Análise dos resultados da modelagem de equações estruturais

No documento Antecedentes da aprendizagem organizacional em cursos superiores de tecnologia : a experiência brasileira (páginas 185-188)

6. Análise de dados – pesquisa quantitativa com professores de CSTs no Brasil

6.3 Modelagem de equações estruturais MEE

6.3.3 Análise dos resultados da modelagem de equações estruturais

Seis das sete práticas que contribuem para a aprendizagem organizacional mostram ter relações positivas e significativas com algum tipo de resultado. Apenas as práticas ‘conversas informais dos docentes com os colegas’ não mostraram relação positiva, mas ainda assim mostram-se relacionadas de forma estatisticamente significativa aos resultados, mas com relação negativa.

As ‘ações decorrentes do SINAES’ mostraram-se relacionadas positivamente tanto com as aprendizagens organizacionais produtivas de ciclo simples, como com as de ciclo duplo. Este achado está em consonância com a literatura, que revela que aspectos regulatórios são os que mais impactam em mudanças e inovações em sistema educacionais (LO; GU, 2008; CHENG, 2009; NIU, 2009; WONG; CHEUNG, 2009; BISSCHOFF, 2009, MITSOPOULOS; PELAGIDI, 2010; PYHÄLTÖ; SOINI; PIETARINEN, 2011, MARSH; STRUNK; BUSH, 2013; STOLL, 2013; GAMLATH, 2013; MCCORMICK; AYRES, 2009).

O constructo ‘reuniões informais dentro ou fora da IES’ mostra-se significantemente relacionado às aprendizagens organizacionais produtivas de ciclo duplo e com o desempenho do curso na avaliação do MEC (CPC ou CC). Este achado reforça a ideia de que o aprendizado é favorecido pela interação social (BENTE; ELKAJER, 2011; ANTONELLO; GODOY, 2011), em especial por meio da aquisição e participação em grupos, desenvolvendo experiências e conhecimento pelo questionamento, desde que o indivíduo se sinta parte daquele mundo social (BRANDI; ELKJAER, 2011).

Os resultados do ENADE mostram-se positivamente relacionados ao constructo ‘rotinas, sistemas, estruturas e estratégias’. Para Nelson e Winter (2002), as rotinas são meio de perpetuar aprendizados, garantindo a permanência de resultados positivos. Para Crossan, Lane e White (1999), rotinas, sistemas, estruturas e estratégias têm papel importante na institucionalização de aprendizagens e também na aprendizagem individual dos membros da organização, que as interpretam para compreender o funcionamento da organização, sendo mecanismos para transposição de um conhecimento organizacional para o lócus individual. Desta forma, os resultados indicam que quanto mais as pessoas percebem a importância das

instâncias mensuradas por este constructo, melhores tendem a ser os resultados do curso no ENADE, o que pode resultar em melhor implementação dos projetos de curso e institucionais. O constructo ‘contato com profissionais não acadêmicos’ também se mostrou positivamente relacionado ao desempenho do curso no ENADE. Devido a evidências empíricas da fase qualitativa desta pesquisa, esperava-se que o contato com profissionais não acadêmicos permitisse que os docentes estivessem atualizados sobre o mundo do trabalho e as competências por ele requeridas. Esta é uma premissa que norteia as diretrizes curriculares dos cursos superiores de tecnologia, que se baseia no desenvolvimento de competências alinhadas às necessidades no mundo do trabalho (CNE/CES, 2001). Estas competências são complexas, uma vez que o mundo do trabalho sofreu transformações que exigem novas demandas ao trabalhador, sendo a contemporaneidade um período marcado pela constante mutação (ZARIFIAN, 2012) e a competência uma orquestra de esquemas que sustenta uma ação ou operação única (PERRENOUD, 1999).

O constructo ‘parcerias com empresas e organizações’ apresentou relação positiva e estatisticamente significativa com as aprendizagens produtivas de ciclo simples. As aprendizagens de ciclo simples ocorrem por meio de aprendizagens incrementais, que permitem melhorar a eficiência ou eficácia no alcance de objetivos já estabelecidos, sem alterar a teoria em uso na organização (ARGYRIS; SCHÖN, 1996). O resultado indica que os cursos buscam, em seus parceiros, meios para atingir seus objetivos já estabelecidos. Pelo potencial de aprendizagens novas, esperava-se, no entanto, que as parcerias estivessem também relacionadas às aprendizagens de ciclo duplo, quando a teoria em uso é questionada e substituída, porém esta relação não se mostrou significativa estatisticamente, o que poderá ser investigado em estudos futuros.

A última sub-hipótese suportada estatisticamente mostra a relação entre o constructo de resultado ‘aprendizagens organizacionais produtivas de ciclo simples’ e o resultado do curso nas avaliações do MEC (CPC ou CC). Esta foi a única relação positiva direta entre aprendizagens produtivas e resultados nos indicadores do MEC confirmada estatisticamente. Este resultado sugere que os cursos que conseguem implementar aprendizagens em busca de maior eficiência acabam tendo melhores resultados no desempenho junto aos indicadores do MEC. Isto pode ocorrer por dois motivos: a) as aprendizagens incrementais buscam melhorar os indicadores do curso junto ao MEC, tendo-os como parâmetro; b) a avaliação expressa pelos indicadores do MEC consegue captar, de forma adequada, as melhorias realizadas nos cursos. Pela análise das estatísticas descritivas nas variáveis mensuradas pelas questões Q12_1 a Q12_5, mostradas no Quadro 13, conforme exposto na seção 6.1.4 deste trabalho, não existe

claro consenso sobre as contribuições do SINAES para a aprendizagem do curso, no entanto o resultado da regressão feita no modelo de equações estruturais mostra que os cursos com melhor desempenho no CPC e CC foram também os que apresentaram mais aprendizagens organizacionais, produtivas de ciclo simples. Estudos futuros podem ajudar a elucidar qual dos possíveis motivos explica esta relação de forma mais adequada.

Sobre as variáveis estatisticamente significativas com relação inversa ao esperado, verificou-se que as aprendizagens produtivas de ciclo duplo apresentam relação inversa com a nota do curso no CPC ou CC. Isto pode indicar que cursos com desempenho ruim no CPC ou CC tenham buscado redefinir seus objetivos, alterando a teoria em uso na busca de melhores resultados. O teste de correlação bivariada entre as duas variáveis, não mostra, entretanto, significância estatística suficiente para sustentar esta relação, sendo necessários estudos futuros para explorar e confirmar os motivos da relação negativa.

O constructo ‘conversas informais entre docentes do curso’ mostrou-se com relação inversa estatisticamente significativa tanto nos resultados do desempenho dos estudantes no ENADE quanto do curso no CPC ou CC. Esta relação pode indicar que: a) devido ao desempenho ruim, aprendizagens organizacionais estão sendo geradas através de conversas informais entre o grupo de docentes do curso, buscando melhorias nos resultados; ou b) as aprendizagens organizacionais geradas a partir das conversas informais estão na contramão dos objetivos do curso e do sistema educacional, que tem seus parâmetros expressos nos instrumentos avaliativos do MEC. Estudos futuros podem explorar esta relação, buscando melhor entendimento deste impacto negativo entre as variáveis.

O constructo ‘ações decorrentes do SINAES’ apresentou impacto negativo no resultado do desempenho dos estudantes no ENADE, o que pode ser indicativo de que cursos com desempenho ruim no ENADE estejam buscando ajustes em suas práticas e ganhos de eficiência e eficácia, por meio da implementação de inovações incrementais, associadas às aprendizagens de ciclo simples. O teste de correlação bivariada entre as duas variáveis não mostrou, no entanto, significância estatística suficiente para sustentar esta explicação, sendo necessários estudos futuros para explorar e confirmar os motivos da relação negativa.

Este capítulo mostrou os resultados da fase qualitativa desta pesquisa, demostrando as análises estatísticas realizadas e a relação dos resultados com a teoria e as evidências empíricas da fase qualitativa realizada previamente. O capítulo seguinte apresenta as considerações considerações finais da presente tese.

No documento Antecedentes da aprendizagem organizacional em cursos superiores de tecnologia : a experiência brasileira (páginas 185-188)