Aprendizagens produtivas de ciclo duplo

No documento Antecedentes da aprendizagem organizacional em cursos superiores de tecnologia : a experiência brasileira (páginas 144-148)

5. Análise de dados – pesquisa qualitativa com coordenadores de cursos superiores de

5.2 Análise por categorias – Aprendizagens produtivas de ciclos simples e duplo

5.2.2 Aprendizagens produtivas de ciclo duplo

Os resultados de aprendizagens de ciclo duplo foram mais difíceis de serem identificados. Os entrevistados sempre tiveram que refletir bastante sobre a pergunta antes de responder. Alguns acabaram não encontrando respostas. Outros, depois do esforço, analisaram e relataram algum processo de aprendizagem que entendiam compatível com o conceito de aprendizagem de ciclo duplo. O conceito apresentado aos entrevistados foi:

• Aprendizagem organizacional produtiva de ciclo duplo. Neste tipo de aprendizagem organizacional, ocorrem alterações em valores e estratégias organizacionais, originadas quando os indivíduos questionam a teoria em uso, revisando os princípios e as regras vigentes. O questionamento surge normalmente quando as teorias em uso não conseguem mais dar respostas aos desafios diários, sendo necessário encontrar outros caminhos e explicações. Acontecem dois feedbacks: a) no primeiro momento, a nova teoria em uso altera ações e rotinas organizacionais; b) no segundo, ações, rotinas e estruturas organizacionais modificam ações e rotinas individuais (ARGYRIS; SHÖN, 1996). Em sentido semelhante, Senge (1990) fala da quebra ou modificação de modelo mental, ou seja, modificações mais profundas que alteram a forma de pensar sobre determinados princípios e rotina.

A entrevistada E4 faz relação entre o conceito apresentado e os conceitos de inovação incremental e radical, respectivamente. Para Tidd, Besant e Pavitt (2005), inovação radical é algo completamente novo e inovação incremental são mudanças que usualmente buscam otimizar ou resolver problemas nos produtos/serviços já existentes. Isto realmente se aproxima dos conceitos de Argyris e Schön (1996). Nesta analogia, no primeiro momento, E4 entendeu que todas as aprendizagens, nos cursos superiores de tecnologia, eram incrementais. Ela menciona que o catálogo nacional de cursos, de certa forma, força isto, já que ele próprio delineia boa parte do perfil do egresso, de forma padronizada. Neste sentido, restaria aos cursos se adequarem, por meio de melhorias incrementais de processos gerados por aprendizagens de ciclo simples.

Se a gente pensa nos tecnólogos eles são muito redondinhos. Eles vêm do catálogo do MEC, tu não tens muito o que mexer. Nós queríamos até que o curso tivesse outro nome, que fosse gestão de... mas só que daí o catálogo não permite. Então não tem nem como a gente trocar né?... Então eu acho que é bem incremental mesmo. Ele vai, claro, que daqui a pouco de incremental em incremental a gente consegue alguma coisa interessante... mas é isso assim sabe? (E4).

A análise feita por E4 tem sentido. Percebe-se que os entrevistados em geral tiveram mais facilidade em exemplificar resultados de aprendizagens de ciclo simples do que de aprendizagens de ciclo duplo. Uma das entrevistadas, E7, que havia pedido para refletir melhor sobre os conceitos e encaminhar respostas mais estruturadas por e-mail, acabou analisando não existirem resultados de aprendizagens de ciclo duplo nem no curso, nem no campus onde ela atua, pois entende que as decisões mais importantes vêm de cima para baixo e não são fomentadas de baixo para cima.

Analisando com calma o conceito, creio que não estamos, ainda, neste nível de maturidade; não estamos conseguindo fazer esta troca de modelo mental, ainda estamos na aprendizagem de ciclo simples, na minha opinião, porque as decisões sobre princípios e rotinas, têm vindo de ‘cima para baixo’, nem sempre dentro do âmbito da unidade. E, neste caso, fica muito difícil o questionamento (E7).

Contudo, foi possível identificar alguns resultados de aprendizagens de ciclo duplo. Inclusive E4 analisa que o programa de mobilidade acadêmica implementado foi resultado de uma aprendizagem de ciclo duplo. Ela menciona que o formato de fazer intercâmbio, em uma disciplina que ocorre durante todo o semestre, primeiro com desenvolvimento de conteúdos, visitas técnicas e atividades práticas no Brasil e depois com desenvolvimento de conteúdos e visitas técnicas no exterior, foi totalmente novo, criado para atender novos objetivos de aprendizagem e desenvolvimento dos alunos.

Então eu acho que ali realmente a gente propôs algo que não é só incremental. Porque a lógica de tu fazer mobilidade acadêmica dentro de uma disciplina que tu tens que ter, tu tens conteúdo associado, tu visitas empresas aqui, e vai para um lugar, visita empresas lá, faz um relatório de benchmark, que é o mote da disciplina, tu faz cliente oculto no varejo, isso é bem interessante... Isso eu acho que dá para caracterizar como uma coisa mais radical... para a universidade como um todo... Porque se tu pegas todos os programas que a gente tem de mobilidade acadêmica, como o pessoal está chamando agora, mas os intercâmbios na administração, por exemplo, tu tem uma ou duas reuniões, tu tem a viagem e deu. Por mais que tenham conceitos e tal, é diferente (E4).

A entrevistada reflete que a recente oferta de disciplinas em inglês também visa atender novos objetivos de formação. E4 analisa que elas estão relacionadas aos novos movimentos de internacionalização da Universidade. E1 analisa que a implantação de um centro de treinamento de alto rendimento, com possibilidade de atividades práticas aos alunos de seu curso, seria um resultado de aprendizagens de ciclo duplo. Desta forma, E1 e E4 detectam, como potenciais outputs de aprendizagens produtivas de ciclo duplo, a implantação de atividades pedagógicas totalmente novas.

O entrevistado E2 entende que uma reformulação radical na matriz do curso pode ser entendida como output de aprendizagens organizacionais de ciclo duplo. Ele relata que houve

uma ousada inversão na matriz curricular de seu curso no que tange ao ensino de redes de computadores. Segundo E2, seguindo a abordagem tradicional, o aluno veria, na disciplina de Redes I, a parte mais “baixo nível”, que é a parte da eletrônica, o que não se enxerga. Na disciplina de Redes II, chegaria à parte “bonitinha”, que é a web como se conhece. Ele argumenta que essa abordagem foi percebida como muito antiga, do tempo em que sequer existia a internet como é hoje. Partindo dessa percepção, os professores iniciaram uma troca de ideias e encontraram algumas abordagens mais modernas que invertiam a ordem dos conteúdos, iniciando, em Redes I, com a parte web e continuando, em Redes II, com a estrutura eletrônica que suporta a rede. Isto resultou em uma reformulação da matriz que ele entendeu como radical, por alterar o paradigma e a lógica até então vigentes.

Hoje as pessoas vivem a internet, vivem as aplicações. Então a gente começa na parte de mais alto nível, que é aplicação. A gente inverteu a ordem das disciplinas... (E2).

O entrevistado E8 refere a criação de um novo curso como output de aprendizagens de ciclo duplo. Ele analisa que, através de reflexões e aprendizagens ocorridas no âmbito de seu curso, perceberam-se demandas de formação que extrapolavam as possibilidades de seu curso, pois tinham um novo escopo, diferente e tão abrangente que fundamentava a criação de um novo curso.

E tudo surgiu de uma necessidade que o colegiado percebeu de atender uma demanda que é evidente para nós aqui. Tanto do ponto de vista interno quanto externo. Porque a gente tem dificuldade aqui com os nossos servidores públicos, inclusive de capacitação interna. E a gente é visitado muito aqui por prefeitos... e essa é uma reclamação recorrente. Tanto é que essa equipe que está trabalhando no PPC deste curso de Gestão Pública já está estudando a possibilidade de lançar também em EAD, para atender os polos que a gente já atende no interior. Ofertar um curso tecnológico na área de gestão pública... talvez (E8).

Após estas análises, definem-se quatro possíveis resultados de aprendizagem de ciclo duplo, em cursos superiores de tecnologia, para os quais foram elaboradas afirmativas que completam a frase “Nos últimos anos...”:

a) por terem sido percebidas necessidades de formação que extrapolavam objetivos e possibilidades do curso, houve a criação/implantação de um novo curso (Q16_1);

b) visando alcançar novos objetivos de formação, o curso implantou atividades ou práticas pedagógicas totalmente novas (Q16_2);

c) o curso passou por profunda reformulação de sua matriz curricular (Q16_3); d) foi revisto e reformulado o perfil desejado do egresso do curso (Q16_4).

Estas afirmativas foram utilizadas no questionário para coleta de dados quantitativos da segunda fase desta pesquisa, cujos resultados são apresentados no capítulo a seguir. O código entre parênteses é a identificação de cada variável no banco de dados quantitativo.

6.

Análise de dados – pesquisa quantitativa com professores de CSTs no

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