Apêndice I – Análises de Regressão do QVPM sobre a EVA Moderadas pela Nacionalidade
Capitulo 3 – Modelos internos
3.2. Ansiedade de Separação
Como temos visto ao longo de todo este trabalho, o apego à figura de vinculação é uma característica de toda a criança, representando para ela um porto seguro onde ela pode encontrar conforto e segurança sempre que precisar. Assim sendo, podemos imaginar o que ela sente quando esse porto de abrigo ou lugar de segurança e conforto a abandona. Como não podia deixar de ser, a separação acaba por provocar o pânico e o terror da criança que sente que fica sozinha e abandonada e isso para ela acaba por representar e criar uma sensação de morte e de sem esperança. A ansiedade que o abandono provoca na criança pode ser
observado em quase todas as crianças quando são separadas de sua figura de vinculação. Robertson (Bowlby et al., 1952) identificou três fases da resposta da criança à
separação: 1) protesto, relacionado com a ansiedade de separação, 2) o desespero, relacionado com a dor e o luta/perda, 3) a negação ou desligamento, relacionado com os mecanismos de defesa (Bretherton, 1992). Por exemplo, no momento da separação, o choro e os gritos eram a regra. Nesta fase, a criança fica “indomável”, em raiva e agressiva com quem a tente consolar. Esta fase pode durar dias. Depois, na fase do desespero, a criança fica na esperança que a mãe retorne e passando a interessar-se mais por si mesma. Na terceira fase, a criança nega e rejeita a mãe, parecendo ter perdido qualquer interesse por ela, ou mesmo rejeitando-a. Segundo Bowlby (1993a), a fase do protesto traz com ela a angústia da separação; o desespero coloca a questão do desgosto e do luto; e o desapego ou negação seria um meio de defesa para evitar e
lidar com o sofrimento.
O que se observa é que o regresso da mãe, após um período de hospitalização, é visto pela criança com indiferença e como se ela fosse uma estranha, e que são precisas várias horas ou mesmo dias para que a criança volte a apegar-se a ela, muitas das vezes grudando-se a ela e ficando ansiosa com medo de que ela volte a ir embora e mesmo ficando com raiva se percebe que, de alguma maneira, a mãe pretende se afastar. E esta foi a condição que Robertson e Bowlby apelidaram de desligamento ou de negação (Bowlby, 1988).
O desligamento ou a negação seriam assim meios de defesa usados para lidar com a dor da separação. No entanto, e apesar deste aparente desligamento e aparente falta de afeto, a criança, ao fim de algumas horas ou de alguns dias, volta a agarrar-se a sua mãe, mostrando- se ansiosa e com raiva sempre que perceba que ela a pode voltar a abandonar (Bowlby, 1988). Percebe-se que as emoções ficaram reprimidas e que o sistema mental bloqueia a informação, quer na totalidade, quer apenas em algumas áreas seletivas, sem que a pessoa se aperceba disso, desenvolvendo aquilo a que Winnicott (1965) descreveu como falso eu (Bowlby, 1988).
Para complementar, resta dizer que Bowlby (1988) revela que as pesquisas recentes da época mostraram que quando duas ou mais experiências negativas acontecem, elas interagem umas com as outras, multiplicando várias vezes o risco de perturbações psicológicas. E não é apenas o fato das experiências acontecerem e interagirem umas com as outras, mas também o fato de que após se ter tido uma, isso aumenta bastante a possibilidade de se voltar a ter mais. Ou seja, uma experiência negativa torna a pessoa mais vulnerável a experiências negativas posteriores, assim como cria mais probabilidades dela vir a ter essas experiências. E esta situação torna-se particularmente preocupante uma vez que uma mãe que teve uma infância com experiências negativas, e cresceu com um apego ansioso, tem tendência a levar o seu filho também a ser ansioso e a fazê-lo sentir-se culpado ou mesmo fóbico. Ela tem tendência a
negligenciá-lo, a fazer ameças de o abandonar ou mesmo de lhe bater, com os resultados adversos que isso provoca no desenvolvimento da sua personalidade (Bowlby, 1988).
Com isto tudo em mente, nós não podemos esquecer que o importante para estas descobertas foi a observação direta das crianças e das suas mães, assim como a observação da interação entre elas. Sem uma observação cuidada, certamente que estes conhecimentos teriam passado despercebidos. E é aqui que Bowlby (1988) nos chama a atenção para esta observação cuidada e para o trabalho de Robertson, que mostrou que as crianças de 12 a 36 meses, quando afastadas de casa para o hospital ou para uma casa de acolhimento, e sendo cuidadas por pessoas estranhas e em locais estranhos, e sem que ninguém atuasse como mãe substituta, elas acabam por sentir que o cuidado ou maternagem, assim como o contacto humano, deixa de ter qualquer significado para elas. E devido aos seus pais a visitarem e irem embora, ela acaba por se desligar deles e de todos e, uma vez de volta a casa, ela vai ficar distante de seus pais durante muitos dias. A criança acaba por desenvolver este tipo de torpor (alheamento) defensivo em resposta a uma mãe que a “rejeitou”, mesmo sem que tenha havido uma grande separação (Bowlby, 1988). E nós poderíamos acrescentar que uma vez que a confiança em seus pais foi traída, ela dificilmente voltará a ser recuperada. Todo este
assunto poderá ser melhor entendido mais tarde na seção do trauma.
Alguns anos depois, Bowlby ao ler um trabalho de Marris (1958), acerca de como as viúvas reagiam à perda dos seus maridos, ficou perplexo com a semelhança com as respostas que as crianças apresentavam quando da separação. Esta situação o levou a estudar a literatura acerca do luto, em particular no adulto (Bowlby, 1988). O que ele percebeu foi que o luto dura mais de seis meses em adultos mentalmente saudáveis, em vez de apenas dias como alguns acreditavam e que algumas das reações que eram vistas como patológicas, eram na verdade reações de luto saudáveis. Elas incluíam a raiva contra si mesmo e contra os outros, assim
como algumas vezes mesmo contra a pessoa falecida, o não querer acreditar que a pessoa tivesse morrido e muitas vezes uma procura, nem sempre inconsciente, da pessoa falecida na busca de se reunir com ela (Bowlby, 1988).
Portanto, a ansiedade de separação não é apenas uma situação da criança e não é tão inofensiva como se poderia imaginar. Diamond, Hicks, e Otter-Henderson (2008) mostram- nos que mesmo a separação de parceiros românticos durante alguns dias (4 a 7 dias) produz mudanças significativas neles, sobretudo naqueles que ficam em casa, naqueles que têm um apego com alta ansiedade e naqueles que têm pouco contato durante a separação. Estas mudanças alteram o afeto, provocam problemas de sono, provocam estresse subjetivo, provocam sintomas físicos e aumentam os níveis de cortisol (hormônio produzido pelas glândulas supra renais envolvido na resposta ao estresse). As suas descobertas vão no sentido de outros estudos que mostram que a figura de apego tem efeitos reguladores na fisiologia e no afeto da pessoa.
Os autores verificaram que aqueles que mantinham um maior contato durante a separação, fosse por telefone, mensagem, email ou outros meios, tiveram menos mudanças na qualidade das suas interações diárias, demonstrando que o contato pode substituir a interação face a face. Os autores também observaram que, quanto maior a duração das chamadas telefônicas, maior era a atenuação das reações apresentadas, mas isso não acontecia com outros meios de comunicação como as mensagens e emails. No entanto, todos os sintomas eram mais pronunciados nos parceiros que tinham um apego ansioso (Diamond et al., 2008).
Não estamos apenas perante uma ansiedade de separação, mas sim, e sobretudo, perante uma ansiedade de medo da perda, ou de se ser separado de alguém que se ama
(Bowlby, 1988). E até aqui não se sabia porque a separação provocava ansiedade, mas ao que tudo indica essa ansiedade nada mais é do que o medo da perda ou o medo da separação. O
medo sempre aparece nas situações que a pessoa percebe como ameaçadoras ou dolorosas ou quando as situações são percebidas como tais pela pessoa. E aqui podemos nos reportar à etologia, uma vez que o homem, tal como os animais, responde com medo perante
determinadas situações, uma vez que elas elicitam risco ou ameaça. E esta reação de resposta ao medo de uma possível ameaça leva a uma possível resposta exagerada, uma vez que é “a sobrevivência que está em causa”. E a separação ativa este mecanismo de sobrevivência.
E é assim que, muitas das vezes, observamos que a simples ameaça de abandono é um meio de controle bastante poderoso e bastante aterrador para qualquer um. E o mesmo é válido para qualquer ameaça de suicídio, uma vez que aumenta a intensidade da ansiedade de separação. Ademais, esta situação de ameaça de abandono não cria apenas um aumento de ansiedade, mas também provoca muita raiva (Bowlby, 1993a). E esta raiva, verbal ou física, é usada como uma tentativa de dissuasão do outro ir embora ou dele cumprir a ameaça. E como não poderia deixar de ser, toda esta situação acaba por se tornar disfuncional. Bowlby (1988) dá-nos o exemplo de Burnham (1965) acerca de um adolescente que matou a sua mãe: “I couldn't stand to have her leave me” (“Eu não podia tolerar que ela me abandonasse”).
Assim, muitas situações familiares patogênicas podem ser compreendidas à luz da teoria do apego (Bowlby, 1988). E um exemplo disto é quando a criança tem uma relação muito próxima com a sua mãe, tendo dificuldades de desenvolver um relacionamento social fora da família, condição chamada de simbiose. Na maioria dos casos, esta dificuldade da criança pode ser relacionada à mãe, que cresceu num ambiente de apego ansioso devido a dificuldades durante a sua infância e que agora quer fazer com que o seu filho seja a sua figura de apego, invertendo assim os papéis (Bowlby, 1988).
Mas, enquanto a ansiedade de separação é a resposta habitual a uma ameaça ou risco de perda de alguém que se ama, o luto é a resposta após essa perda ter ocorrido. E tal como
Bowlby (1988) nos diz, as perdas ocorridas na infância ou mesmo mais tarde na vida adulta têm um papel importante nos distúrbios mentais, sobretudo nos transtornos depressivos. E ele também nos diz que para entendermos as relações humanas, precisamos de examinar e
entender quer a criação dos laços quer a quebra dos mesmos.
Um dos trabalhos interessantes a propósito da ansiedade de separação em adultos é o trabalho de Diamond et al. (2008), que estudaram as mudanças de afeto, o comportamento e as respostas fisiológicas quando da separação, devido a viagem, de parceiros românticos. Este estudo, efetuado com 42 casais durante 21 dias verificou as reações à separação de 4 a 7 dias. Eles observaram que surgiram muitas alterações, quer antes da separação, quer durante a mesma, até novamente à reunião dos parceiros. Estas alterações verificaram-se nas interações, no afeto positivo e negativo, perturbações do sono, estresse subjetivo, sintomas físicos e alterações no nível do cortisol. Eles também verificaram que as alterações eram muito mais pronunciadas no parceiro que ficava em casa, nos parceiros que tinham maior ansiedade de apego, e nos parceiros que tinham menos contato com o parceiro durante a separação. Também foi verificado que essas alterações não tinham a ver com a duração da relação, nem com a satisfação da mesma, nem com a quantidade das separações, nem com a presença de crianças em casa. No entanto, todos os sintomas eram aliviados pelo contato remoto, sendo que a conversa telefônica tinha um maior efeito na diminuição dos sintomas do que
comunicação por mensagem de texto ou por e-mail.
Percebemos assim que a ansiedade de separação não é exclusiva das crianças, mas que está presente nos adultos com a mesma força e intensidade. Os autores mostraram que essa ansiedade de separação provoca também nos adultos perturbações no sono, nos níveis do cortisol, no humor, no estresse que ele vive e sente, e nas relações que o adulto tem com os outros à sua volta.
Na sequência da ansiedade de separação, resta salientar que os instrumentos que medem o apego ou a vinculação se baseiam muitas das vezes na percepção que a pessoa tem acerca de como é ou de como foi a sua relação com o outro. A título ilustrativo, veja-se Canavarro (1995), que criou a Escala de Vinculação do Adulto que mede a ansiedade, o
conforto com a proximidade e a confiança no outro. Também Matos e Costa (2001) criaram o Questionário de Vinculação ao Pai e à Mãe, que mede a qualidade do laço emocional, a inibição de exploração e individualidade e a ansiedade de separação. Também Hellinger
(2007) discorre sobre o movimento interrompido quer em direção à mãe quer em relação à vida e ao sucesso. Todos estes autores nos falam sobre como nós vemos e sentimos a nossa relação com o outro e, mais concretamente, com os pais, e como nos comportamos em relação a eles. De algum modo, todos são unânimes em mostrarem que a maneira como nos
relacionamos hoje, de alguma maneira, está relacionada com os movimentos e desejos iniciais, na infância, que tivemos em direção aos nossos pais e em direção à vida.
Desta forma, o conforto que agora sentimos, ou que não sentimos, na nossa proximidade com o outro, nada mais é do que o conforto que sentimos no passado com os nossos pais. Igualmente, os movimentos que temos hoje em direção à vida e ao sucesso são apenas uma reprodução daqueles movimentos que, quando crianças, tivemos ou que não tivemos em direção à exploração do meio ou em direção aos nossos pais. E é aqui que surge a inibição de exploração e a falta de individualidade, características de um apego inseguro. Percebemos assim a importância do apego, mas sobretudo das consequências de um apego inseguro e/ou de um relacionamento com um cuidador que não conseguiu, ou que não
consegue fornecer os meios para que um apego seguro se desenvolva devido aos seus próprios problemas de infância e outras limitações que possa ter. Lembramos que infelizmente todos nós temos limitações e que os pais não são diferentes. Mas, o que convém salientar é que eles,
mesmo assim, e com as suas limitações, se disponibilizaram a dar-nos o seu melhor e a fazer o seu melhor por nós e para nós. E por isso devemos estar-lhes profundamente gratos. E se possível devemos tentar fazer melhor do que eles pois tudo o que os pais desejam (e nós também) é que os filhos façam melhor e sejam felizes. E quando os filhos fazem isso, os pais podem considerar cumprida a sua missão. E aqui podemos ver o quanto amor eles têm e o quanto amor existe na família.