Aprendizagens produtivas de ciclo simples

No documento Antecedentes da aprendizagem organizacional em cursos superiores de tecnologia : a experiência brasileira (páginas 140-144)

5. Análise de dados – pesquisa qualitativa com coordenadores de cursos superiores de

5.2 Análise por categorias – Aprendizagens produtivas de ciclos simples e duplo

5.2.1 Aprendizagens produtivas de ciclo simples

Com base no conceito de aprendizagem de ciclo simples, os entrevistados foram convidados a refletir sobre quais poderiam ser os produtos deste tipo de aprendizagem no curso que coordenam. O conceito apresentado foi o seguinte:

• Aprendizagens organizacionais produtivas de ciclo simples são aprendizagens incrementais, decorrentes da busca de maior eficiência ou da melhor forma de atingir objetivos existentes, mantendo-se e considerando-se regras, normas e valores preexistentes. São ajustes que geram avanços incrementais, referindo- se à melhoria da performance das tarefas, ao longo do tempo (ARGYRIS; SCHÖN, 1996; PROBST; BÜCHEL, 1997).

Considerando este conceito, um dos resultados mais comuns identificados foram as alterações em ementas ou conteúdos de disciplinas. A entrevistada E5, por exemplo, explica que costuma conversar com seus alunos, os quais percebem algumas duplicidades de conteúdos vistos em mais de uma disciplina. Ela diz ser este o primeiro indicador que a leva a buscar maiores informações com os professores, pois, muitas vezes, não existe necessariamente duplicidade, mas o mesmo tema é trabalhado sob enfoques diferentes, o que é considerado necessário. Nestes casos, os professores e a coordenação buscam alternativas de abordagem ao conteúdo, para que o aluno entenda o motivo de estar vendo aquele tema em duas disciplinas diferentes. Em outros casos, realmente existe duplicidade. Quando isso acontece, procura-se deixar a ementa mais clara para o professor e, quando necessário, ela é modificada para melhor compreensão de todos.

Um caso que eu tive no ano passado, de alunos virem reportar que estão tendo o mesmo conteúdo sendo trabalhado em três disciplinas diferentes. Daí sim é uma situação que eu tive que chamar os professores, para a gente alinhar questões, aonde que termina, onde que se sobrepõe... para eles tentarem mostrar relevância. Não quer dizer... um conteúdo ele não pertence a uma disciplina... O aluno também tem que entender que tudo também é muito fluido dentro das empresas. É um sistema. E daí tem que alinhar com os professores e às vezes eu tenho que ir na sala de aula para explicar para os alunos, dar este suporte... no sentido de reforçar a autoridade do professor e a autonomia que ele tem dentro da sala de aula dele (E5).

O entrevistado E6 relata um caso em que a ementa teve que ser modificada, por estar em desacordo com os objetivos do curso. Ele diz que, quando tal disciplina seria administrada pela primeira vez, foi verificar o conteúdo, a fim de designar o professor, então percebeu que o conteúdo não estava adequado nem ao curso, nem ao perfil de alunos.

A gente está criando uma comunidade e livro para 2015, e quando eu fui olhar o que que é a ementa pedia eu disse: “tchê, quem é que fez este negócio aqui?”.... a pessoa que fez está com deslocamento da realidade total e irrestrito né? Tu imagina assim, pontualmente te dizendo... desenvolvimento humano e pensamento sistêmico. A disciplina trabalhava basicamente com Morin. Tu imaginas para um cara tecnólogo, um cara que trabalha em um chão de fábrica, ou como analista ou assistente administrativo... o cara no primeiro semestre, no primeiro, trimestre ser confrontado com Morin. Eu digo ‘não tem condições’... Aí a gente refez (E6).

O entrevistado E2 identifica dois tipos de resultado de aprendizagem de ciclo simples. O primeiro foi a alteração de fluxos administrativos, que, através da prática, foram percebidos como não adequados, sendo feitos alguns ajustes. Ele cita, como exemplo, um fluxo para justificativa de faltas, no qual o coordenador ficava à parte do processo, o que ele entendia como impróprio. O segundo foi a criação do regulamento para trabalhos de conclusão de curso. Explica que, neste caso, o projeto de curso previa trabalho de conclusão de curso, mas não havia nenhum detalhamento. Com base em experiências anteriores dos professores e em regulamentos de outras instituições, um grupo de trabalho aperfeiçoou a proposta, elaborando um regulamento detalhado, que possibilitasse melhor aproveitamento da atividade teórico- prática.

No campo das atividades práticas, a entrevistada E4 refere a inclusão da atividade de intercâmbio internacional em seus cursos, a qual pode ser caraterizada como um resultado de aprendizagens de ciclo simples. Ela pondera que a inclusão desta atividade buscou concretizar o perfil de egresso delineado no projeto de curso. Semelhante ponderação foi feita pelo entrevistado E8, que igualmente introduziu um intercâmbio internacional no curso. Ele relata que o intercâmbio surgiu da percepção de que faltava ao egresso melhor compreensão de seu papel em um contexto globalizado, o que o intercâmbio veio atender.

No campo dos sistemas de avaliação da aprendizagem, os entrevistados E7 e E9 identificam aprendizagens de ciclo simples. A entrevistada E7 diz que as práticas de treinamento e de revisão dos planos de ensino e de atividades de aprendizagem, em especial das provas, têm gerado aprimoramento dos sistemas de avaliação, os quais, cada vez mais, atendem o projeto do curso, o perfil do egresso e o projeto pedagógico da instituição. Ela ressalta a necessidade de desenvolvimento de competências nos alunos e de o alinhamento das atividades de sala de aula e das avaliações ser condizente com isto.

O entrevistado E9, que coordena um curso EAD, relata uma prática de acompanhamento das atividades realizadas no ambiente virtual, por ele implementada. Através desta prática, ele percebeu que algumas atividades e conteúdos propostos pelos professores estavam em desacordo com o projeto do curso. Em decorrência de tal constatação, ele criou uma ferramenta de acompanhamento da disciplina, com a qual ele consegue verificar o que não está adequado, a tempo de conversar com o professor e efetuar melhorias para um alinhamento mais apropriado. Ele relata que, com esta prática, os professores passaram a entender melhor os objetivos e a dinâmica do curso, aprimorando as atividades avaliativas, de modo que ficassem ajustadas aos objetivos de aprendizagem do curso.

Com alterações um pouco mais profundas, a entrevistada E5 explana, como resultado de aprendizagens de ciclo simples, uma alteração de matriz curricular, que começava a ser discutida na época da entrevista. Para E5, tratava-se de uma adequação da matriz aos objetivos de formação propostos na matriz do curso. Ela analisa que, após um período em que já existem egressos do curso, tornam-se perceptíveis alguns erros e acertos da atual matriz curricular, o que subsidiaria a reflexão sobre o curso, a fim de obter mais efetividade da matriz curricular. Ela acredita que o perfil do egresso proposto no projeto está adequado à realidade, mas que são necessários alguns ajustes para que este perfil seja plenamente alcançado ao final do curso.

Outro resultado de aprendizagens de ciclo simples citado pelo entrevistado E8 foi a edição de um livro. Ele menciona que, em decorrência da análise de que nenhum livro didático contemplava algumas especificidades do curso, os professores se reuniram e produziram um livro que atendesse os objetivos do curso.

Após analisar os resultados explicitados pelos entrevistados, definem-se cinco possíveis resultados de aprendizagem de ciclo simples, em cursos superiores de tecnologia, para os quais foram elaboradas afirmativas, que completam a frase: “Nos últimos anos, buscando atender os objetivos propostos pelo projeto do curso”...

a) o curso teve algumas atualizações em sua matriz curricular (Q15_1);

b) o curso teve alteração ou aperfeiçoamento nos sistemas de avaliação de aprendizagem, tais como estilo de provas ou trabalhos (Q15_2);

c) o curso teve alteração, inclusão ou exclusão de atividades teórico-práticas, tais como trabalho de conclusão de curso, projetos integradores ou estágios curriculares (Q15_3);

d) o curso teve alteração, inclusão ou exclusão de atividades práticas, tais como visitas técnicas, intercâmbios ou atividades em laboratórios (Q15_4);

e) o curso teve alteração em ementas ou conteúdos programáticos das disciplinas. (Q15_5).

Estas afirmativas foram utilizadas no questionário para coleta de dados quantitativos da segunda fase desta pesquisa. O código entre parêntese é a identificação de cada variável no banco de dados quantitativo.

No documento Antecedentes da aprendizagem organizacional em cursos superiores de tecnologia : a experiência brasileira (páginas 140-144)