4 AS SALAS DE AULA DE ROSE E ANA

4.1 Escola Municipal Elvira Barros

4.1.3 Os alunos da turma B

Os alunos da turma B, na época da coleta de dados, tinham entre 12 e 13 anos. Por meio da análise dos questionários (modelo no anexo 6) aplicados pela pesquisadora e respondidos em sala pelos alunos, podemos caracterizar esses estudantes como sendo de classe média e classe média baixa.

Na 1ª parte, perguntamos sobre a profissão dos pais, bairro onde moram e se fazem algum curso extracurricular. Vinte e oito alunos responderam ao questionário, mas alguns deixaram questões em branco. Dos 18 alunos que responderam sobre a profissão do pai encontramos: quatro vendedores, dois motoristas (um de ônibus e um de caminhão), um porteiro, um aposentado, um funcionário público, um comerciante, um operador de máquina, um estofador, um técnico em automação comercial, um mecânico, um corretor, um guarda municipal, um serralheiro e um engenheiro. Sobre a profissão da mãe, 23 alunos responderam. Seis são donas de casa, três são domésticas,

duas são vendedoras, uma cozinheira, uma bibliotecária, uma manicure, uma aposentada, uma secretária, uma autônoma, uma professora de aula particular, uma recepcionista, uma trabalha com informática, uma é empresária e outra é dona de loja. Dos 28 alunos que responderam ao questionário, 10 moram no bairro da escola e os outros 18 moram em bairros vizinhos. Nove alunos fazem cursos extracurriculares. Os cursos citados foram de futebol, de vôlei, de ginástica, de inglês e de computação.

Na 2ª parte, perguntamos sobre a escola: onde estudaram nos anos anteriores, como avaliam a escola em que estão estudando, se gostam da escola, o que mais gostam na escola e o que mais gostam na sala de aula. A maioria dos alunos fez o 2º ciclo nessa mesma escola. Dos que estudaram em outras escolas todas são públicas e também ficam na região. Dezessete alunos avaliam a escola como sendo boa, seis acham a escola muito boa, dois acham ruim, dois acham a escola péssima e um acha a escola ótima. Dezenove gostam de estudar nessa escola e as principais razões são: porque tem amigos, porque é divertido, é perto de casa, porque acham o ensino bom. Nove não gostavam da escola porque não gostavam dos professores, porque há muita bagunça, por terem dificuldade em aprender e porque a escola é pequena. Onze alunos gostavam mais, na escola, das aulas de educação física, dez de fazerem amigos, 3 gostavam do ensino e 2 dos professores. Do que mais gostavam na sala eram dos amigos (14), das conversas (4), dos professores (2) e das aulas de português (1).

Na 3ª parte, perguntamos sobre ciências. Quatorze alunos gostam da disciplina e 12 não gostam. Para metade da turma, a ciência escolar é fácil, doze acham difícil. Quase todos (24 alunos) acham a disciplina importante por diversas razões, como entender o mundo em que vivemos, para podermos proteger o planeta, para auxiliar no dia-a-dia, para conseguir um emprego e uma aluna disse que para ela é importante porque ela quer ser cientista. Entre as aulas de que eles mais gostaram, as aulas sobre o terrário foram as mais citadas, sendo a preferida de 13 alunos. A maioria dos alunos disse que participam das aulas de ciências fazendo os exercícios propostos pela professora, perguntando ou fazendo algum comentário.

Alguns alunos se destacaram em nossas observações. O aluno Charles, que inicia o evento citado no quadro 6.4 (p.106) foi um aluno com grande participação nas primeiras aulas, fazendo perguntas e sempre interessado pelos conhecimentos científicos. Todavia, sua participação escrita era pequena. A professora chamou a atenção desse aluno algumas vezes para que ele melhorasse os registros no caderno. Além disso, ele parecia querer respostas mais objetivas sobre os fenômenos da ciência e

a professora procurava falar de aspectos mais gerais dos quais a ciência faz parte. Parecia haver um desencontro entre os dois. Assim, ao longo do semestre, o aluno também foi deixando de participar oralmente. Em uma entrevista, a professora Rose fez um comentário sobre esse fato:

Tem uns alunos ali que estão escorregando o tempo todo, tem uns que são mais interessados. O que eu achei que era o supra-sumo me deixou decepcionada!

Pesquisadora: Quem?

Rose: O Charles. Achei que ele ia ser ótimo. Pesquisadora: Ele sumiu na aula, não é?

Rose: É mais eu acho que eu fiquei pontuando ele demais, eu disse para ele:

“você fala demais e escreve pouco”. E na hora de fazer as coisas eu pensei que ele ia estar com tudo pontuado. Eu falei com ele: “você tem que registrar. As palavras voam ou vento”, mas normal, não é?

Outros dois alunos se destacaram em minha observação por estarem quase sempre sem interesse nas aulas da professora, o Leandro e o Guilherme. A professora também citou esses dois alunos em uma de nossas entrevistas, mas ela também ainda estava tentando conhecê-los para entender o motivo do desinteresse e da indisciplina dos dois:

Rose: Leandro e Guilherme. Sinto que os, de forma mais exagerada, ao

chamarem atenção, estão pedindo ajuda por algum viés.

Pesquisadora: Seria um perfil diferenciado da turma?

Rose: Diferenciado da turma, acho que eles estão me chamando mais a

atenção pelo lado da indisciplina. Eles querem roubar a cena. Como se a sala de aula fosse um teatro, espetáculo (risos). Eles querem roubar a cena sim. Então, eu estou assim, como se diz, eu estou estudando os dois, o que eu vou fazer, como eu vou abordá-los. Eu quero saber o que está acontecendo, estou querendo entender qual que é a deles.

Em geral, nessa turma, os meninos afetavam mais o andamento das aulas, com conversas paralelas, brincadeiras fora de hora e deixando algumas atividades sem fazer. As meninas eram normalmente mais quietas e quase sempre cumpriam com pontualidade as atividades propostas. A aluna Celina participava bastante das aulas fazendo perguntas para a professora, mas quase sempre eram perguntas mais gerais, ou seja, fora do conteúdo de ciências, como aconteceu no evento registrado no quadro de análise 6.1, no qual ela pergunta a professora o que significa a palavra “ética”.

No documento Diferenças na sala de aula de ciências: conhecendo as práticas de professoras do ensino fundamental (páginas 49-51)