Antecedentes e construção de uma crise anunciada

No documento Governança dos recursos hídricos e eventos climáticos extremos : a crise hídrica de São Paulo (páginas 145-149)

m³/hab.ano (vazão média)

6.4 Antecedentes e construção de uma crise anunciada

A situação enfrentada por São Paulo pode parecer novidade, mas analisando o histórico recente da região a diferença está apenas na intensidade do fenômeno. Nos últimos 20 anos, a população de São Paulo passou por três racionamentos declarados. Em 2003, devido a uma estiagem intensa no período de junho a setembro os reservatórios do Cantareira e Alto Cotia chegaram a suas, até então, mínimas históricas. Como enfrentamento principal, a SABESP e o governo do Estado, já sob o comando de Geraldo Alckmin, colocou em funcionamento um rodízio na distribuição de água. Durante dois meses cerca de 440.000 pessoas que eram abastecidas pelo Sistema Alto Cotia tiveram restrições no abastecimento. A população que era abastecida pelo Sistema Cantareira, com o nível de reservatório chegando a níveis mais baixos historicamente. A matéria na Folha de São Paulo, de 12 de outubro de 2003 já alertava:

“A crise de água que a Grande São Paulo vive hoje não é a primeira nem será a última. Por causa de limites naturais na disponibilidade hídrica, da poluição de rios e represas, da ocupação desordenada de mananciais, do descaso no uso e da falta de políticas eficientes para reeducar o consumo e reduzir perdas, a região só tem água garantida até 2010”28.

Em janeiro de 2010, no auge do período chuvoso no Sudeste, as represas que compõe o Sistema Cantareira chegaram a um nível próximo ao limite operacional. Pela terceira vez, como em 1985 e 1999, havia o risco de transbordamento das represas por causa do excesso de armazenamento e de chuvas. O então prefeito de uma das cidades a jusante declarou “Não estávamos preparados para o risco de abertura das comportas. Não temos qualquer plano de emergência elaborado. Não temos sequer uma Defesa Civil estruturada”. Assim como este caso, a situação era semelhante em grande parte das cidades abaixo das represas. Sem plano de emergência, estrutura ou processos definidos para o que fazer em casos como esse, afirmavam que haviam sido pegos de surpresa pelo alerta da SABESP.

A situação era dramática para as cidades a jusante, que já tinham alguns bairros alagados e moradores sendo retirados de suas casas, e temiam a abertura das

28 SP só atende demanda por água até 2010. Folha de São Paulo. 12 de outubro de 2013. Disponível em

comportas das represas. No dia 30 de janeiro, o nível do reservatório da represa de Jaguari chegou a 99,8% de sua capacidade. Alguns dias depois, moradores de um condomínio residencial, em Atibaia, que estavam com suas casas alagadas resolveram fazer “gestão hídrica” com as próprias mãos. O bairro, construído em área de várzea às margens do Rio Atibaia, fica localizado a 1 km acima de uma usina hidrelétrica de um centro empresarial.

“Homens e mulheres se organizaram em caminhonetes tração 4X4 importadas e jipes para chegar à usina, em meio a uma trilha de mata fechada, ao lado da Rodovia Dom Pedro. Seis homens com cordas ajudaram a puxar a madeira da comporta. Por volta das 8h desta sexta- feira (29), moradores comemoravam e diziam que o nível do rio e das ruas alagadas só não subiu mais durante a madrugada, após novas chuvas, por causa da abertura forçada da comporta”29.

O que estes episódios distintos demonstram é que uma crise hídrica, seja por excesso de água ou pela escassez, não tardaria a acontecer. A aprendizagem política dos órgãos gestores, se internalizados os aprendizados a partir das experiências vivenciadas, deveria impulsionar mudanças significativas na gestão dos recursos hídricos em casos semelhantes. Como será demonstrado, tais eventos não foram suficientes para desencadear mudanças institucionais profundas na governança hídrica. A análise da governança à luz destes eventos anteriores não é o foco desta tese, mas as evidências demonstram que talvez o padrão se repita de tempos em tempos como a crise hídrica mais recente demonstrou.

6.4.1 Plano Diretor de Abastecimento Urbano da RMSP

A macro metrópole paulista engloba as Regiões Metropolitanas de São Paulo, Campinas, Baixada Santista e Vale do Paraíba. Além destas, também fazem parte os aglomerados urbanos de Jundiaí, Piracicaba e Sorocaba. Os 180 municípios possuem

29Moradores de Atibaia abrem comportas de usina. Agência Estado. 30 de janeiro de 2010. Disponível em: http://g1.globo.com/Noticias/Brasil/0,,MUL1469673-5598,00-

MORADORES+DE+ATIBAIA+ABREM+COMPORTAS+DE+USINA.html>. Acesso em 22 de fevereiro de

uma área de 52 mil km², com 30 milhões de pessoas. O Plano Diretor de Abastecimento de Água da Região Metropolitana de São Paulo (PDAA), iniciado em 2008 e finalizado em 2013, teve como objetivo analisar alternativas para o abastecimento e novos mananciais para a região até 2035. O foco principal do trabalho foi a identificação de novas fontes de água para atendimento das demandas da macrometrópole. No plano, há o reconhecimento da criticidade da disponibilidade hídrica da região, bem como já apontavam as dificuldades dos arranjos institucionais prováveis para minimizar o conflito entre as duas regiões. A construção das duas barragens em Pedreira e Amparo, por exemplo, já era uma demanda antiga das cidades integrantes das bacias PCJ e cobrados na apresentação do plano junto ao comitê PCJ.

O PDAA elaborou distintos cenários para demanda e expansão da oferta hídrica para a RMSP.O Desenvolvimento do Plano foi motivado pelas condições meteorológicas de 2001 a 2003, que levaram a uma criticidade das disponibilidades hídricas do Sistema Cantareira e também como condicionante da Outorga de 2004 do Sistema. O plano elencou dez arranjos de abastecimento foram propostos como viáveis a partir de uma série de premissas30. A proposta da Sabesp era de aumentar a retirada de água dos então 33 m³/s para 40 m³/s. O Plano diretor de Águas para a RMSP de 2003 previa um investimento menor para o período subsequente. A justificativa era de que os investimentos em redução de perdas, novas tecnologias de água de reuso e gestão de demanda seriam mais custo-efetivos e indicavam um abandono da estratégia das obras para captação de novos mananciais. A expansão da oferta de água contava com cinco obras escolhidas até o ano de 2025. Entre 1995 e 2002 a Sabesp gastou R$ 2,6 bilhões para a produção de água. Mesmo com um orçamento menor, de R$ 2,2 bilhões de gastos para o período até 2025, a companhia previa que iria conseguir aumentar a oferta em 18,3 m³/s através de redução de perdas.

30 Projeção da População de 22 milhões de pessoas em 2025. Meta de perda de ligação de média de

300l/lig. dia em 2025. O consumo teria uma redução incremental de 2% a partir de 2010. O consumo público teria uma redução de 20% a partir de 2005. A projeção da demanda foi definida como 81,39/s em 2025, sendo 80,8 m³/s de sistema integrado e 3,6 m³/s de sistemas isolados.

Quadro 15 - Obras de ampliação da oferta hídrica do PDAA

Fonte: Sabesp (2013)

A sequência de obras previstas iniciaria com o bombeamento do Rio Taquacetuba para Guarapiranga (1,7 m³/s) e a ligação da represa de Biritiba-Mirim e Paraitinga (5,6 m³/s). Posteriormente, uma ligação do Rio Pequeno com o Sistema Rio Grande (2,3 m³/s). Por último o aproveitamento dos rios Juquiá e Juquitiba (4,7 m³/s), Itapanhau (2,8 m³/s) e Itatinga (2,1 m³/s). Cabe lembrar que os dois últimos são rios inseridos dentro de áreas protegidas e de grande função ecológica para o litoral sul, como veremos mais adiante31. No entanto, com exceção do Sistema São Lourenço, nada foi executado. A situação de limite dos mananciais ficaria escancarada nos anos seguintes com a maior crise hídrica do país.

31 Sabesp reduz gasto com água até 2025. Folha de São Paulo. 13 de março de 2004. Disponível em

<http://www1.folha.uol.com.br/fsp/cotidian/ff1303200401.htm> Acesso em 14 janeiro de 2018.

BACIA MANANCIAIS Aumento de Vazão (m³/s)

Garantida 95% Alto Tietê (Remanescentes) Alto Tietê 5,9 Rio Grande 2,2 Billings 2,2 Diversos (pequenos mananciais) 0,9

Alto Tietê Itapanhaú 2,8

Itatinga 2,1

Guarapiranga – Billings Capivari – Monos 2,0

Juquiá Alto Juquiá 4,7

Rio São Lourencinho 30,0

Ribeira de Iguape / Baixo Juquiá 30,0

Rio Paraíba do Sul Rio Paraíba do Sul 5,0 e 10,0

Represa Paraibuna 5,0 e 10,0

Represa Jaguari 5,0; 10,0 e 15,0

Médio Tietê Represa Barra Bonita 10,0; 20,0 e 30,0

No documento Governança dos recursos hídricos e eventos climáticos extremos : a crise hídrica de São Paulo (páginas 145-149)