrativo responsável pela gestão de todo o espaço físico- territorial que o incorpora. Ao associar a cidade como um espaço político- administrativo, Rolnick (2004, p.19), lembra que “construir e morar em cidades implica necessariamente viver de forma coletiva”. Mesmo que as pessoas morem sozinhas, ainda sim, não estão desvinculadas da ação de um poder público que – bem ou mal – organiza e administra a gestão das cidades. Um bom exemplo dessa abrangência do domínio político em relação à vida de cada cidadão são os impostos. Como forma de aprofundar essa discussão sobre a dimensão política das cidades, Rolnick (2004, p.22) analisa os conceitos de polis e civitas. Do ponto de vista territorial, polis se divide em duas partes: “a acrópole, colina fortificada e centro religioso, e a cidade baixa, que se desenvolve em torno da ágora, grande local aberto de reunião”. Para a comunidade grega, o termo “polis não designava um lugar geográfico, mas uma prática política exercida pela comunidade de seus cidadãos”. Ou seja, a prática política era concebida como uma prática democrática.

Os romanos faziam esse mesmo raciocínio ao se referirem ao termo civitas, de forma que a cidade representava o lugar físico onde as práticas de cidadania ocorriam, ou seja, os cidadãos participavam das discussões abrangentes da vida pública.

condiciona, de maneiras variadas, as relações sociais”. A cidade é produto dos processos sócio-espaciais, que deve ser considerada não como algo que possa ser plenamente previsível e controlado, mas como um fenômeno gerado pela interação complexa entre os diferentes agentes atuantes e seus diversos interesses.

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Será que esses conceitos poderiam ser transpostos para as cidades brasileiras, independentemente de qualquer aspecto físico, populacional, geográfico ou até mesmo temporal? Ou melhor, no processo histórico de urbanização brasileira existiu a figura do cidadão – aquele que participa ativamente da vida política? Essas questões serão respondidas ao longo da dissertação.

De acordo com Souza (2005, p.29) é nas cidades que se encontra um centro de gestão do território caracterizado pela presença do poder religioso e político. No caso do Brasil, os “núcleos urbanos são as cidades e as vilas, sendo que as primeiras são sedes de municípios e as segundas são sedes de distritos (subdivisões administrativas dos municípios)”. Diferentemente do campo, a cidade é um espaço de produção não agrícola, de comércio e oferecimento de serviços. O solo urbano é voltado para a produção industrial (indústria de transformação e construção civil), atividades terciárias (comércio e serviço), habitação, circulação (ruas, avenidas, etc.) e lazer, através de seu acervo patrimonial histórico e cultural.

Uma cidade, para ser uma cidade, precisa, mais que possuir um dado número de habitantes x ou y, apresentar uma certa centralidade econômica (e adicionalmente, também política) e algumas características econômico-

espaciais que a distinguem de um simples núcleo formado por lavradores ou

pastores, agrupados, em um habitat rural concentrado, por questões históricas ligadas a tradições ou à segurança [...] (SOUZA, 2005, p.30).

Conforme observa Rolnik (2004, p.16-17) a cidade – além de ser um espaço onde ocorre a organização da vida social e se situa a sede do poder político e administrativo –, também representa um espaço de memória em que a própria arquitetura urbana, “composta pelo desenho das ruas e das casas, das praças e dos templos” cumpre este papel. Dessa forma, percebe-se a importância das cidades históricas – no nosso caso, os antigos núcleos coloniais mineiros – cujos “símbolos e significados do passado se interceptam com os do presente, construindo uma rede de significados móveis”. Neste contexto, à medida que se toma consciência dessa dimensão e da importância das cidades históricas, fala-se, então, na preservação da memória coletiva, entendida não só como a não demolição e conservação das antigas construções, mas também através da valorização da cultura da população tradicional que vive e interage nesse espaço.

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Como uma forma abrangente de caracterizar a cidade, Monte-Mór (2005) a define como um “espaço precípuo do poder, da festa cultural, das trocas e concentração do excedente coletivo”. Logo, é responsável pela centralização da comunidade organizada na medida em que concentra “as instituições, as leis, os mecanismos de gestão, serviços religiosos, manifestações culturais, monumentos, trocas no mercado e serviços coletivos de apoio à vida quotidiana”. Assim, a cidade simboliza a materialização territorial da sociedade organizada em um espaço responsável pela centralização das questões sociais, políticas, religiosas, econômicas e culturais. Neste espaço multifuncional existe uma estrutura de poder, caracterizada pela classe dominante, que controla e regulamenta o uso, a ocupação da terra urbana, e a forma setorizada e fragmentada que os investimentos em serviços urbanos serão implementados.

Sobre os termos campo e cidade, Monte-Mór 47 (2005) ressalta que a relação dicotômica e complementar entre esses dois termos é histórica e faz parte da própria formação das sociedades humanas. Desde os tempos remotos até a formação das sociedades capitalistas industriais, existia a dominação da cidade sobre o campo como resultado da divisão entre trabalho intelectual e trabalho manual, em que ocorria o controle do mercado sobre as atividades de produção. O campo representou durante muitos anos o espaço que circunda a cidade e a complementa. Foi considerado como espaço destinado à produção agrícola cujo excedente era de domínio da cidade, espaço não-produtivo e privilegiado pelo poder político48. Neste contexto, os adjetivos rural e urbano, que se referiam respectivamente aos termos campo e a cidade, recentemente ganharam autonomia ao se referirem a um complexo campo de relações culturais, sócio- econômicas e espaciais capazes de se difundirem em um mesmo espaço físico- territorial. Por conseguinte, não existe mais uma fronteira separando o espaço rural do urbano, o que se refletirá no próprio enfraquecimento da hegemonia reincidente na formação histórica da cidade sobre o campo. Assim, ao consubstanciar esses dois termos cidade e campo, o município representa uma unidade urbano-rural.

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MONTE-MÓR, Roberto Luís. O que é o urbano, no mundo contemporâneo? Cadernos de Saúde

Pública. Rio de Janeiro, v.21, n.3, p.942-948, 2005.

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A esse respeito, Henri Lefebvre (1969; 1999, apud Monte-Mór, 2005) denominou “cidade política”, em que a cidade, a partir de seu controle político, garante a dominação sobre a produção no campo.

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Neste contexto, em que há o enfraquecimento da dicotomia entre campo e cidade em virtude de o processo de urbanização “se alastrar” sobre todo o território, Monte-Mór (2005) elabora o conceito “urbanização extensiva” para explicar que o urbano é uma síntese da antiga dicotomia cidade-campo, um terceiro elemento. O urbano é a manifestação material e sócio-espacial da sociedade urbano-industrial contemporânea estendida virtualmente por todo o espaço social. A cidade deixa de ser apenas o lugar onde o excedente do campo é consumido para se tornar parte integrante do sistema de produção e reprodução do espaço. Neste contexto, Harvey (1995) ressalta que a cidade contemporânea é um reflexo do processo de modernização dos meios de produção e de reprodução do espaço, que propiciam a superação de barreiras espaciais e vêm promovendo mudanças significativas em sua organização, na cultura e nos aspectos sócio-econômicos. A essa nova forma de organização espacial, através da transposição das barreiras físicas (encurtamento geográfico) e crescimento das redes virtuais, o autor chama de aldeia global, que caracteriza a proximidade das atividades humanas, a transmissão simultânea dos fatos ocorridos, e a facilidade de mobilidade e de realização de transações comerciais e financeiras.

Hissa (2006, p. 82-83) acrescenta que o “homem é produto da cidade” que representa um conjunto de culturas e de outras cidades. Esse conjunto de cidades se insere nos interstícios do urbano. Algumas vezes, o homem se põe diante da cidade, como se fosse um espelho, e não se reconhece. Reclama pela ausência de algo que não enxerga mais e que não se identifica. Contraditoriamente, o que o homem enxerga é ele próprio. Afinal, o homem é responsável pela produção e reprodução da cidade. Assim, a cidade é o homem e sua criação.

O homem se organiza para produzir e, assim fazendo, produz espaço e os reproduz: os urbanos, os ambientes, a cidade, os interiores urbanos. Entretanto, é a produção do homem que o transforma, o interroga(HISSA, 2006, p.88, grifo nosso).

Em relação ao fenômeno de segregação sócio-espacial, a terra urbana49 adquiriu valor de mercadoria em detrimento do valor de uso. A esse respeito, Souza

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Segundo Schvasberg (2003, p.53) a terra urbana pode ser caracterizada como um “fator primordial na produção e localização das atividades urbanas”, cujo controle e regulação é exercido de forma setorizada e diferenciada em relação aos investimentos de infra-estrutura. A essa forma diferenciada de investimento da terra urbana, a autora denomina de “padrão de crescimento urbano por setores”, que se caracteriza pela predominância de vazios urbanos localizados nos interstícios da área central com a periferia urbana, cujo

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(2005, p. 30), ao ressaltar a cidade como um somatório de elementos que concentra as diferentes atividades e grupos sociais distribuídos espacialmente, lembra que a renda é um fator primordial. Acrescenta ainda que a “sofisticação dos bens e serviços ofertados” no espaço urbano é diretamente proporcional à renda da população residente. Dessa forma, o espaço urbano é segregado por razões econômicas e sociais, e a densidade demográfica pouco explica essas características, em matéria de sofisticação, diversificação e centralidade dos bens e serviços.

Souza (2005, p. 68) acrescenta que quase sempre existiram grupos sociais com pouco poder aquisitivo e que, muitas vezes, foram obrigados a viver em espaços insalubres e afastados dos núcleos urbanos. Esse grupo foi “excluído” dos espaços com infra-estrutura adequada, reservados para os grupos dominantes da sociedade. Sobre o termo “exclusão”, pode-se correr o sério risco de dizer que os pobres são excluídos do sistema capitalista. Souza (2005, p.69) enfatiza que “a maioria dos pobres está integrada, sim, econômica e política e culturalmente, no sistema [...]”. E é por isso que ele funciona. Assim, a desigualdade sócio-espacial é importante para a produção do sistema capitalista.

Em conformidade, como reflexo da própria diferenciação de investimentos públicos fragmentados no espaço urbano, Schvasberg (2003, p.53) acrescenta que a tendência é o deslocamento “da massa trabalhadora de baixa renda para porções periféricas nas estruturas urbanas brasileiras”. Esse processo de periferização por parte da massa trabalhadora, que não tem condições financeiras de se manter em áreas com infra-estrutura adequada devido à elevação do preço do solo, acarreta a apropriação de glebas desprovidas de parcelamento e distantes do “emprego, do comércio, dos serviços de saúde e educação, acarretando dificuldades na oferta de serviços urbanos”. Em suma, pode-se dizer que a segregação sócio-espacial é um reflexo do processo de distribuição desigual de serviços urbanos em porções territoriais que provocam a elevação do preço da terra urbana e, consequentemente, o deslocamento da população de baixa renda para regiões periféricas, com condições insalubres de moradia.

objetivo principal é impulsionar o processo de urbanização, de uma forma dispersa, com a inserção de serviços urbanos. Consequentemente ocorre a valorização da terra urbana, nesses locais que recebem investimento pontuais, de acordo com os interesses de uma classe dominante no poder.

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3.2 Reflexo do capitalismo industrial no processo de urbanização: introdução

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