2. CONSIDERAÇÕES HISTÓRICAS
2.3. Anatomia ou Profundidades? As Escolas e Suas Propostas
O Método Anatómico de Gerasimov é vulgarmente definido pelo seu recurso exclusivo à construção dos músculos faciais, camada-a-camada, sem o auxílio dos valores médios da espessura dos tecidos moles78. Curiosamente, a documentação visual existente revela apenas a modelação dos músculos mastigadores – Temporal e Masséter – estando os restantes grupos, respeitantes à mímica facial, ausentes nas imagens. Outro facto relevante relaciona-se com um excerto da sua obra Face Finder79, no qual o antropólogo descreve a modelação dos dois músculos da mastigação, embora não faça qualquer alusão à elaboração dos restantes músculos da face. A suspeita da rejeição da modelação dos músculos faciais da mímica é confirmada por um antigo aluno de Gerasimov, Herbert Ullrich, num artigo publicado em 196680. Neste artigo, Ullrich revela que Gerasimov não incluía os músculos da mímica facial por considerar a aferição dos mesmos imprecisa e a modelação passível de erro, preferindo recorrer a um conjunto de regras para a determinação dos caracteres faciais. Relativamente ao uso dos valores médios da profundidade dos tecidos moles, Gerasimov reconhecia a importância do estudo das interrelações entre a topografia óssea e o contorno da face81, tendo elaborado pessoalmente uma tabela que utilizou nas suas aproximações82. Esta informação contraria as noções anteriormente publicitadas83 e demonstra que a metodologia usada por Gerasimov não difere tanto como se supõe dos princípios atualmente empregues no Método Combinatório, ou seja, ambos dependem da modelação muscular combinada com as médias dos valores de profundidade dos tecidos da face (figura 19).
78 TAYLOR, Karen T. – Forensic Art and Illustration, 2001, pp. 341-342; WILKINSON, Caroline – Forensic Facial Reconstruction, 2004, p. 49.
79«The reconstruction of the head from the skull falls into two phases [...] In the first phase comes the reconstruction of the most importante masticatory and neck muscles with those of the shoulder. There is no doubt that the masticatory muscles can be accurately reconstructed. They are highly individual in size, volume and shape so that their form can be in each particular case determined from the skull.» in GERASIMOV, Mikhail M. – The Face Finder, 1971, p. 53.
80 Ver: ULLRICH, Herbert – Kritische Bemerkungen zur plastischen Rekonstruktionsmethode nach Gerasimov auf Grund personlicher Erfahrugen, 1966, pp. 111-123.
81Ver: GERASIMOV, Mikhail M., op. cit, pp. 11-12 e 52.
82 Ver: STEPHAN, Carl N. – Beyond the Sphere of the English Facial Approximation Literature:
Ramifications of German Papers on Western Method Concepts, 2006, p. 737; ULLRICH, Herbert – Die methodischen grundlagen des plastischen rekonstruktionsverfahrens nach gerasimov, 1958, pp.
245–258; ULLRICH, Herbert, op. cit, pp. 111-123; ULLRICH, Herbert; STEPHAN, Carl N. – On Gerasimov’s Plastic Facial Reconstruction Technique: New Insights to Facilitate Repeatability, 2011, p. 470.
83 No seu livro, Karen Taylor afirma: «[…] It should be noted that no tissue depth indicators were applied to the skulls in Gerasimov’s work, although his drawings reflect his personal anatomical knowledge of the depths.» in TAYLOR, Karen T., op. cit, p. 367.
Figura 19 – Método Russo: as duas primeiras imagens revelam a modelação dos músculos mastigadores, correspondentes à primeira fase da metodologia de Gerasimov; a segunda fase é ilustrada pelas duas imagens à direita, onde é possível observarem-se as grelhas que unem as várias pirâmides indicadoras das profundidades dos tecidos moles.
Relativamente ao Método Americano, coloca-se uma questão semelhante. Será que a sua abordagem é meramente assente nos valores médios da profundidade dos tecidos que revestem o crânio? De facto, quando observamos a sequência da construção de um rosto (figura 20), torna-se evidente a importância conferida aos marcadores dos tecidos moles. Ainda assim, o exame mais atento revela um conjunto de decisões denunciadoras do carácter anatómico da modelação. A precisão na aferição dos pontos craniométricos e o cuidado na angulação adotada para a colagem dos marcadores, demonstra um conhecimento profundo das correspondências entre a face óssea e a face externa. Oculto por detrás do que parece ser uma mera união de pontos, encontra-se uma circunstância comum a todos os proponentes da utilização dos marcadores dos tecidos moles, sejam eles seguidores da escola americana ou inglesa84. Referimo-nos ao facto dos marcadores servirem como guias do limite externo da face e não como regra fixa para a demarcação fisionómica. Eles são apenas uma sugestão já que, em última análise, é a musculatura facial que determina o formato do rosto. Uma aderência cega aos valores das tabelas poderá resultar na modelação de uma face grosseira. Sempre que os marcadores exibam espessuras que
84Ver: KROGMAN, Wilton. M.; MCCUE, Mary J. – The Reconstruction of the Living Head from the Skull, 1946, pp. 11-18; NUSSE, Gloria – A Case Study: The Castro Valley Jane Doe, in GIBSON, Lois – Forensic Art Essentials: a manual for law enforcement artists, 2008, p. 375; PRAG, John; NEAVE, Richard – Making Faces: using forensic and archaeological evidence, 1997, p. 28; WILKINSON, Caroline – Forensic Facial Reconstruction, 2004, pp. 156 e 188.
pareçam desapropriadas para o crânio em questão, é aconselhável proceder-se aos desvios necessários por forma a assegurar-se um semblante anatomicamente correto.
Gatliff confirma isso mesmo na descrição das suas metodologias, sugerindo a determinada altura a eliminação de alguns marcadores e aconselhando uma modelação fundamentada no estudo das estruturas anatómicas existentes nessa região específica85. Coincidentemente, a zona abrangida por esses marcadores compreende grande parte dos músculos da mímica facial e, tal como no método de Gerasimov, a determinação dos caracteres faciais é efetuada por meio de um conjunto de princípios gerais.
Figura 20 – Sequências da construção de um rosto, segundo o Método Americano: as três imagens em cima, revelam uma abordagem primitiva da metodologia desenvolvida para a modelação da superfície externa da face. São notáveis as semelhanças entre os procedimentos de Gatliff e a grelha utilizada por Gerasimov (figura 19). A segunda sequência em baixo, é referente a um período posterior, caraterizado pela simplificação na modelação. Aqui pode observar-se que, embora a construção em bloco revele a sujeição do sistema aos marcadores de profundidade dos tecidos moles, as duas imagens superiores, ao centro, denunciam uma afinidade com a representação dos grandes músculos mastigadores (Masséter e Temporal) do Método Russo.
85Ver: GATLIFF, Betty Pat – Three-Dimensional Facial Reconstruction on the Skull, in TAYLOR, Karen T. – Forensic Art and Illustration, 2001, p. 426.
O Método Combinatório desenvolvido por Neave é o único que, por definição, considera os valores médios das profundidades de tecidos moles, aliados à modelação da anatomia facial (figura 21). Aqui a grande diferença não será tanto na questão da contemplação dessas duas perspetivas – pois ficou claro que elas estão presentes nas duas outras escolas – mas antes, a importância conferida à elaboração da musculatura facial integral. Essa opção tem sido de certa forma criticada por aumentar o tempo de construção do rosto. Mas o julgamento não cessa na lentidão do sistema, também a pertinência da execução de um trabalho tão laborioso é posta em causa pela natureza especulativa da delimitação espacial e determinação dimensional da intricada rede de feixes86. Este facto é inegável já que a maior parte destes músculos inserem-se noutros, permanecendo suspensos entre camadas de tecido adiposo. Ademais, a sua variabilidade, em termos das formas e dimensões, é considerável. Assim sendo, a impossibilidade da previsão exata do local e espessura dos músculos, condiciona o artista à produção de uma modelação estilizada. Outros referem ainda a inutilidade do detalhe empregue na representação dos músculos, argumentando que, no final, essas estruturas desaparecem por baixo da camada cutânea.
Em defesa da metodologia adotada, Richard Neave responde:
«[…] Claro que isto é verdade. No entanto, esta abordagem metódica é a forma mais lógica e precisa de assegurar-se um desenvolvimento externo da face concordante com a superfície craniana e com as regras anatómicas, reduzindo-se a um mínimo a possibilidade de uma interferência subjetiva por parte do artista.»87
86Ver: TAYLOR, Karen T. – Forensic Art and Illustration, 2001, p. 359.
87 Tradução livre do autor, do texto: «[...] Of course this is true. However, this methodical approach is the most logical and foolproof way of ensuring that the face grows from the surface of the skull outwards of its own accord and according to the rules of anatomy, and reduces to a minimum the possibility of subjective interference by the artist.» in PRAG, John; NEAVE, Richard – Making Faces: using forensic and archaeological evidence, 1997, p. 30.
Figura 21 – Sequência da construção do rosto, de acordo com o Método Inglês:
segundo Richard Neave, a modelação cuidadosa de cada camada muscular assegura um rosto final concordante com a topografia óssea do crânio.
Perante as considerações apresentadas, não estaremos muito longe da verdade se afirmarmos que as interpretações em torno das escolas estabelecidas conduziram à banalização de conceitos redutores, no que se refere às metodologias utilizadas pelos vários proponentes. Assim, todos os sistemas apresentados, independentemente da denominação adotada, parece terem encontrado um equilíbrio no modo como combinam o conhecimento anatómico com a aferição métrica dos tecidos moles, recorrendo-se, com maior ou menor significado, de ambas as vertentes.
Esta integração, embora um fator de extrema importância no processo de averiguação fisionómica, revelou-se insuficiente na caracterização dos elementos anatómicos específicos. A solução residiu na elaboração de fórmulas que, adicionadas a princípios gerais provenientes de cânones artísticos, auxiliaram a determinação das dimensões e proporções dos caracteres faciais. Atualmente, outros investigadores continuam a dedicar-se à análise dessas metodologias e à elaboração de novas propostas pois, apesar dos relatos de êxito na aplicação das diretrizes propostas, ainda persistem algumas criticas que questionam: o valor científico e falta de clareza de certas normas; a ausência de reprodutibilidade dos procedimentos; e a existência de subjetividade inerente às interpretações artísticas praticadas nos trabalhos de finalização dos semblantes. Estas e outras questões irão ser debatidas no capítulo três.