Communication students
1. Análise dos dados
1.1Caracterização dos informantes
O questionário aplicado na turma à qual pertencem os informantes desta pesquisa traz questões para o levantamento de algumas características sócio-culturais dos alunos.
A primeira pergunta do questionário diz respeito à faixa etária dos informantes e os resultados são apresentados no quadro 1 a seguir.
Quadro 1 – Faixa etária dos informantes
As três categorias (até 18 anos, 19-24 anos, mais de 25 anos) não foram escolhidas por acaso. A primeira, até 18 anos, que corresponde a 43% dos informantes, inclui os alunos que provavelmente nunca foram reprovados na escola e que ingressaram na universidade no primeiro ou segundo exame vestibular a que se submeteram. A segunda categoria, 19-24 anos, que corresponde a 57% dos informantes, inclui alunos de várias situações: alunos que reprovaram um ou mais anos na escola, que se submeteram várias vezes ao exame vestibular, mas não foram aprovados etc. A última categoria, mais de 25 anos, na qual não se inclui qualquer informante, diz respeito aos alunos que já estão na idade adulta e que, por motivos diversos, levaram vários anos para ingressar na universidade.
A segunda pergunta do questionário é a respeito da fonte de renda dos alunos e os resultados obtidos são apresentados no quadro 2. Por meio das duas categorias escolhidas (alunos que precisam trabalhar para se sustentar, alunos que não precisam trabalhar e são sustentados pelos pais), pode-se ter uma idéia da disponibilidade de tempo para estudo dos alunos do curso.
Como pode ser observado, a maioria dos informantes do curso de Comunicação Social apenas estuda e é mantida pelos pais (93%), o que lhes garante boa disponibilidade de tempo para o estudo.
A terceira pergunta do questionário é sobre a quantidade de leituras feitas pelos informantes após o ingresso na universidade. Por meio dos dados apresentados no quadro 3, pode-se verificar que a maioria dos alunos do curso de Comunicação manteve o mesmo nível de leitura de antes (64%). Isso reforça a hipótese de que os alunos do curso de Comunicação tiveram uma boa formação antes de ingressar na universidade.
Quadro 3 - Quantidade de leituras realizadas pelos informantes
Além das perguntas que visam ao levantamento de algumas características sócio-culturais dos alunos entrevistados, também foram incluídas, no questionário, perguntas para verificação da concepção que informantes têm sobre a produção de narrativas e sobre as modalidades de língua oral e escrita.
A questão 4 diz respeito à atitude dos alunos em relação às narrativas.
Pretendia-se verificar, com as atitudes mencionadas nas perguntas, se os alunos, ao narrarem uma história, fazem um relato fiel do que viram ou ouviram, ou procuram envolver seu interlocutor com técnicas e construções próprias de uma narração.
Quadro 4 - Atitude dos alunos de cada curso em relação à narrativa oral
A grande preocupação demonstrada pelos alunos do curso de Comunicação Social em procurar envolver o interlocutor (86%) pode ser atribuída ao objetivo da graduação em Relações Públicas, que é formar profissionais que utilizem a linguagem para estabelecer um canal de comunicação entre a empresa e o público, sempre procurando conquistar a opinião pública a favor da empresa (PROGRAD, 2006).
A quinta pergunta do questionário diz respeito à quantidade de informação veiculada em uma narrativa. Pretendia-se, com essa pergunta, verificar se os alunos, ao narrarem uma história, contam-na detalhamente ou reduzem-na ao essencial.
Quadro 5 - Quantidade de informação veiculada em uma narrativa
Juliano Desiderato ANTONIO Uma análise das preferências discursivas nos textos de alunos do Curso de Comunicação Social
A maioria dos informantes opta por produzir uma narrativa mais completa (57%), com pormenores, o que pode estar relacionado com o fato de que “enredar pelo enredo” talvez seja uma das técnicas utilizadas pelos alunos para envolverem o interlocutor (quadro 4).
Por meio da sexta pergunta do questionário, pretendia-se verificar se os alunos têm ou não conhecimento acerca de algumas das diferenças entre as modalidades de língua oral e escrita no que diz respeito à função, às condições e ao processo de produção, às estratégias e ao acabamento formal (NEVES, 1996; CHAFE, 1994).
Obviamente, quando foi aplicado o questionário, não se esperava que os alunos mencionassem os nomes das categorias acima. O procedimento foi classificar as respostas dadas pelos alunos nas categorias acima, para que as freqüências de cada uma dessas categorias pudessem ser obtidas, como pode ser observado no quadro 6.
Quadro 6 - Freqüência de diferenças entre modalidades de língua oral e escrita mencionadas pelos informantes
A divisão meio a meio obtida nas respostas permite-nos afirmar que os informantes não estão preocupados apenas com diferenças superficiais na produção das narrativas, como o uso de expressões mais formais nas narrativas escritas ou o uso de um vocabulário mais coloquial nas narrativas orais. Outros 50% dos informantes mencionam diferenças como a possibilidade de se planejar globalmente a narrativa escrita ou ainda a ‘editabilidade’ da escrita, que permite que marcas do processo de elaboração do texto sejam retiradas.
1.2 Caracterização do corpus
Para que se pudesse ter uma idéia da extensão das narrativas orais e das narrativas escritas, foi feita uma contagem, por computador, do número de palavras de cada narrativa (quadro 7). O processador de textos utilizado (WORD para WINDOWS) considera “palavra”, para efeito de contagem, uma seqüência de
Quadro 7 – Número de palavras nas narrativas orais e nas narrativas escritas dos informantes
As narrativas orais apresentam, em média, um maior número de palavras do que suas correlatas escritas. Essa diferença de extensão está ligada ao processo e às condições de produção de cada modalidade. As narrativas orais do corpus desta pesquisa foram produzidas sem planejamento prévio, não permitindo controle sobre os enunciados já produzidos. Como a língua oral não pode ser editada (CHAFE, 1985; 1994), os informantes, após algumas tentativas para encontrarem a expressão que consideraram mais adequada, não puderam apagar o que já haviam dito. Já a escrita, por ser editável, permite que sejam “cortadas” essas tentativas, o que tornou as narrativas escritas menos extensas. Em outras palavras, pode-se dizer que o processo de produção das narrativas orais é “transparente”, isto é, tudo aquilo que se pensa fica registrado, não ocorrendo o mesmo com as narrativas escritas, que são “passadas a limpo”.
Também foi feito um levantamento do número de palavras por tópico da narrativa1 para que se pudesse saber quais tópicos são considerados de maior e de menor importância para os informantes. O quadro 8 traz a distribuição de palavras de cada tópico em relação ao total de palavras nas narrativas orais e nas narrativas escritas.
Quadro 8 – Proporção de palavras por tópico nas narrativas orais e nas narrativas escritas
Para que esses dados possam ser explicados, deve-se relacionar os tópicos com a parte da narrativa (LABOV, 1976) a que pertencem. Os tópicos 1 e 2 formam a orientação, parte da narrativa que contém as informações gerais a respeito do tempo, lugar e personagens. Os tópicos 3 e 4 representam a complicação, parte central da narrativa, isto é, os acontecimentos que merecem ser narrados. Por último, os tópicos 5 e 6 compõem a resolução, que é o desfecho da história.
Juliano Desiderato ANTONIO Uma análise das preferências discursivas nos textos de alunos do Curso de Comunicação Social
Na orientação, um dos tópicos é dos mais extensos, e o outro, dos mais curtos, o mesmo ocorrendo na resolução. Já na complicação, ambos os tópicos ficam entre os mais extensos. Isso demonstra que os informantes, em sua maioria, dão maior importância às partes principais da narrativa, nas quais ocorrem os acontecimentos centrais do enredo, o que se pode considerar uma estratégia para manter o interlocutor interessado no que estava sendo narrado.
Entre as narrativas orais e as escritas, há também uma importante diferença de tendência que deve ser destacada. Nas narrativas escritas, o tópico mais extenso é o primeiro (chegada do rapaz - orientação), ao passo que, nas orais, o tópico mais extenso é o quarto (invasão da casa - complicação). Para Chafe (1985;1994), a língua oral, por ser geralmente utilizada em um contexto de interação social, tem a característica do envolvimento. Já a escrita, por ser uma atividade “solitária”, tem a característica do distanciamento. Foi dito aos informantes, durante a gravação das narrativas orais, que imaginassem um interlocutor ao narrar a história. Tendo em mente esse interlocutor enquanto contavam a história oralmente, os informantes se preocuparam em prender a atenção desse seu ouvinte imaginário e não quiseram cansá-lo com muitas informações preliminares a respeito da história. Ao escreverem a história, não tiveram essa mesma preocupação pelo fato de, na escrita, não se ter de prender continuamente a atenção de um ouvinte (CHAFE, 1985;1994).
Nota-se, portanto, que as diferentes características das modalidades de língua oral e escrita estão relacionadas com as diferenças na extensão das narrativas, bem como dos tópicos.
Podem ser observadas, nas narrativas do corpus, três maneiras distintas de se narrar o filme utilizadas pelos informantes. A primeira delas consiste em recriar a história. Os informantes que optam por essa forma de narração, em sua maioria, deixam de lado as referências ao filme e contam a sua versão do que foi visto, formulando hipóteses e acrescentando informações para incluir, de forma coerente em sua narrativa, cenas mal compreendidas. Um exemplo disso é uma cena no início do filme, entendida por alguns informantes como “uma procissão, típica de uma cidade pequena do interior”, e entendida por outros como “o enterro da amada do marinheiro”.
Uma outra maneira de produzir as narrativas encontrada no corpus consiste em relatar, da forma mais fiel possível, o que foi visto no vídeo. Em geral, nas narrativas assim produzidas, faz-se uma referência ao filme, como em 1 e 2, e então começa-se a narrar a história.
(1) “No filme que nós assistimos,
(3) “os dois guardas espantam, né? .. esse:: ... marinheiro, não sei, talvez seja marinheiro, né?” (narrativa oral)
Em outras palavras, os informantes que optam por produzir suas narrativas dessa forma contam a história como se estivessem fazendo um relato fiel de algo que viram, ou como se estivessem contando a alguém a história de um filme ao qual assistiram na TV ou no cinema.
A última forma de narrar a história encontrada no corpus consiste em contar o que foi visto apenas em suas linhas gerais, sem se ater a muitos detalhes. Na maioria dos casos, não é feita referência ao filme. Em suma, é feito um resumo da história.
Quadro 9 - Freqüência de narrativas recriadas, relatadas ou resumidas
As recriações ocorrem com maior freqüência nas narrativas escritas do que nas orais. A explicação para isso está relacionada ao processo e às condições de produção. Conforme indica Chafe (1985; 1994), a escrita é mais lenta que a fala, permitindo a quem escreve elaborar melhor seus enunciados, além de oferecer também a possibilidade, ao escritor, de voltar e reescrever algo de que não tenha gostado. Sendo assim, nas narrativas escritas, os informantes tiveram condições de apresentar um texto “acabado”, tendo refletido e dissipado as dúvidas a respeito de cenas mal-entendidas, e tendo formulado hipóteses para responder às dúvidas que porventura tenham ficado após ter assistido ao filme. As narrativas orais, por terem sido gravadas enquanto eram produzidas, conservaram marcas de seu processo de criação, como, por exemplo, as dúvidas dos informantes a respeito de certas cenas que iam aparecendo conforme a narrativa ia sendo produzida. Enfim, entre as narrativas orais, há menos recriações e mais relatos e resumos do que entre as narrativas escritas, porque é mais difícil produzir, sem planejamento, um texto “limpo”, sem as marcas de sua produção, com todas as partes coerentemente interligadas.