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Anamnese em alguns distúrbios comuns

As Tabelas 3.5 a 3.13 resumem alguns aspectos importantes da anamnese a explorar em pacientes com algumas queixas neurológicas comuns. A quantidade de possíveis queixas iniciais neurológicas é grande demais para que seja possível abordar todas elas, portanto, essas tabelas devem ser consideradas apenas o ponto de partida e uma ilustração do processo. O espaço não permite explicar a importância de cada um desses elementos da anamnese para o diagnóstico diferencial. Basta dizer que todos eles influem na inclusão ou exclusão de alguma possibilidade diagnóstica. Existe uma “lista” desse tipo para a queixa de cada paciente. O aprendizado e o aperfeiçoamento dessas listas é o desafio da medicina.

Por exemplo, a Tabela 3.5 lista alguns dos pontos específicos importantes da anamnese que ajudam a avaliar o paciente com cefaleia crônica. Os aspectos a seguir são regras e diretrizes gerais, não absolutas. Pessoas com enxaqueca tendem a apresentar dor pulsátil hemicraniana ou orbitofrontal associada a desconforto gastrintestinal (GI). Aquelas que têm enxaqueca com aura (enxaqueca clássica) apresentam sintomas visuais ou neurológicos associados e geralmente buscam alívio deitando-se em um ambiente escuro e silencioso. Pessoas com cefaleia em salvas tendem a

apresentar dor orbitofrontal não pulsátil unilateral sem sintomas visuais, GI ou neurológicos associados, e tendem a andar para obter algum alívio; pessoas com cefaleia tensional costumam ter dor não pulsátil com distribuição em faixa ou occipitonucal e não associada a desconforto visual, neurológico nem GI.

Tabela 3.5

Pontos importantes da anamnese no paciente com cefaleia crônica.

Se o paciente tiver mais de um tipo de cefaleia, obtenha as informações sobre cada tipo. Localização da dor (p. ex., hemicraniana, holocraniana, occipitonucal, tipo faixa) Intensidade da dor

Qualidade da dor (p. ex., contínua, pulsátil, lancinante) Intensidade

Momento, duração e frequência Consumo diário médio de cafeína

Consumo diário médio de analgésicos (inclusive medicamentos de venda livre)

Fatores precipitantes (p. ex., álcool, privação do sono, dormir demais, alimentos, luz forte) Fatores de alívio (p. ex., repouso/silêncio, ambiente escuro, atividade, medicamentos) Resposta ao tratamento

Sintomas neurológicos associados (p. ex., dormência, parestesia, fraqueza, distúrbio da fala) Sintomas visuais associados (p. ex., escotomas cintilantes, cegueira transitória)

Sintomas gastrintestinais associados (p. ex., náuseas, vômito, anorexia)

Sintomas associados (p. ex., fotofobia, fonofobia/sonofobia, lacrimejamento, congestão nasal) Qualquer história de traumatismo craniano

Modificada de Campbell WW, Pridgeon RP. Practical Primer of Clinical Neurology. Philadelphia: Lippincott Williams & Wilkins, 2002.

A Tabela 3.6 lista alguns dos elementos importantes na anamnese de pacientes com dor no pescoço e no braço. O diagnóstico diferencial primário fica entre radiculopatia cervical e distúrbios musculoesqueléticos como bursite, tendinite, síndrome de impacto e dor miofascial. Pessoas com doença do disco cervical têm dor principalmente no pescoço, na crista do trapézio e na região superior do ombro. Indivíduos com dor miofascial cervical têm dor na mesma distribuição geral. Indivíduos com radiculopatia podem ter dor referida na região peitoral ou periescapular, que é incomum na dor miofascial. A dor da radiculopatia pode irradiar-se em distribuição radicular ao longo do braço, e dor com irradiação abaixo do cotovelo geralmente significa radiculopatia. Assim, pacientes com radiculopatia têm dor ao movimentar o pescoço; pacientes com doença do ombro têm dor ao movimentar o ombro. Além disso, indivíduos com radiculopatia podem ter fraqueza ou sintomas sensoriais no membro acometido.

As Tabelas 3.7 a 3.13 resumem alguns detalhes importantes a serem considerados na anamnese em algumas das outras queixas frequentes no consultório.

Tabela 3.6

Pontos importantes da anamnese no paciente com dor no pescoço e no braço.

Nota: na maioria das vezes o diagnóstico diferencial é entre radiculopatia e dor musculoesquelética. Início e duração (aguda, subaguda, crônica)

Intensidade da dor Qualquer história de lesão

Qualquer história de infecção viral ou imunização prévia

Qualquer história passada de hérnia de disco, cirurgia do disco ou episódios prévios de dor no pescoço ou no braço Localização da dor mais intensa (p. ex., pescoço, braço, ombro)

Eventual padrão de irradiação da dor (p. ex., para ombro, braço, região peitoral, região periescapular) Relação entre a dor e o movimento do pescoço

Relação entre a dor e o movimento do braço e do ombro Fatores de alívio

Qualquer exacerbação decorrente de tosse, espirro, esforço para defecar Qualquer fraqueza do braço ou da mão

Qualquer dormência, parestesia ou disestesia do braço ou da mão

Qualquer fraqueza associada da perna ou disfunção intestinal, vesical ou sexual sugestiva de compressão da medula espinal

Modificada de Campbell WW, Pridgeon RP. Practical Primer of Clinical Neurology. Philadelphia: Lippincott Williams & Wilkins, 2002.

Tabela 3.7

Pontos importantes da anamnese no paciente com dor nas costas e na perna.

Nota: na maioria das vezes o diagnóstico diferencial, como na dor no pescoço e no braço, é entre radiculopatia e dor musculoesquelética.

Início e duração (aguda, subaguda, crônica) Intensidade da dor

Qualquer história de lesão

Qualquer história passada de hérnia de disco, cirurgia do disco ou episódios prévios de dor nas costas ou na perna Localização da dor mais intensa (p. ex., dorso, nádegas, quadril, perna)

Padrão de eventual irradiação da dor (p. ex., para nádega, coxa, perna ou pé) Relação entre a dor e a posição do corpo (p. ex., de pé, sentado, deitado)

Relação entre a dor e a atividade e o movimento (inclinação, curvatura do corpo para frente, movimento da perna) Qualquer exacerbação decorrente de tosse, espirro, esforço para defecar

Qualquer fraqueza da perna, do pé ou dos dedos dos pés

Qualquer dormência, parestesia ou disestesia da perna ou do pé Fatores de alívio

Qualquer disfunção intestinal, vesical ou sexual sugestiva de compressão da cauda equina Qualquer febre, emagrecimento ou rigidez matinal associada

Modificada de Campbell WW, Pridgeon RP. Practical Primer of Clinical Neurology. Philadelphia: Lippincott Williams & Wilkins, 2002.

Tabela 3.8

Pontos importantes da anamnese no paciente com tontura.

Definição precisa da tontura pelo paciente Natureza do início

Intensidade

Presença ou ausência de ilusão de movimento Sintomas persistentes ou intermitentes

Se intermitentes, frequência, duração e ocasião das crises

Relação entre a tontura e a posição do corpo (p. ex., de pé, sentado, deitado) Qualquer precipitação de tontura por movimento da cabeça

Sintomas associados (p. ex., náuseas, vômito, zumbido, perda auditiva, fraqueza, parestesia, diplopia, disartria, disfagia, dificuldade de marcha ou equilíbrio, palpitações, dispneia, xerostomia,* dor torácica)

Medicamentos, sobretudo anti-hipertensivos ou fármacos ototóxicos

*Pode ser uma indicação de hiperventilação. Modificada de Campbell WW, Pridgeon RP. Practical Primer of Clinical Neurology. Philadelphia: Lippincott Williams & Wilkins, 2002.

Tabela 3.9

Pontos importantes da anamnese no paciente com dormência da mão.

Nota: as principais considerações no diagnóstico diferencial são síndrome do túnel do carpo e radiculopatia cervical. Sintomas constantes ou intermitentes

Se intermitentes, ocasião, sobretudo qualquer relação com a hora do dia, principalmente qualquer tendência a sintomas noturnos, duração e frequência

Relação com as atividades (p. ex., conduzir automóveis) Parte da mão acometida com maior intensidade

Qualquer acometimento do braço, da face e da perna

Dor no pescoço

Dor na mão ou no braço Fraqueza da mão ou do braço

Qualquer história de lesão, sobretudo lesão antiga do punho Qualquer acometimento da mão oposta

Modificada de Campbell WW, Pridgeon RP. Practical Primer of Clinical Neurology. Philadelphia: Lippincott Williams & Wilkins, 2002.

Tabela 3.10

Pontos importantes da anamnese no paciente com suspeita de ataque isquêmico transitório.

Nota: ocorre em pacientes que tiveram uma ou mais crises de fraqueza ou dormência unilateral, perda transitória da visão, sintomas de insuficiência vertebrobasilar e problemas semelhantes.

Data do primeiro episódio e número de episódios Frequência das crises

Duração das crises

Partes do corpo e funções específicas envolvidas

Qualquer dificuldade associada da fala, visão, deglutição etc.

Outros sintomas associados (dor torácica, dispneia, náuseas e vômito, cefaleia)

Qualquer história de hipertensão, diabetes melito, hipercolesterolemia, doença coronariana, doença vascular periférica, abuso de drogas ilícitas

Quaisquer episódios passados de ataque isquêmico transitório retiniano, hemisférico ou vertebrobasilar Medicamentos atuais, principalmente ácido acetilsalicílico, contraceptivos orais, anti-hipertensivos

Modificada de Campbell WW, Pridgeon RR. Practical Primer of Clinical Neurology Philadelphia: Lippincott Williams & Wilkins, 2002.