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4. A NATUREZA NO IDEÁRIO ECOLÓGICO DE FORMAÇÃO DE

4.1. Vertente Ambientalista e Ideário Ecológico

4.1.1. Ambientalismo, Ecologismo e Comunitarismo

Distinta do conceito de Ecologia, a palavra Ambiente indica o “lugar”, sendo composta de dois vocábulos latinos: ambi (ao redor de) e ire (ir). Ambire quer dizer ir à volta. Assim, ambiente quer dizer “é tudo o que vai à volta”, o que rodeia, o lugar, o recinto que envolve seres vivos ou as coisas.

O ambientalismo tem sua gênese em autores do século XIX, também nos Estados Unidos. As obras de Henry Thoreau142 se tornaram uma das influências mais permanentes do movimento ambientalista e da preservação ecológica. Foi um precursor de movimentos libertários, defensor de uma vida simples, autossuficiente e em harmonia com a natureza. Thoreau foi um rigoroso crítico do modelo de desenvolvimento consumista e degradador do meio ambiente. Embora acreditasse no primado do conhecimento e da ação individual, tinha plena consciência dos problemas econômicos, sociais e ambientais da acumulação capitalista que afloravam no mundo. Thoreau opunha uma resistência pacífica às leis de um Estado belicista, escravista, que perseguia os povos indígenas e não respeitava a natureza. A ideia da desobediência civil atravessou as fronteiras geográficas e temporais e se transformou em uma referência da luta contra a opressão, a exploração, a injustiça e a discriminação (THOREAU, 1997).

Como ideologia política, o ecologismo143 surgiu com base na posição de que o mundo não-humano (vegetais e animais) era digno de respeito moral e que deveria ser considerado nos sistemas sociais, econômicos e políticos. Teve sua origem no movimento contracultural da década de 1960, sendo reconhecido enquanto filosofia que contribuiu com o desenvolvimento da política ambiental, ao questionar sobre o esgotamento dos recursos naturais e o futuro da

142 Henry David Thoreau (1817-1862) foi americano, naturalista, ativista, historiador e filósofo. Em sua obra

A Desobediência Civil, de 1849, influenciou o pensamento político e ações do escritor, filósofos e ativistas

como Liev Tolstói (1828-1910), Mohandas Karamchand Gandhi (1869-1948), e Martin Luther King, Jr. (1929- 1968). Na academia, Hannah Arendt e John Rawl.

143 Ecologismo é uma ideologia política que surge a partir do questionamento sobre o esgotamento dos recursos

vida no planeta. Pressupôs um olhar ecocêntrico, em que a Ecologia ficaria no centro ou eixo norteador para se pensar as políticas públicas.

Brian Baxter144 (2000) examinou as facetas metafísicas, morais, políticas e econômicas do ecologismo, colocando os temas centrais da teoria política contemporânea em contato com a teoria política verde. Comparou o ecologismo com ideologias como: o utilitarismo, o liberalismo rawlsiano145, o libertarianismo, o marxismo e o feminismo. Assim, contribuiu para a ética ambiental, a filosofia política e a justiça ecológica146, com novas ideias e soluções para a problemática relação entre a sociedade e a natureza.

De acordo com Baxter (2000), no período pós-guerra, os efeitos da globalização, da proliferação das megacidades e conurbações passaram a ser estudados de forma multidisciplinar. Em sua maioria, revelaram o movimento de constante mutação do capitalismo, prevalecendo os ideários hegemônicos que servem à acumulação do capital, o que acentua, sobretudo, os conflitos entre as questões sociais e ambientais.

O próprio autor comentou que embora o ambientalismo tivesse provocado a consciência sobre o impacto humano no planeta, não era apenas o planeta que estava ameaçado, mas a capacidade de se viver de forma menos impactante.

Em torno da década de 1980, surgiu o comunitarismo como um conceito político, moral e social em oposição a determinados aspectos do individualismo, ou seja, como uma corrente de pensamento que contestava a teoria e a prática liberal. Esta contestação e as respostas a que deu lugar animaram o debate ético-político, sobretudo, do continente americano onde, até então, em um quadro geral de crise do socialismo, se antevia uma incontestada hegemonia do liberalismo, na teoria e na prática tanto econômica quanto política. Esta corrente também enriqueceu os debates políticos do mundo pós-guerra fria – entre a queda do comunismo russo, em 1989, e o triunfo do Liberalismo anglo-americano no mundo, até2008.

A questão da comunidade não estava no centro da controvérsia, mas a forma de entendimento do sujeito liberal e da justiça, ligada à distribuição de recursos sociais. Embora

144 Brian Baxter é professor do Departamento de Ciência Política e Política Social na Universidade de Dundee,

Escócia. Descreve os arranjos institucionais necessários para integrar a justiça ecológica na tomada de decisões humanas.

145 John Rawls (1921-2002) era americano e professor de filosofia política da Universidade de Harvard. Sua teoria

pode ser designada como "liberalismo igualitário", incorporando tanto as contribuições do liberalismo clássico quanto dos ideais igualitários da esquerda. Apresentou o “liberalismo político” em 1993, aproximando-se da visão de democracia deliberativa defendida pelo filósofo alemão Jürgen Habermas.

146 O conceito de justiça ecológica considera a reivindicação de uma parcela dos recursos do planeta por outras

seja clara a importância da comunidade como depositária de valores coletivos que conduzem a vida humana, como diziam Cohen e Arato (1992). O que mobilizava o debate era então, por um lado, questionar se era possível defender uma concepção universalista de justiça, sem pressupor um conceito substantivo de bem (histórica e culturalmente situado), e, por outro, propor uma questão política, ou seja, se o ponto de partida para a liberdade deveria ser os direitos individuais ou as normas partilhadas da comunidade.

A ideologia comunitarista porém não é contrária ao liberalismo, mas centra seus interesses nas comunidades e na sociedade e não no indivíduo, como o liberalismo o faz. As comunidades foram consideradas a base de todas as soluções para um mundo melhor, mas o liberalismo não conferiu a importância que elas mereciam, devido ao individualismo defendido pelo sistema liberal que, muitas vezes prejudicava as análises sobre as questões da atualidade, como o aborto, o multiculturalismo, a liberdade de expressão, entre outras.

Diante da antiga ideia liberal que concebia o sujeito como ente autônomo e universal, o comunitarismo criava um eu “integrado”, fruto de uma construção social – todo indivíduo possuía uma pertença ético-política que o liga a outros e o constitui individualmente –. Enquanto os liberais viam a sociedade composta de indivíduos abstratos, os críticos comunitários situavam os indivíduos num contexto social e histórico, responsáveis pelas comunidades que se mantinham juntas pelos valores comuns e pelos ideais de bem-viver.

Entretanto, a questão dos comunitários era saber onde os sujeitos constituídos poderiam encontrar os recursos para avaliar criticamente os seus próprios fins constitutivos, e perguntar quem seria o “nós” da comunidade. Como já foram acusados antes, os comunitários não davam uma explicação adequada do poder de institucionalizar as compreensões da comunidade (FRAZER; LACEY, 1993, p.137), o que possibilitava gerar distorções.

Atrelado às questões socioambientais, o comunitarismo contracultural, que surgiu no movimento ambientalista da década de 1960, surgiu de forma potencialmente revolucionária, porém pacífica, com as aldeias e comunidades hippies, em todo o mundo, a partir da

caminhada no dia de Ação de Graças, em 1965 em Nova York – primeira grande marcha contra a guerra e a favor de um ideário pela “Paz e Amor” –. As primeiras comunidades que se espacializaram foram a Associação Aldeia Hippie de Arembepe147, na Bahia, Brasil; e

Freetown Christiania (1971), na Dinamarca, ambas com média de 46 anos de existência.

A Associação Aldeia Hippie de Arembepe originou-se, entre as décadas de 1960 e 1970, no apogeu do movimento hippie internacional e nacional. Segundo Hoisel (2003), um núcleo comunitário foi criado próximo à aldeia dos pescadores locais, promovendo uma vida de moradia e convívio com base na partilha, apesar de não ter sido formado intencionalmente uma comunidade. Os moradores mantinham uma relação harmônica com a natureza e com as pessoas do lugar. Ao começarem a atrair festivais e reconhecimento, por conseguir manter um modo de vida alternativo, houve aumento da frequência de intelectuais e de artistas nacionais e internacionais.

A “cidade livre” conhecida como Freetown Christiania, no centro de Copenhagen, Dinamarca, originou-se, em 1971, a partir da ocupação de uma grande área militar abandonada após a 2ª Guerra Mundial. Eram jovens hippies que apenas queriam habitar e se apropriar de uma área verde sem uso, chamando a atenção do público em geral. Freetown abrigou diferentes tradições, grupos étnicos, circos e festivais em típicas edificações militares e jardins dinamarqueses. Atraíram indivíduos indigentes e socialmente isolados, aceitando-os da forma como eram e com suas formas de expressão artística. Com o tempo, e depois de certa organização formal, adquiriram o direito legal de uso da terra, não sendo permitida especulação, apenas o direito de uso. Coletivamente, formaram uma comunidade com autogestão e autonomia do Estado, onde cada indivíduo era livre para expressar-se e ser responsável pela comunidade. (FALLESEN e HIND, 2008)

Nas diversas comunidades e grupos alternativos ao sistema vigente, onde se expressou esta corrente do comunitarismo, foram feitas tentativas de se preservar sua essência autônoma. Entretanto, segundo Santos Jr. (2016, p.347) ocorreu que “muitas das comunidades e grupos alternativos têm percebido a necessidade de maior interação com os diversos setores institucionais da sociedade, em especial, do poder público”. Esta necessidade os colocava na busca de institucionalização, por meio de razões sociais do tipo associação, fundação, cooperativa, instituto, dentre outras.