4 REPERCUSSÕES DO CONCEITO DE TRANSTORNOS GLOBAIS DO

4.5 Estudos de Casos

4.5.1 Caso T Autismo na escola regular: o encontro com o desconhecido

4.5.1.1 Apresentação do caso

No momento dos encontros promovidos por nossa pesquisa com o aluno, seus professores e sua mãe, T, sexo masculino, contava onze anos e era aluno no 2º ano do 2º ciclo. Conta para sua classificação neste estágio de escolaridade a política educacional da Secretaria Municipal de Educação de Belo Horizonte de buscar manter as crianças e os jovens com necessidades educativas especiais junto a seus pares em idade.

A criança ingressou no Ensino Fundamental da Escola α no ano de 2007, aos 7 anos, proveniente da Unidade Municipal de Educação Infantil – UMEI67 contígua à escola, sendo identificado como novato no ciclo e portador de necessidades educativas especiais.

O que dá a T a identificação de aluno com necessidades educativas especiais? Desde o seu nascimento, a criança apresenta uma síndrome genética, denominada síndrome do X- frágil, cujo diagnóstico foi sendo construído ao longo de cerca de dois anos, conforme pode ser extraído dos relatórios médicos encaminhados à escola e dos relatos de sua mãe sobre a constante descoberta da condição especial da criança68.

Sendo assim, em 2004, foi estabelecido o diagnóstico de Autismo Infantil Precoce pelo médico pediatra que a acompanhava. Tal diagnóstico foi realizado a partir das observações do seu comportamento, levadas ao conhecimento do médico por sua mãe, tendo em vista informações a respeito da patologia, veiculadas em uma propaganda televisiva.

Após este diagnóstico, a criança passou a ser acompanhada pela equipe de saúde mental do antigo Centro de Referência da Criança e do Adolescente – CRIA, serviço que cumpria a função de referência de atenção regionalizada em saúde mental infanto-juvenil. Neste serviço, a criança recebia atendimento com psicólogo e fonoaudiólogo, tendo sido nele inserida também para que pudesse interagir com outras crianças.

Em função do contínuo atraso no desenvolvimento, em 2006, já transcorridos dois anos desde o primeiro diagnóstico e um ano do ingresso da criança na Educação Infantil, uma

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Em 2005, aos 5 anos, criança iniciou sua escolarização ingressando na Educação Infantil.

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Não tomaremos aqui a referência aos anos anteriores à entrada no Ensino Fundamental, uma vez que nossa pesquisa se restringiu a esta etapa da escolarização da criança. As referências aos anos de 2005 e 2006 serão feitas apenas na medida da necessidade de elucidação de alguma questão pontual no histórico de escolarização do garoto, tendo em vista a construção de seu diagnóstico clínico.

nova avaliação foi solicitada pelos profissionais do CRIA. A criança foi então encaminhada ao Hospital Sarah Kubistchek para averiguação de ocorrência de Síndrome do X-frágil. T foi então submetido a exames clínicos e laboratoriais que acusaram a positividade da síndrome.

Nos registros acadêmicos a respeito do aluno, são encontrados relatórios médicos que informam que este diagnóstico foi realizado entre 02 de janeiro de 2006 e 09 de maio de 2006. Assinados pela mesma médica, estes documentos fazem observações sobre uma criança com atraso no desenvolvimento neuropsicomotor, sem história de asfixia pós-natal e com atraso no desenvolvimento da linguagem. De acordo com o que pode ser encontrado, T adquiriu marcha independente aos 3 anos e não teria apresentado linguagem expressiva própria à data da 1ª consulta, em 01 de janeiro de 2006 (a criança contava então seis anos).

A partir da realização do exame de cariótipo para a referida síndrome e do quadro clínico apresentado pela criança, no último relatório (datado de 09 de maio de 2006), a médica responsável pelo caso de T estabelece o diagnóstico a partir da CID-10 como Q 99.2, código classificatório correspondente à nomenclatura de síndrome do cromossomo X-frágil e faz observar indícios de autismo secundário, formulando um diagnóstico final de síndrome do X- frágil com autismo secundário. Também é feita a observação de que não há tratamento específico para a síndrome e que os pais receberam orientação sobre como tratar a criança. Sobre tais orientações, a Mãe T nos informa que elas concerniam em como alimentar o filho e brincar com ele, aproveitando-se das atividades utilizadas no cotidiano da irmã do garoto, 1 ano e 11 meses mais nova que ele e a quem ele aprendeu a imitar nas atividades de vida diária.

Tem-se então um percurso diagnóstico em que os primeiros sinais identificados ainda em 2004 pela mãe da criança dizem respeito ao Autismo Infantil Precoce. Contudo, a partir da identificação deste fator biológico, indicado por alguns autores como determinante deste quadro – a síndrome do X-frágil (FACION, 1997, FISCHER et all, 1997), no caso de T, todo o diagnóstico da criança será referido a ela, tanto pela mãe quanto pela escola e até mesmo pelo serviço de saúde mental infantil que, tendo acompanhado a criança desde 2004, deixa de fazê-lo em 2008. Neste ano, em função de reorganizações da rede de saúde mental do município, o CRIA foi extinto na regional em que a família está inserida, tendo sido substituído por um serviço de atenção específica ao autismo e à síndrome de Down, segundo relato da mãe da criança. Desde então, e por razões aleatórias que serão apresentadas neste estudo de caso, T está sem atendimento clínico, frequentando apenas a escola regular, onde

recebe acompanhamento de um Monitor de Apoio à Inclusão69, responsável por acompanhar crianças com deficiências que não apresentem autonomia para a realização de atividades da vida diária. Destaca-se que, segundo material produzido pela Secretaria Municipal de Educação de Belo Horizonte, esta função encontra embasamento no documento da Política Nacional de Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva, sendo caracterizada como um auxílio ao aluno em sua

[…] locomoção; nos cuidados de higiene, utilização do banheiro, uso de utensílios para alimentar-se; mediação para uso de recursos de comunicação alternativa; uso de equipamentos para respiração, sondas ou bolsas coletoras que necessitem ser manuseadas no tempo de permanência da escola (SECRETARIA MUNICIPAL DE EDUCAÇÃO DE BELO HORIZONTE, 2011, p.13-14).

Sendo assim, este apoio funciona como um dos vieses do atendimento educacional especializado. Para T, a esta modalidade de acompanhamento é acrescentado uma atividade de informática estabelecida pela professora regente de sua turma (doravante identificada como Professora 1) como complementação à instrução pedagógica oferecida ao aluno na classe regular.

Observa-se que, apesar de esclarecer a família, a escola e o serviço de saúde em relação à condição clínica da criança o diagnóstico, de base orgânica, ofertado a ela gera um impasse para o suporte clínico necessário ao seu desenvolvimento. Observa-se também que, a rigor, não se pode encontrar nos códigos classificatórios da Psiquiatria o diagnóstico emitido pela equipe do referido hospital. Tendo em vista as observações realizadas com a criança e os relatos de suas professoras e de sua mãe, bem como o que preconiza o DSM IV-TR, somente podemos entender este diagnóstico a partir de um quadro de autismo infantil precoce, cuja manifestação concorre com a síndrome do X-frágil como uma de suas condições determinantes (APA, 2002).

Desta forma, trata-se de uma criança que não se comunica como é esperado para uma criança de sua idade, sendo identificada na escola, a partir da dimensão do diagnóstico clínico pertinente à Síndrome do X-frágil. Destaca-se que tal síndrome pode estar referida a casos de autismo bem como estar relacionada a quadros de retardamento mental sem que, nessas condições, se verifique a presença de manifestações autísticas.

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Ao contrário da Professora 1, nosso contato com a Monitora de Apoio à Inclusão somente pode ser efetivado de modo informal, pois ela não dispunha de tempo para levar conosco uma entrevista aos moldes da que foi realizada com a outra professora de T. Esta profissional se desdobra em atividades como auxiliar de inclusão no período matutino na Escola α e, no período vespertino, realiza as mesmas funções na UMEI contígua a esta escola.

Dado o diagnóstico e sendo ele do conhecimento de todos na escola, trata-se de um caso que é considerado um impasse para o professor, na medida em que há limitação na comunicação oral e na aprendizagem dos conteúdos formais e curriculares.

No documento Alunos com transtornos globais do desenvolvimento: da categoria psiquiátrica à particularidade do caso a caso nos processos de inclusão escolar (páginas 104-107)