4 A OMC E A PROPRIEDADE INTELECTUAL
4.1 ANTECEDENTES DO ACORDO TRIPS
Durante os anos 70, os países industrializados, liderados principalmente pelos Estados Unidos, Canadá e os países da Europa Ocidental, começaram a perceber que os tratados e convenções internacionais sobre propriedade intelectual necessitavam de mecanismos efetivos de verificação do cumprimento de obrigações e de deveres, além de mecanismos de solução de disputas entre os Estados. Já na década de 80, os países em desenvolvimento começaram a questionar cada vez mais a visão dos países industrializados sobre propriedade intelectual. De um lado, os países desenvolvidos buscavam a revisão das convenções internacionais para garantir um sistema de cumprimento das obrigações relativas ao tema, de outro, os países em desenvolvimento procuravam garantir que estas revisões atendessem às suas necessidades, como a retenção das licenças compulsórias e a administração das compensações pagas aos autores. Nos anos 70 e 80, acentuou-se duas perspectivas distintas entre estes dois grupos de países. Os desenvolvidos afirmavam que a propriedade intelectual era um direito privado, o qual deveria ser protegido como qualquer outro tipo de propriedade material. Já os Estados em desenvolvimento, sustentavam que a propriedade intelectual era um bem público e deveria ser usada para garantir e promover o desenvolvimento nacional (BASSO, 2000).
Neste período, diversos países em desenvolvimento começaram a reformar suas leis de patentes, como por exemplo a Índia, o Brasil, a Argentina e o México. Tais reformas pretendiam aprovar leis que diminuíssem o direito de patentes
na área farmacêutica, visando alinhar a propriedade intelectual com os interesses nacionais destes países. Com estas novas políticas, as indústrias de medicamentos genéricos nestes países começaram a apresentar uma ameaça aos carteis farmacêuticos dos países desenvolvidos que dominavam o cenário internacional nesta área (DRAHOS, 2002a). As indústrias americanas farmacêuticas, como a Pfizer, tinham grande necessidade da proteção da propriedade intelectual, já que as patentes representavam a estrutura destas empresas e eram objetos de altos investimentos. Além disso, estas empresas tinham a intenção de expandir a produção de seus medicamentos para outros países e para isso, precisavam garantir que suas patentes fossem respeitadas e protegidas (DRAHOS, 1999).
Ainda nos anos 80, o setor privado americano liderou o movimento para um novo sistema multilateral de propriedade intelectual que representasse seu interesse com relação a esta matéria. Os principais setores industriais americanos, como o farmacêutico, químico, de entretenimento e de software, pressionavam para nova abordagem internacional da propriedade intelectual, a qual garantisse um nível de segurança a estes grupos. Além disso, com o avanço tecnológico e a sua revolução ligada à comunicação e informação, a proteção da propriedade intelectual ganhou um novo estimulo em discussões políticas (MAY; SELL, 2006a). A propriedade intelectual tornou-se uma questão comercial por várias razões, segundo o ponto de vista dos países desenvolvidos. As indústrias baseadas no conhecimento começaram a crescer durante os anos 80 nos países desenvolvidos, além disso, o comércio internacional de produtos de alta tecnologia também obteve grande progresso. Nesta década, os governos dos países industrializados notaram que a proteção inadequada da propriedade intelectual em países importadores reduzia a vantagem competitiva de suas empresas exportadoras. Diante deste cenário, apesar dos produtos falsificados serem uma questão importante no sistema multilateral internacional por um longo período, com o desenvolvimento de tecnologias de duplicação cada vez mais avançadas e baratas, o comércio de produtos que incorporavam tecnologia e conhecimentos “roubados” tornou-se progressivamente uma questão polêmica internacionalmente (HOEKMAN; KOSTECKI, 2009).
De acordo com Drahos (1999), durante este período os Estados Unidos reestruturaram suas leis comerciais internacionais para alinhá-las a estratégias de observância para a sua aplicação nos países que eles consideravam ter um nível inadequado de proteção da propriedade intelectual ou tinham uma baixa
observância destes direitos. Em 1984, os Estados Unidos, emendaram o seu Trade Act de 1974 para incluir a propriedade intelectual, ficando esta emenda conhecida como Section 301. Após alguns anos, o país publicou o Omnibus Trade and Competitiveness Act of 1988, aumentando a proteção da propriedade intelectual com o acréscimo do processo Special 301. Estas estipulações exigiam que o Office of the United States Trade Representative (USTR) identificasse os países com as deficiências mencionadas acima e detectasse o nível da violação destes países com relação aos interesses americanos sobre propriedade intelectual. Após esta etapa, os Estados Unidos entravam em negociação com os países para solucionar estes problemas, se esta etapa falhasse, os Estados Unidos poderiam impor sanções comercias até que o entrave fosse resolvido. Este assunto será abordado mais especificamente no capítulo seguinte, junto com as políticas americanas de propriedade intelectual.
A Comunidade Europeia, em 1984, criou um sistema similar ao americano para tratar de assuntos comerciais, conhecido como Council Regulation 264/84, porém não foi tão ativa quanto os Estados Unidos, pois a Comissão Europeia encontrou dificuldades de obter um consenso em relação ao uso deste sistema. A Comissão Europeia se posicionou contra a Indonésia e Tailândia por pirataria de álbuns, além de suspender os privilégios do Sistema Geral de Preferências da Coréia do Sul, porque o país não estava fornecendo uma proteção suficiente da propriedade intelectual. Um dos únicos países industrializados que não pressionou países em desenvolvimento unilateralmente foi o Japão, inclusive, tal país chegou a ser alvo de pressões dos Estados Unidos em 1984, pois o Ministro da Indústria e Comércio Internacional do Japão estava com propostas de proteger os softwares com proteção sui generis (DRAHOS, 2002a).
O uso da ameaça unilateral utilizada pelos países desenvolvidos pode ser em parte explicado pelo fato da Corte Internacional de Justiça (CIJ), o principal meio de solução de conflitos na área antes da criação da OMC, necessitar do acordo entre ambas as partes envolvidas de submeter o caso à CIJ. Além disso, muitos países que foram submetidos a estipulações como a Special 301 não eram signatários das principais convenções internacionais sobre propriedade intelectual, portanto, a opção de submeter o caso à CIJ não existia (HOEKMAN; KOSTECKI, 2009).
Até o inicio da Rodada do Uruguai, em 1986, o tema da propriedade intelectual ainda não tinha ganhado relevância nas rodadas de negociações anteriores do GATT, principalmente porque os países em desenvolvimento apresentavam grande resistência à inclusão deste tema nas negociações. Porém, com a possibilidade da expansão da apropriação tecnológica e também da pirataria, os governos dos países desenvolvidos precisaram agir para atender os interesses de suas corporações nacionais. Um grupo de corporações americanas criaram o Intellectual Property Committee (IPC), com o objetivo de pressionar o governo americano para colocar o tema na agenda de negociações do GATT, além disso, o grupo forneceu especialistas legais no assunto para fazer parte das negociações. O IPC influenciou não somente o governo americano, mas também os países Europeus e o Japão da importância da inclusão da proteção da propriedade intelectual nas negociações da Rodada do Uruguai (MAY; SELL, 2006a).
Drahos (1995) afirma que o IPC era dirigido pelos CEOs das corporações que compunham o grupo, as quais eram Briston-Myers, Du Pont, FMC Corporation, General Eletric, General Motors, Hewlett-Packard, IBM, Johnson & Johnson, Merck, Monsanto, Pfizer, Rockwell International e Warner Communications. A estratégia do IPC era criar um consenso com as grandes corporações europeias e japonesas da importância da inclusão da propriedade intelectual nas negociações do GATT e com isso, tais corporações iriam pressionar seus respectivos governos para este assunto ser contemplado na Rodada do Uruguai.
Segundo Basso (2000), a inclusão da propriedade intelectual na Rodada do Uruguai, partiu da premissa de que elevando a proteção destes direitos, o poder de mercado e o comércio mundial também aumentariam. As multinacionais se sentiriam mais seguras em transferir suas tecnologias e aumentariam os seus investimentos nos países em desenvolvimento. Contudo, a inserção deste tema encontrou oposição de vários países em desenvolvimento, principalmente do Brasil e da Índia, os quais afirmavam que a jurisdição do GATT estava limitada aos bens tangíveis, sendo de competência da OMPI de tratar da propriedade intelectual.
O Conselho do GATT nomeou, em 1985, uma Comissão Preparatória para definir os temas da Rodada do Uruguai, os quais eram amplos e incluíam a propriedade intelectual. Em 1986, a Comissão submeteu três propostas aos Ministros do GATT, a proposta submetida pela Colômbia e Suíça incluía a propriedade intelectual e os serviços, já a proposta da Argentina, incluía os serviços
e excluía a propriedade intelectual. Por fim, a proposta apresentada pelo Brasil e outros países excluía ambos os temas. A proposta aprovada para servir de base para a Declaração Ministerial de 1986, a qual deu origem à Rodada do Uruguai, foi a da Suíça e Colômbia, aprovada por quarenta delegações. Apesar da resistência dos países em desenvolvimento por mais de vinte anos de tratar a propriedade intelectual no GATT, acabam por aceitar este foro para elaborar padrões de proteção, medidas de observância e sanções relativas à este tema (BASSO, 2000).