CAPÍTULO II Descrição/Reflexão das atividades desenvolvidas
1. Apresentação do problema e campo de estudo
A história da Administração Pública e a sua importância são marcadas pela “cartilha reformista do New Public Management” (Bilhim, 2013, p.215), ou seja, a Nova Gestão Pública, que defende a importância “para a qualidade de vida dos cidadãos, da boa governação e do papel interdependente dos sectores privado, público e sociedade civil” (idem, p.217), e que o serviço prestado pelas organizações seja eficaz e eficiente. Saraiva (2002, p.189) põe em evidência a perspetiva da Administração Pública e da Nova Gestão Pública, segundo a qual ao Estado é atribuído um novo papel que enfatiza “o atendimento das necessidades de regulação quanto à prestação de serviços (…), por meio de incentivos a programas de flexibilização da gestão pública”.
Verifica-se a presença de um Estado que abandona a sua prática de tomada de decisão a nível central e descentraliza funções no campo da Educação na Lei de Bases
do Sistema Educativo (lei n.º14/86, de 16 de Outubro), ao inovar no sentido da
“diversificação das estruturas e actividades educativas (…), dos poderes e agentes responsáveis” (Formosinho & Machado, 2004, p.06).
Do ponto de vista da investigação, a Administração Educacional tem como objeto de estudo “ a definição e organização do sistema educativo nas suas diferentes componentes e na sua administração” (Barroso, 2002, p.289), ou seja, vai para além de conhecer a gestão e funcionamento dos estabelecimentos de ensino. Em relação a Portugal, Barroso (2002, pp.277-278) refere o desenvolvimento, nos anos 80 do século passado, de estudos da Administração Educacional e de gestão organizacional, centrados nos estabelecimentos de ensino e seus mecanismos/instrumentos de administração e gestão, bem como no conteúdo das políticas educativas.
No âmbito do seu carácter multidisciplinar, a Administração Educacional cruza- se com as áreas científicas das Ciências da Administração e Ciências da Educação, e, ao ter passado por “ (...) efervescência teórica e metodológica” (Barroso, 2002, p.287), incorpora também outras áreas científicas que situam o seu posicionamento, a
Sociologia das Organizações e a Ciência Política. A Sociologia das Organizações, ao
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(Barroso, 2002, p.289), concorreu para a diversidade de perspetivas “ (...) no estudo dos fenómenos administrativos e para o alargamento do seu campo (...) às dimensões culturais e micro-políticas, às estratégias dos actores e às dinâmicas da sua acção” (Barroso, 2002, p.300). Posteriormente, com a evolução da agenda política, a partir dos anos 80 do século passado, devido a processos de descentralização, autonomia e modificações nos processos de regulação entre outros, mobilizou-se a Ciência Política.
O meu estudo situa-se no quadro da Administração Educacional, uma vez que a avaliação das escolas é tida como um instrumento fundamental para a administração central coordenar, controlar e orientar o sistema educativo.
No âmbito da Educação, vem-se verificando, desde os anos 90,“ uma tendência (…) para a valorização de estratégias de regulação viradas para a responsabilização pelos resultados” (Simões, 2009, p.3), constituindo a avaliação externa e a autoavaliação de escolas modalidades dessa tendência. A avaliação externa das escolas engloba documentos de enquadramento e instrumentos de trabalho que orientam a ação das escolas, os quais encerram considerações das equipas de avaliação externa da IGEC que traduzem uma conceção de escola e de avaliação. Neste sentido, considerei que seria relevante compreender o entendimento que as equipas de avaliação externa da IGEC fazem dos processos de autorregulação e de melhoria da escola, a fim de identificar os referenciais que estão implícitos no processo de autoavaliação das escolas. Assim sendo, o meu tema de estudo são “As representações das equipas de avaliação externa da IGEC na dimensão relativa à autoavaliação das escolas”.
Assim, pretendo analisar os relatórios de avaliação externa elaborados pelas equipas de avaliação externa da IGEC após a visita às escolas. Em concreto, nos relatórios centro-me no campo de análise Autoavaliação e melhoria, do domínio de “Liderança e Gestão”, e nas áreas de melhoria identificadas pelos avaliadores. Os relatórios de avaliação externa analisados são os, da então, Área Territorial de Inspeção de Lisboa e Vale do Tejo (atual Área Territorial Sul), elaborados no ano letivo de 2012/2013.
O campo de análise Autoavaliação e melhoria no quadro da avaliação externa justifica, desde logo, a minha opção. Basta atentarmos às próprias palavras da Administração, neste sentido:
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“ (...) o processo de Avaliação externa fomente e consolide a autoavaliação e resulte numa oportunidade de melhoria para a Escola, constituindo este documento um instrumento de reflexão e debate, [pois] (...) ao identificar (...) áreas de melhoria, (...) oferece elementos para a construção ou o aperfeiçoamento de planos de ação para a melhoria e de desenvolvimento da escola” (Relatórios de Avaliação externa das escolas, 2012/2013, p.1)
Além disso, importa salientar a reconfiguração do papel desempenhado pelas inspeções europeias, em geral, e a portuguesa, em particular Costa & Pires (2011), no âmbito da qual se pode perspetivar de outro modo a ação dos avaliadores/inspetores considerados “ (...) centros de produção e difusão do conhecimento (N. Afonso & Costa, 2011, p.171), em que o seu papel é visto “ (...) como um agente de mudança, como um elemento de dinamização das escolas, encarregado de promover a efetiva concretização das novas práticas” (N. Afonso, 1999, p.27, in N. Afonso & Costa, 2011, pp.186-187), isto é, o seu papel enquanto avaliadores é determinante, pois ao possuírem conhecimentos específicos das políticas educativas e da regulação e organização do sistema educativo, e de um “conjunto de perícias técnicas que garantam o saber informar-se e o saber comunicar essa informação” (Lucas, 2008, p.16), poderão orientar as escolas a inovar e a melhorar a sua ação. O próprio Chefe da EMEE/Coordenador Nacional da atividade de Avaliação externa das escolas (ver entrevista) afirma que é determinante que os inspetores/avaliadores externos detenham a perceção e conhecimento sobre que aspetos envolvem a sua ação, a fim de que os cidadãos e as escolas sintam que o seu trabalho é desenvolvido com qualidade, justiça, competência e tem propósitos definidos.
Em relação à Área Territorial de Inspeção de Lisboa e Vale do Tejo, a escolha prende-se com um interesse pessoal, por residir, e por ter estudado em escolas desta Área Territorial, mas também devido à dimensão do corpus (35 relatórios de AEE, sendo8 escolas não agrupadas e 27 agrupamentos de escolas), que, a meu ver, é um número ajustado ao período de tempo de que dispus para efetuar a sua análise.