PARTE III – O Ensino de Português em Moçambique – novas perspectivas

CAPÍTULO 1 – Português – Língua segunda (PL2) em Moçambique

1- Pressupostos do Ensino do Português, Língua Segunda, no Ensino de Adultos, em

1.3. Análise de programa da 10ª classe

Na tentativa de obter dados que pudessem dar contornos mais precisos a esta situação, decidimos proceder a um levantamento dos conteúdos programáticos para a 10ª classe, do ensino secundário geral, que são elaborados pelo Ministério de Educação, procurando referências, recomendações sobre o ensino/aprendizagem da língua oral. Em seguida, analisamos as respostas dadas pelos alunos, da 10ª classe, curso nocturno, nosso público-alvo neste estudo, nos inquéritos por questionários referentes aos exercícios de oralidade praticados na sala de aula. Pretendia-se verificar a realização de actividades sistemáticas ligadas essencialmente ao aperfeiçoamento da expressão oral dos alunos.

Analisados os conteúdos programáticos para a 10ª classe, (ver anexo nº 12) comparando-os com os da 8ª e 9ª classes, do mesmo ciclo, constatamos que os programas privilegiam a escrita em relação à oralidade. A escrita é vista, no entender dos programadores, como forma superior de expressão, seja pelas suas características de conservação e fixação, seja pela sua produção depender da aprendizagem de técnicas específicas, sem esquecer o facto de ser mais estritamente codificada do que a linguagem oral, cujos “desvios” da norma gramatical são mais facilmente admitidos.

A unidade de textos que abordam exercícios de expressão oral nos programas é a seguinte:

Textos Orais ou Escritos de Chamada de Atenção e Argumentativos, (anúncio simples e publicitário, avisos) – 1º trimestre

Textos dramáticos Orais ou Escritos (1º trimestre)

Textos, Orais ou Escritos, de natureza Didáctica ou Científica (Manuais Escolares, Receitas de Cozinha, Instruções varias) – 2º trimestre

Textos Narrativos Orais ou Escritos (lenda, conto, fábula, novela, romance) – 3º trimestre.

Tendo em conta estas tipologias textuais, o programa propõe as seguintes actividades:

Resposta oral de perguntas de questionários orais, com vista a uma melhor compreensão e análise de um texto narrativo (duas vezes); Realização ou simulação de uma entrevista a uma entidade social (2

vezes);

Reconto oral ou por escrito de textos narrativos em prosa ou em verso (uma vez);

Debate sobre temas actuais da sociedade (2 vezes);

Apresentação oral de um trabalho pesquisado na biblioteca (uma vez); Resumo oral de textos narrativos do livro do aluno (uma vez);

Exposição oral sobre uma pesquisa feita pelos alunos na comunidade onde estão inseridos, sobre o modo de viver dessa comunidade (uma vez);

Representação de um texto dramático, seleccionado no livro do aluno (uma vez).

Comparando estas actividades com actividades de produção escrita, nota-se que as actividades programadas para o exercício da expressão oral são muito poucas, tendo em conta os objectivos gerais do programa (ver anexo nº3) que se anuncia para a 10ª classe. Alguns dos objectivos traçados pelo programa é: utilizar a língua para “descrever” a própria cultura e as alheias como parte de uma sociedade universal; dominar a expressão oral e escrita em situações diversificadas da vida política e social; usar no seu quotidiano tipos diversificados de textos orais e escritos; intervir pessoalmente em momentos diversificados de comunicação.

Pelas actividades de expressão oral presentes no programa da 10ª classe, quando se faz alusão à língua falada, depreendemos que esta é ensinada e julgada na sua adequação ao enunciado escrito, o que nos permite presumir que o ensino da Língua Portuguesa, para os programadores, visa o desenvolvimento da capacidade comunicativa do aluno nos domínios oral e escrito. No entanto, as intenções anunciadas nos programas parecem não corresponder à realidade dos factos, contrariando, deste modo, os objectivos preconizados no programa. (ver programa para a 10ª classe do Ensino Secundário Geral, em anexo nº 3).

Julgamos que se assinala aqui um erro metodológico, porque, como se sabe, a oralidade difere da escrita em vários aspectos.

Ao indicar a leitura de textos como meio para desenvolver no aluno a capacidade de expressão oral, o programa deixa clara a opção por uma abordagem da oralidade a partir da escrita que, por sua vez, deixa entrever a convicção, generalizada no contexto escolar, de que o discurso oral possui as mesmas regras que o discurso escrito. Assim, para aprender a falar correctamente, bastaria aprender a ler e a escrever.

Outra constatação significativa, por nós observada, é o facto de que as estratégias das actividades, supostamente programadas para o desenvolvimento da expressão oral, se restrinjam a “leitura expressiva do texto” e à “exposição oral” (resumo de textos). A leitura em voz alta, por exemplo, não parece ser a melhor estratégia para o aperfeiçoamento da expressão oral. Primeiro, porque o facto de se ler em voz alta não retira do texto o seu carácter de realização escrita. Segundo, a leitura em voz alta é mais uma actividade de interpretação, de recriação do que de realização oral.

Vê-se pois, que, aparentemente, as recomendações contidas nos programas (8ª, 9ª, 10ª classes) contemplam igualmente a expressão oral e a expressão escrita. No entanto, uma leitura mais atenta verá confirmado o privilégio dado à escrita. Inicialmente, observa-se que o suporte, a partir do qual se pretende desenvolver a competência oral, é o texto escrito literário, em prosa e em verso.

O programa recomenda de entre outros aspectos, o trabalho em grupo, seguido de debate na sala de aula, como forma de desenvolver habilidades tais como, saber ler, saber falar e saber ouvir, competências importantes não só para a vida escolar, como também para a vida social. A investigação individual em bibliotecas é também uma recomendação do programa, apesar desta actividade, não poder ser feita pela maioria dos alunos que estão em escolas sem bibliotecas ou distantes das bibliotecas municipais.

Na divisão das unidades programáticas dos três trimestres, de um ano lectivo, estão contempladas 15 horas para trabalhar textos, orais ou escritos, de chamada de atenção e argumentativos (1º trimestre); 10 horas para textos dramáticos orais ou escritos; 10 horas para textos orais ou escritos, de natureza didáctica ou científica (2º trimestre); e 15 horas para textos narrativos orais ou escritos (3º trimestre), privilegiando-se os textos narrativos escritos.

Aos textos poéticos escritos atribuem-se mais horas lectivas, justificando-se a pouca importância que se dá aos textos orais, com vista a exercitação da expressão oral dos alunos.

Os exercícios programados para os textos narrativos, orais ou escritos, estão mais virados para perguntas de interpretação textual, para a estrutura formal dos textos, do que propriamente o desenvolvimento da expressão oral dos alunos, apesar de se aconselharem textos como: o conto, a fábula, a lenda, a novela, o romance, o aviso, o anúncio simples e publicitário, os manuais escolares, as receitas de cozinha, as instruções várias e guias turísticos.

Fazendo uma leitura atenta dos objectivos específicos das unidades programadas, referentes aos textos orais ou escritos, acima descritos, verificamos que, em 15 horas lectivas, somente estão previstas uma ou duas actividades de reconto oral, debate, entrevista, exposição oral, de textos ou temas sociais. Os restantes objectivos específicos visam perguntas relacionadas com a identificação das personagens, com o tipo de narrador, com a identificação das figuras de estilo no texto e exercícios gramaticais (análise da frase simples e complexa) e outros itens de ordem gramatical.

Nas actividades da aula, privilegiam-se a leitura oral de textos, a apresentação e organização de textos, a análise de tipos de linguagem, e a produção escrita de alguns tipos de textos.

Transcrevemos de seguida as sugestões de estratégias recomendadas aos professores, no programa de português da 10ª classe, na unidade didáctica – O texto Narrativo, em 15 horas lectivas:

- Análise de textos narrativos nos seguintes aspectos:

a) Pesquisa de elementos referentes ao tempo;

b) Análise do tempo da história a partir desses elementos;

c) Levantamento de elementos para a caracterização psicológica das personagens;

d) Distinção entre personagens planas e redondas; e) Identificação do tipo a que a narrativa pertence; f) Identificação de alguns recursos de estilo.

- Exercícios de leitura clara, correcta e obedecendo à expressividade da pontuação:

- Exercícios de vocabulário; - Elaboração de fichas de leitura;

- Realização de diversos exercícios sempre com base num texto (oral ou Escrito) para:

a) Conjugar formas verbais;

b) Conjugar a mesma forma em diferentes conjugações.

- Resumo oral de textos narrativos (oralização de textos) - Produção escrita de um texto narrativo real (escrita)

- Materiais

Estes materiais são textos retirados do livro do aluno da 10ª classe, para análise na sala de aula.

“ A minha avó”;

“ Das tribulações que Lisboa padecia por míngua de mantimentos”; “ O trapiche”.

Apesar de um dos objectivos específicos ser resumir oralmente textos narrativos, o professor limita-se a mandar os alunos fazerem recontos orais de histórias lidas nos textos por ele seleccionados, no livro do aluno, e não de histórias e outros acontecimentos vividos pelos alunos noutros contextos e que sirvam de motivação para o exercício da expressão oral dos alunos.

No documento Para uma didáctica mais eficiente da língua portuguesa em Moçambique: como ensinar a língua portuguesa a jovens e adultos do curso nocturno da Escola Secundária da Maxaquene - Maputo (páginas 188-194)