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5 – Emoção, corpo e civilização no pensamento de Norbert Elias

6. Aportes e limites das teorias e conceitos analisados

Com relação ao termo “emoção religiosa”, conquanto não seja utilizado pelos cientistas sociais em questão, é deduzido, uma vez que ocorre no contexto religioso e é atribuído a um determinado deus. Tal emoção pode ser entendida como uma somatória de emoções como alegria, vergonha, medo, que culminam, por exemplo, com o prazer dos fiéis que têm a sensação de dever cumprido e experiência concreta com a divindade. A emoção religiosa é assim chamada por ocorrer no ambiente religioso e dar a sensação aos fiéis que é proveniente de um deus, contudo Weber indica que ela é uma derivação direta da acentuação dos elementos que compõem o habitus e a subjetividade de cada indivíduo. Assim, depois de experimentado este estado emotivo, as crenças são atualizadas e muitas convicções individuais e coletivas são reforçadas, exemplificando, cada crente passa a ter a certeza de que na experiência de conversão, arrependimento, perdão, justificação e reconciliação o Ser Divino está presente e confirma cada ato.

Somando-se a isso, após o intenso prazer decorrente da emoção religiosa cada membro da comunidade sente ânimo para continuar crendo e vivendo, tem os seus interesses materiais e afetivos confirmados, também como, é tomado por grande entusiasmo para agir conforme as prescrições da religião, para compartilhar com os/as companheiros/as sua experiência e para separar-se cada vez mais do mundo material. Portanto, todas as ações sociais que se derem após o fervor emocional serão variavelmente reformuladas, transformando, conseqüentemente, as relações sociais posteriores dos indivíduos que passaram por essa experiência.

Esta emoção religiosa, tal como as demais, é compreendida como recebida pela via social, interiorizada e objetivada. Uma vez que resulta da sociedade, influi nos sistemas orgânicos e psíquicos das pessoas produzindo sensações físicas e certezas ao grupo. Deste modo, na ótica de Durkheim, quando os indivíduos se reúnem para um culto qualquer, as emoções são suscitadas nas pessoas e, após serem exteriorizadas, reafirmam os sentimentos coletivos. Por outro lado, cabe ressaltar, à semelhança de Mauss e Weber, que as emoções são re-significadas, dinamizadas e atualizadas pelos indivíduos ao vivenciá-las e compartilhá-las com o grupo social. Em outros termos, as

experiências emocionais vivenciadas particularmente são compartilhadas coletivamente em um sistema de trocas que vão formando e re-formando os sentimentos do grupo.

Na perspectiva de Durkheim e Mauss a categoria emoção é um fundamento subentendido nas sociedades e nos indivíduos que as compõem. Ela não é tratada, em última conseqüência, como uma das dimensões indispensáveis para os estudos que visam compreender o ser humano, mesmo porque as intenções dos trabalhos propostos por estes autores são outras.

Fica evidente, nos livros e artigos abordados, uma ênfase na sociedade ou numa força coletiva produzida pela interação de indivíduos e que se torna maior e quase imperceptível para as pessoas. Mauss, contrariamente à Durkheim, ainda é capaz de supor uma relativa autonomia dos indivíduos e que dá uma abertura à idéia de intersubjetividade, porém a influência da coletividade se apresenta inegável. Entretanto, é Weber e Elias que demonstram a dificuldade de se apontar o domínio de um sobre o outro.

Talvez seja preciso considerar a abordagem maussiana sobre a relação entre a sociedade e os indivíduos, e ir além no sentido de compreender que esta ocorre em meio a complementaridades, desintegrações, equilíbrios, desequilíbrios, isto é, entre tensões, como salienta Weber. Sendo assim, qualquer postura determinista poderia se tornar extremamente reducionista de uma questão tão complexa.

A emoção, seguindo este raciocínio, precisa ser locada neste meio abstruso. Por isso, quando se discorre sobre a variabilidade, especificidade e condicionamento da emoção ao tempo, lugar e inter-relações faz-se necessário considerar esta constatação com uma ênfase maior em razão das relações continuamente tensas entre indivíduos e sociedades.

Após as análises feitas de determinadas reflexões de Max Weber, algumas conclusões sobre a emoção religiosa podem ser obtidas. Primeiramente, ela é gerada da conflituosa interação entre os indivíduos que fazem parte de uma dada comunidade e desta em sua relação com a sociedade de modo geral, logo implicações sociais e

repercute na sociedade. Além disso, o próprio intercâmbio interpessoal é resultado de ações sociais que são produções e produtos da subjetividade humana.

O grupamento facilitador da criação e desenvolvimento desta emoção é a comunidade religiosa, pois nela são compartilhados, por meio de ações e inações, valores diversos, interesses, tradições, representações simbólicas, anseios, sentimentos de pertença e diferença etc. Em outros termos, valendo-se das contribuições de Elias, um habitus é adquirido, interiorizado e objetivado pela via social, mas cada membro da confraria expressa esta “aquisição” de maneira variada em razão das relações sempre tensas e conflituosas entre os partícipes que vivem em meio à racionalidade e à subjetividade.

Desta relação entre indivíduo e comunidade surge também a idéia de carisma como uma força supra-sensível, concedida por Deuses ou Espíritos, às pessoas.38 Assim,

elas são capacitadas e qualificadas a gerenciarem os bens simbólicos, a cuidar de cada membro, a coordenarem cultos às divindades, enfim a realizarem tudo aquilo que diga respeito à fé.

Uma vez que existe um portador do carisma, então é ele quem provoca o despertamento da emoção religiosa no culto, seja no momento da “cura de almas”, na condução ao êxtase ou ao transe. Contrariando as exigências do ascetismo racional do puritanismo calvinista, tal experiência é fruto direto da necessidade de sentir Deus e a salvação pessoal. Além disso, ela vem corroborar os interesses pessoais e coletivos, dentre os quais, o de poder desfrutar da salvação no presente. Como exemplo, este desfrute pode ser traduzido em benefícios espirituais que proporcionam um relacionamento familiar saudável, vida financeira estável, saúde física, sucesso profissional e acadêmico, entre outros.

Uma outra idéia concernente à emoção, que se pôde aferir nas discussões feitas por Norbert Elias, indica tratar-se de uma expressão e linguagem coletiva. Esta é mobilizada por valores morais, estados afetuosos e sentimentos produzidos pela

interação entre o grupo e o indivíduo. Além do mais, as emoções são expressões identitárias importantes no processo de coesão do grupo.

Corroborando a constatação de Elias e ampliando-a tem-se a afirmação maussiana de que os gestos e movimentos corporais praticados pelas pessoas de um grupo num culto comunicam às demais a experiência emocional com a Divindade e proporciona um sentimento de unidade e pertença. Outras sensações experimentadas nestes eventos são o reconforto moral, fortalecimento da fé, ânimo, paz, serenidade, entusiasmo e impulso para crer e viver. Conseqüentemente, quanto mais intensa for a emoção religiosa, mais duradouros serão os sentimentos mencionados, mais coeso e unido o grupo, mais afinadas as técnicas corporais como demonstrações emocionais que conferem identidade.

Segundo os estudiosos mencionados, a interiorização e objetivação da emoção religiosa são importantes para o desenvolvimento de uma crença, pois ela torna viva e presente a fé, o rito, a tradição, os ideais e as histórias. A este dado precisa ser acrescentado que no contexto religioso contemporâneo, ao qual cada indivíduo escolhe sua religião e não está tão ligado às tradições, a emoção religiosa é construída, exteriorizada e despertada prioritariamente pelas necessidades individuais e alguns desejos coletivos, e uma vez manifesta, afeta a todos os participantes do rito.39 Assim, a tradição, também como, as histórias e ideais que a reforçam, possivelmente ficam para um segundo plano.

Ao analisar os estudos de Durkheim, Mauss, Weber e Elias encontram-se limites nestes trabalhos. Dentre estes indicam-se os seus objetivos concernentes às suas pesquisas sobre grupos religiosos específicos e os contextos sociais ao qual fazem parte. Ambos acabam por condicionar a maneira pela qual observam a realidade e os objetos de estudo. Aliás, estes dois apontamentos também acompanham o trabalho dos estudiosos contemporâneos da religião. Possivelmente um outro aspecto a se considerar nos estudos atuais é que se lida na modernidade com religiões em constante e célere mutação.