V. OS ESTUDANTES
5.1. I RENE
5.3.3. Aprender o sentido da vida
A luta de Marcélia para permanecer na faculdade, mesmo com a ocorrência de situações que reiteram sem cessar o caráter de “inclusão-excludente” de sua condição estudantil, aponta para o fato de que ela procura na formação universitária a satisfação de necessidades que lhes são fundamentais. Marcélia é aluna do curso de História. A escolha por esse curso, após tanto tempo afastada da educação formal, não se relaciona com sua vida laboral nem com a promessa de ascensão social, motivos que são comumente citados quando se pensa no ensino superior:
Meu objetivo agora, eu estou focada só nessa parte da minha vida, com quarenta e poucos, é estudar; eu estou focada nisso. Eu quero estudar. Eu já tenho minha casa, já está bom, está lá, isso aí eu não vou perder; eu já tenho meu emprego, isso está certo. O que não está certo ainda, que eu tenho que aprender muito, é estudar. Então, daqui pra frente, eu vou só estudar. É o que eu faço. Já venho fazendo, já faz algum tempo, só mesmo me dedicando aos estudos. Se isso vai ser bom? Eu tenho certeza que vai. Mesmo que eu não venha ganhar dinheiro com estudo, hoje em dia eu já não me importo muito com isso.
A escuta atenta de sua narrativa percebe a complexidade do que está em jogo na escolha de um curso universitário. Há razões de ordem identitária, da compreensão da própria realidade, da necessidade de perceber-se sujeito no mundo:
Por que eu escolhi História? Poderia ter escolhido Matemática; eu trabalho com cálculo, trabalho com comércio. Poderia ter escolhido Administração [de Empresas]; iria me dar mais dinheiro, mais lucro. Mas não; escolhi História. Porque eu já trabalhava no comércio e não era isso o que eu queria. Eu queria conhecer. Só que para eu conhecer tudo isso, eu tenho que pegar lá atrás pra eu entender o que está acontecendo hoje; tenho que ir lá atrás... Só que esse negócio vai ser longo, eu sinto que vai ser muito longo.
Como Marcélia afirma, ela poderia ter escolhido um curso mais sintonizado com sua atividade laboral ou uma outra licenciatura, uma vez que seu objetivo era lecionar. Mas escolhe o curso de História. Marcélia afirma que a ideia que fazia do curso não estava correta; em sua experiência diária, o mais próximo que tinha de uma
atividade estudantil eram os filmes que assistia em sua casa. Ela ficava intrigada com a percepção de seus conteúdos implícitos. Marcélia via no curso de História a possibilidade de esclarecimento desses conteúdos e também de obter uma formação em cultura geral: “Eu achava que ia ser muito filme, que eu ia pros lugares passear,
tinha que ver museu, e lá eles iam explicar quem era Dom Pedro...”.
Se à primeira vista essa representação da formação universitária parece extremamente ingênua, ela também deixa transparecer a questão fundamental que permeará a passagem de Marcélia pelo ensino superior. São os fenômenos produzidos pelo homem, a questão dos papéis sociais o que lhe chama a atenção. Não se trata de saber “o que fez Dom Pedro”, mas sim “quem ele era”, qual o seu pertencimento, sua filiação, seu lugar no mundo. Seu gosto pelo cinema não se reduz ao prazer da atividade de entretenimento: os filmes intrigam Marcélia. E ela precisa da ajuda dos outros para que seus conteúdos implícitos sejam revelados. No cineclube da faculdade, assiste aos filmes e aos debates que se seguem a cada exibição; ali, por vezes, encontra respostas para os mistérios que a incomodam, sobretudo o mistério das relações de dominação: “Teve um filme que até hoje eu fico
pensando: Cinema, Aspirina e Urubus. E o urubu só apareceu uma vez, num galho. Eu pensei: ‘Meu Deus, o que vai ser desse urubu?’ E não é que eles estavam falando da miséria do povo?! Aquele urubu estava representando isso”.
Marcélia atenta para a questão da pobreza. Reconhece-se a si e a seus familiares nos personagens despossuídos. Procura a legitimação de sua existência, ela, que reclama da falta de atenção que os outros lhe dispensam. “O povo mesmo –
que sou eu e a gente da periferia – sabe (...) que eles não olham. Eu não entendo isso!”. Mais uma vez, o relato de Marcélia coincide com a narrativa de Pedro: a
representação que se tem do ensino universitário, sobretudo do curso de História, diz respeito ao conhecimento da própria história e do enigma da desigualdade. Tentando explicar sua escolha pelo curso de História, Marcélia comete um lapso ao afirmar que “tinha que pelo menos conhecer um pouco da minha história para entender o
presente hoje”. Trata-se tanto da História dos homens quanto da sua própria.
Após alguns meses como estudante, Marcélia não quer mais saber quem fora Dom Pedro. Interessa-se pela história dos vencidos. Não poderia ser diferente, já que relaciona os conhecimentos do curso com a sua história e a de seus antepassados:
Quando o curso começou a desenrolar, eu viajava: “Nossa, nós passamos por tudo isso!”. Eu não, mas eles passaram por tudo isso, por todo esse sofrimento; uma pessoinha que passou por tudo; foi o que aconteceu com a minha avó, com a minha mãe que ficou grávida do dono da fazenda, que ela nem sabe onde está agora. Então a minha mãe foi uma sofredora daquela época. Eu achava que dentro da história tinha alguma coisa a ver; mas eu não achava que era assim tão fundo. É tanta coisa, e aprofunda tanto! Você está dentro disso aí! E às vezes a gente não dá conta. Como eu te falei: eu não dei conta de como a minha família estava lá dentro; nós passamos por tudo aquilo.
Marcélia afirma: “hoje, com a minha idade, eu quero aprender”. Passado o tempo da urgência que permeia o enfrentamento da incerteza da sobrevivência, pode demorar-se num aprendizado que lhe é fundamental: aprender o texto, apreender o mundo, reconhecer-se nesse mundo.
Aprender o quê? Eu acho que eu quero aprender mais o sentido da vida. O que faz, o que me fez passar por tanta coisa? O que isso quer representar pra mim? O que eles querem dizer pra mim? Quando você fica sabendo que o cara morreu, fez isso e fez aquilo, e aí? O que isso vai representar pra você, na sua vida, Marcélia? Eu penso que eu preciso descobrir; eu acho que a resposta para todos os meus conflitos está aqui. Porque eu sou meio conflituosa assim comigo [ri].
A compreensão dos sentidos da vida não é apenas necessidade pessoal. Na narrativa de Marcélia, entrelaçam-se sua vida estudantil e a dos alunos de sua escola; a história de seus antepassados e a história enquanto disciplina curricular. O aprendizado dos sentidos da vida só é completo quando diz respeito não apenas a sua vida, mas quando toca a vida dos outros.
Eu não sei direito o que eu quero aprender. Hoje eu quero aprender os textos e descobrir esses textos. Mas eu penso o que eu quero passar pra alguém. Acho que meu problema está nisso: como que eu vou passar isso? Eu quero passar alguma coisa, eu estou me preparando pra passar alguma coisa. Eu não sei se é isso aqui que eu vou passar, não sei se vai ser a Escola dos Annales, se
vai ser Marx que eu vou passar... Ou se eu vou escrever – não sei, eu penso que vou resgatar alguém que está perdido. Está nessa direção, está ali. Eu ainda não consegui encontrar o caminho certo, mas está ali. E, para isso, tenho que ser professora, não tem jeito. Não tem outro caminho de ficar dentro de museu, não vou ficar dentro de museu, não vai ter jeito. Eu tenho que ser professora!
Marcélia elabora uma interessante reflexão sobre os sentidos da formação do historiador. A História que faz sentido não é a história morta, petrificada nos museus89; é a história comprometida com uma ação cuja finalidade última é a transformação da condição de subalternidade. É certo que em sua concepção não aparece a ação política de um sujeito coletivo, e que o papel redentor que atribui ao professor refere-se a um personagem abstraído de suas condições concretas de existência. No entanto, seu devaneio não é mera ideologia reformista ou humanismo ingênuo; é calcado na experiência da opressão e, como tal, consegue vislumbrar necessidades radicais90 que comportam a negação do instituído. Exemplo disso é a relação entre tempo e formação, que é objeto de seu discurso. Marcélia fala de um tempo oposto ao tempo da produção, não mais calcado na velocidade a que foi submetida quando menina operária. Para Marcélia o tempo da formação deve ser o tempo da reflexão, da falta de pressa, o tempo de ouvir, o tempo do outro se apresentar a nós:
Eu fico aflita. Não é um processo só da aula, não é assim. Comigo é diferente! Não é fácil para mim. Pode ser que seja por eu ter passado tanta coisa e eu estou esperando muito; de repente não vai ser tudo isso. Sei lá, é tanta coisa! Que ansiedade!
Acho que só vai melhorar com o tempo: o tempo de eu refletir; o tempo de eu conhecer meus alunos; o tempo de um aluno vir me procurar, pegar confiança, falar; e eu ter tempo para ouvi-lo. O mais importante é eu ouvi-lo primeiro, dar um tempo para ele. Eu acho que eu vou ter que ouvir, e não passar e achar que estou com pressa. Se eu vou me dedicar a isso, eu vou ter que dar um tempo. Se perguntarem: “Você tem um compromisso?”. Eu sei que não
89 Não queremos dizer que a história nos museus seja petrificada, mas que esta era a concepção de
Marcélia na época das entrevistas.
90 Agnes Heller (1982) define as necessidades radicais – ou carecimentos radicais – como aquelas
necessidades originadas na sociedade capitalista e que não podem ser satisfeitas nessa mesma sociedade. Nesse sentido, elas constituem fatores de superação do capitalismo. Heller atribui o papel de sujeito histórico a todos aqueles que possuem as necessidades radicais.
vai dar pra eu ir nesse compromisso. Com o aluno é: “Fala, o que você quer me falar?” E ouvir. Porque ninguém me ouvia. Não me deram essa chance. Demorou muito para eu ter essa chance. Eu acho que as coisas são mais difíceis para mim. Mas não tem problema, eu vou embora.
Mas esse tempo sonhado não é o tempo de sua experiência, no trabalho e no curso. Como afirma Ecléa Bosi: “nossos ritmos temporais foram subjugados pela sociedade industrial, que dobrou o tempo a seu ritmo, ‘racionalizando’ as horas da vida. É o tempo da mercadoria na consciência humana, esmagando o tempo da amizade, o familiar, o religioso...” (2003, p. 53). Esmagando também o tempo da formação. Restam a Marcélia a ansiedade e a aflição, sentimentos que persistem na medida em que Marcélia quer “entender tudinho” e não consegue. Ela quer relacionar o “conhecimento do mundo” e o “conhecimento acadêmico”, mas a relação não se dá de forma imediata. Identifica-se com os camponeses da Idade Média e diz que seu objetivo é explicar para seus futuros alunos que no passado “também existiam pessoas que sofriam como a gente”. Mas o mundo não se revela sem mediações. O enigma da desigualdade lhe é sensivelmente familiar e, ao mesmo tempo, incompreensível. É repleto de hiatos. Marcélia não consegue “entender tudo,
do começo ao fim”. Encontra lacunas – em sua formação e nas explicações de
mundo. Encontra ideias lacunares, ideologias.