Se esse raciocínio estiver correto, um dos bons investimentos para assegurar o seu futuro é saber ler com competência. Isso porque ler um livro sério não é um processo intuitivo. É preciso aprender direitinho como se faz.
Na verdade, a tarefa não é tão simples quanto parece. Uma pesquisa muito citada, feita com alunos de Harvard, mostrou que a maioria não sabia achar a ideia central em um texto sério e bem escrito. Ora, se essa é considerada a universidade número um no mundo, isso significa que o problema atinge quase todos.
Obviamente, há escritos e escritos. Muitos são pobres ou toscos. Outros são carentes de ideias centrais, ou, se as têm, são tortuosas ou estão mal desenvolvidas. Mas não é deles que falamos. Aliás, por que ler livros irrelevantes, havendo tanta coisa boa por aí?
Para nos ensinar a ler, aprendamos com o filósofo Mortimer Adler, por muitos anos redator chefe da Enciclopédia Britânica. E, também, autor de uma obra conhecida, Como ler livros, escrita na década de 1940. É um livro recordista de vendas e que continua sendo reeditado até os dias de hoje. A reputação do autor e o mero fato do livro ter uma sobrevida de meio século sugerem ser uma boa escolha.
Inicialmente, é preciso entender que há duas maneiras de ler: ativa e passiva. Aliás, registramos essa mesma diferença entre estudo ativo e passivo – que reaparece várias vezes neste livrinho. E não é por acaso, pois é uma diferença fundamental. Na leitura passiva, as palavras vão sendo decifradas e as informações empilhadas na nossa memória. Para leituras mais simples ou puramente informativas, nada errado com isso. É assim mesmo. Uma receita de bolo é uma lista de ingredientes, seguida dos procedimentos. É uma questão de ler e repetir na cozinha o que está escrito. Meio quilo de farinha, duas gemas, mais 250 gramas de manteiga e assim por diante. Algumas etapas podem ser críticas na cozinha, como o ponto da calda de um doce. Mas a dificuldade não está na leitura – que não requer muito esforço mental. Basta a memória.
Ou, então, lemos um roteiro de viagem, com a descrição de tudo que há de interessante pelo caminho. Se for um lugar aonde você pensa em ir, vai registrando as informações na memória, sem que haja algum desafio de entender ou decifrar. Não é muito diferente de ler uma lista de supermercado. Nada a entender, nenhum obstáculo maior.
Aliás, se você ler um livro e, facilmente, entender tudo, isso significa que não oferece mais do que informação. Do ponto de vista de ideias, é um livro pobre. Pode ser supremamente útil, como um catálogo telefônico, mas não se embrenha na aventura das ideias. Sua leitura é inevitavelmente passiva. De fato, a leitura passiva não promove uma real compreensão do assunto, se é que há alguma ideia a ser dominada.
Contudo, se um livro lida com ideias, uma leitura ativa praticamente se impõe.
Mas também, é da natureza de uma leitura ativa colocar o leitor na posição de alguém que examina criticamente o que está escrito, tentando encontrar falhas. A lógica está certa? Os fatos militam a favor das ideias defendidas? O quadro que ele descreve bate com a sua experiência vivida?
Frequentemente, jornalistas e escritores devem comentar livros e artigos, a pedido de jornais ou de revistas. Para redigir seus ensaios, devem lidar com perguntas do
tipo: Qual a mensagem principal do autor? Isso está certo? Concordo com esse argumento? As fontes usadas para as informações são boas? Tais profissionais, ao receberem suas incumbências, necessariamente, entram em um modo ativo de ler. Se não tiverem nada de interessante a dizer, mais cedo ou mais tarde vão perder o emprego. Pesquisadores também respondem a perguntas semelhantes, comentando os trabalhos de seus colegas. Mal comparando, é assim que se lê um livro, garimpando críticas ou concordâncias.
Suponha que você esteja lendo sobre D. João VI e sua vinda para o Brasil. Ao fluir das páginas, vá formulando suas perguntas. Ele tinha a opção de ficar em Lisboa? Que preparo tinha seu exército? Como estavam as tropas de Napoleão? Por que o embarque foi tão improvisado? Ele era realmente uma pessoa tão indecisa quanto afirmado por alguns historiadores? Quando Laurentino Gomes afirma que, no fundo, D. João era mais sabido do que se pensa, será que ele tem razão?
Isso tudo requer bem mais do que depositar fatos e datas na memória. A leitura ativa requer iniciativa, requer atenção. É o esforço de pensar. É um diálogo imaginário com o autor. Obviamente, dá mais trabalho, porém, gera um nível de compreensão muito mais profundo. Assim, quando falamos de leituras com substância, o convite à leitura ativa não é para ser rejeitado.
Em certas situações, o objetivo de ler um livro pode ser conseguir informações sobre esse ou aquele assunto. Precisamos saber como operar o novo DVD, qual botão serve para quê. Ou conhecer a melhor rota para chegar em determinada cidade. Mas não é disso que estamos falando.
Aliás, não estamos falando de leituras de contos, romances ou ficção em geral. Nesse tipo de livro, a maneira de ler é drasticamente distinta. Neles, o processo é para ser linear e tem que ser assim, para acompanhar a narrativa. Página por página, somos conduzidos pelo autor nos meandros de seu enredo. Ele precisa criar o clima, descrever o mundo no qual seus personagens atuam. Além disso, um bom romance tem elementos surpresa. Não sabemos o que vai acontecer e isso é parte da graça de um romance. Se saltarmos as páginas para ver o desenlace, o livro perde o interesse.
Mas é bicho diferente um livro de biologia, física, economia ou psicologia. Nele, a melhor leitura não é linear, começando da primeira página. Afinal, esse tipo de livro não deve conter surpresas ao longo da leitura.