Parte II – PERSONAS E PERSONAGENS
Nicolau 24 Ano III, N o 24 Curitiba, jun./1989 EDITORIAL
ilha dos mares do sul, Nicolau se debruça sobre o vasto imaginário que o homem acumulou sobre o tema – insular e perplexo ante as des-medidas do continente – nesta edição que se pretende atípica e histórica, para assinalar nossos dois anos de completos navegares, viagem nunca interrompida, nas ondas & águas de cada mês – umas vezes turbulência, outras puro pacífico.
assim a ilha kamaiurá, com sua lenda contada a traço pelo gênio de Flávio Colin, quadro a quadro, lenda a lenda; o sonho de uma utopia esculpida em entusiasmos e malogros, na ilha anarquista, cercada de obscurantismo por todos os lados, da Colônia Cecília, Cec-ilha paranaense refletida por Newton Stadler de Souza e Teixeira Coelho; o ouro-em-pó da ilha simbolista, nenúfares e opalas na lira ícone de Dario Vellozo, Silveira Neto e Emiliano Perneta; as utopias insulares na metáfora em que incide o texto do filósofo Ubaldo Puppi.
mais ao mar: o último ensaio de Paulo Leminski (1945-1989), comovente distinção para com este número aniversário de Nicolau,
tratando, com a sedução de sempre, de uma ilha a ele particularmente cara: a ilha de Mauritstadt ou o que o Brasil poderia ter sido mas não foi;5 no coração tecnológico dos zips & zaps a ilha eletrônica de Lúcia Santaella – lá onde tudo é possível e o impossível é a vida; de nebulosa e quasar o universo-ilha nas jornadas astrônomas de Ronaldo Rogério de Freitas Mourão;
a ilha Nicolau na lente do fotógrafo Carlos “Macacheira” de Aguiar.
maravilhas: a islenha paisagem vista desde o mirante do poeta Jamil Snege; os argonautas de Superaguy sob o alto repertório jornalístico de Rodrigo Garcia Lopes; as ilhas ilhadas dos grafites presidiários colhidos por Sumiva.
e continental, Antilhas, a clássica prece de John Donne (1573-1631) encerra, no destaque à contracapa, a fé num Deus que, para além de toda medida, só tem como ilha a que abraça no peito de um homem a humanidade inteira.
Wilson Bueno
- FONTE: Ano III, n. 24. Curitiba, jun./1989.
p.s.: esta edição é dedicada a memória do poeta Paulo Leminski, pelo entusiasmo com que se somou, desde o primeiro número, ao esforço do projeto Nicolau. E, por extensão, a todos os que criando, transgridem, e transgredidos avançam a História.
Curiosas as circunstâncias em que este "anseio críptico" foi produzido. Leminski empenhou seus últimos dias a preparar, para o número de aniversário de Nicolau, este “travelling didático” sobre o tempo em que fomos, e por um triz não ficamos, Holanda.
Este é seu último texto.
Leminski deixara o texto cuidadosamente datilografado dentro de um exemplar de
Catatau - sua aventura rosajoyceana entre nós, summa e opera máxima. Acompanhado do silêncio dos livros de seu estúdio, onde um calendário Seicho-no-ie permanecia aberto no dia 6, o material estava sobre sua máquina de escrever, com indicações precisas: incluir um fragmento em holandês arcaico do Catatau e uma gravura de Vrijburg. Com sua singular acuidade histórica e humana, Leminski radiografa aqui os anos em que o Brasil viveu o sonho de, um dia, ser um país.
1630-1654: quando fomos HOLANDA
Durante vinte e quatro anos, a parte mais desenvolvida do Brasil de então viveu e prosperou debaixo da competente administração da Companhia das índias Ocidentais, a maior empresa da Holanda, com mais de mil acionistas, lucrando com os produtos da América, em especial, o açúcar, do qual o Brasil era o maior produtor mundial.
Não foi a Holanda que "invadiu o Brasil", como dizem nossos estúpidos compêndios escolares. Foi uma firma, uma empresa de investidores privados. Uma empresa que dispunha de navios, tropas, ocupava territórios, militarmente, e arregimentava alguns dos melhores administradores da Europa.
O Brasil (falo em nome dos tupinambá, dos carijós, dos caingangues, dos ianomani, dos txucarramãe, dos terena, dos tupiniquins, dos xetá, dos cariris) sofreu três invasões: a portuguesa, a holandesa e a francesa. A que deu certo, a lusa, conseguiu se legitimar e deu nisso que está aí.
Mas não resta a menor dúvida que os holandeses da Companhia, no século XVII, trouxeram para o Brasil instituições mais avançadas que as ibéricas: capitalismo (e não
feudalismo cartorial), liberdade de culto e de pensamento, tecnologias superiores. A Holanda, na época, era o país mais livre da Europa (para lá, foi o filósofo francês René Descartes, pai do racionalismo moderno, editar suas obras e respirar o ar puro da liberdade; lá viveu o grande filósofo judeu Spinoza, de origem portuguesa). Na Holanda, não ardiam as fogueiras da Inquisição. As gráficas, as melhores da Europa, publicavam livros em todas as línguas desse continente que é pai e mãe de toda civilização (ao lado da China, da Índia e do Islam).
Depois de uma tentativa fracassada de tomar Salvador (então a capital do Brasil), a Companhia conquista Pernambuco e boa parte do Nordeste açucareiro (Sergipe e Maranhão). A sede do poder holandês no Brasil, porém, foi Recife/Olinda, em Pernambuco, onde os batavos criaram o primeiro centro de civilização européia na América (os Estados Unidos, na época, mal começavam a existir). À frente do empreendimento, a figura superlativa do conde Maurício de Nassau, contratado pela Companhia para administrar as conquistas e reger a guerra.
A Recife/Olinda dos holandeses chamou-se Vrijburg (pronuncia-se "fraiberg"), a cidade livre (the free city). Ao lado desta, Maurício edificou Mauritstadt, a Cidade Maurícia - a primeira cidade da América a ter um traçado arquitetônico regular -, acompanhando pessoalmente o desenho das ruas e dos canais. Nela, Nassau instalou o primeiro jardim botânico e zoológico, só com plantas e animais do Brasil.
Com o conde, vieram para o Brasil pintores e cientistas, como os irmãos Post e o alemão Marcgraf, o primeiro a mapear o novo céu do trópico e a catalogar plantas e animais. Nassau chegou a construir um observatório astronômico em seu palácio, para uso de Marcgraf.
Estamos a mil anos-luz do rude primarismo lusitano que só via no Brasil uma fonte de lucro rápido. Os holandeses da Companhia, sob Nassau, se debruçaram sobre o Brasil, sua flora, sua fauna, seu céu, com um carinho e curiosidade que os portugueses jamais teriam. Em Vrijburg/Recife/Olinda/Mauritstadt, conviveram com Nassau dezenas de escritores holandeses, franceses, ingleses, suecos, judeus de todas as origens, médicos, teólogos, intelectuais, reunindo o máximo de concentração de repertório europeu em toda a América de então (com a possível exceção do México).
Nesse lugar especialíssimo, conviviam lado a lado o templo católico, a igreja protestante e a sinagoga judaica, num clima de igualdade impensável para o mundo lusitano. Então, o rabino Isaac Aboab da Fonseca escreveu o primeiro livro em hebraico
lavrado no Brasil, Zekher asiti leniflaot El ("Erigi um Memorial aos Milagres de Deus"). Um dos principais entre os judeus de Vrijburg chamava-se Jehudah bar Jacob Polaco. Polonês era também o principal homem de guerra de Nassau, o coronel da artilharia chamado Cristoff Artischewsky, o primeiro polonês na história do Brasil (a Polônia era, na época, uma das maiores potências da Europa, baluarte oriental contra as invasões turcas).
VERZUYMT BRASILlEN
Pronuncia-se: fertzóimt. É perdido. Brasil perdido, perdido Brasil. É nome de um poema em holandês de um dos homens de Nassau, depois que o projeto batavo fracassou diante da reação dos senhores de engenho luso-brasileiros que lograram derrotar a Companhia, devolvendo o Brasil à sua condição feudal, obscurantista, medieval, talvez para sempre.
Em 26 de janeiro de 1654, derrotados, em terra e mar, os homens da Companhia capitularam e se retiraram. Quem sabe nesse momento, para mim o mais importante da nossa história, o Brasil perdeu a sua grande chance histórica. A chance de tomar o caminho do capitalismo, que representava o progresso naquela hora. A chance de ter uma sociedade aberta, com menos preconceitos, mais ágil para novos desafios, mais moderna. Em Guararapes, o Brasil selou seu destino de ser nação periférica, dependente, lusitanamente condenada a viver o passado dos outros.
Mauritzius De Brasilianen
René Descartes (1595-1660) veio ao Brasil. Ele não veio, é claro. Em compensação, o maior pensador francês foi oficial de Maurício de Nassau, nas guerras da Europa. Esse Maurício de Nassau é aquele mesmo Mauritzius De Brasilianen, como o chamaram os holandeses. Ele, o primeiro grande estadista a atuar na terra, construiu uma cidade cosmopolita, aqui, em Olinda, em Pernambuco.
Nela, pela primeira vez, mediterrâneos, holandeses, belgas, alemães, polacos, índios, brancos e negros, conviveram em paz, embora. fossem católicos, uns, protestantes, outros, muitos, judeus. Nassau (vieram muitos sábios e artistas com ele) montou o primeiro zoo e horto botânico só com plantas e animais tropicais. Passar-se- iam mais duzentos até que um João VI voltasse a fazê-Io. Neste parque (zoo + horto), localizei Descartes, identificado por seu nome alatinado de Renatus Cartesius.
Suas credenciais: filósofo, matemático, óptico, biólogo, anatomista, discípulo dos jesuítas, espadachim, fidalgo europeu, católico... (isto tudo é rigorosamente verdadeiro, historicamente falado). Fiz com que afundasse na aventura de entender Mundos Novos,
como este, ao mesmo tempo que naufraga na própria linguagem com que tenta realizar a experiência de compreender o Brasil.
Paulo Leminski
Nicolau N.o 24, p. 3 – Seção Mirante