CAPÍTULO III | O Estudo
1. Apresentação do Problema e do Campo de Estudo
Desde 2011, a educação e formação de adultos em Portugal na sua vertente mais formal, devido principalmente, às novas políticas públicas decretadas pelo XIX Governo Constitucional e implementadas pelos Ministérios da Educação e Ciência e da Solidariedade, Emprego e Segurança Social, através da Agência Nacional para a Qualificação e o Ensino Profissional I. P. (ANQEP), sofreu um profundo revés. A extinção, iniciada no ano de 2011, dos Centros Novas Oportunidades, a diminuição drástica da oferta de cursos EFA e Formações Modelares, o aumento do desemprego e todo o contexto de crise económica e social constituíram
uma realidade desumanamente desmotivante e castradora para os académicos e demais cidadãos ligados à educação de adultos, para os profissionais que operaram no terreno e sobretudo para os adultos, mesmo para os adultos mais perseverantes. Em janeiro de 2014, através de despachos oficiais, foi autorizado o funcionamento dos CQEP , em número muito mais reduzido que os anteriores CNO, sem financiamento estipulado e com equipas técnico-pedagógicas incompletas e sem formação, a tentar sobreviver no terreno. Mantiveram-se, assim, a descontinuidade, o desinvestimento, a precaridade das políticas públicas da educação e formação de adultos (Lima, 2008,p.50).
No contexto das anteriores considerações e fruto da minha anterior experiência profissional, longa no que respeita à educação de crianças e jovens, cerca de 24 anos e curta, cerca de 5 anos, mas inovadora, no que respeita à educação e formação de adultos, materializou-se o presente estágio em formação de adultos. A estas razões, para a escolha das matérias sobre as quais incidiu o estudo reflexivo desenvolvido ao longo do estágio académico, junta-se a necessidade pessoal e crescente de contestação à forma escolar, em resultado da experiência profissional ao longo de 24 anos ao serviço da educação de crianças e jovens. O “ensino envelhecido” está cada vez mais arredado das “realidades do mundo”, como já constatavam Faure et al. (1981, p. 66). A tentativa de resolução de problemas cada vez mais numerosos e complexos tem sido pontuada por medidas de remediação, pontuais, nunca inteiramente satisfatórias, mas que se têm ostentado, muitas vezes, como revolucionárias ou como as únicas possíveis, ou como as que vão, desta vez, revolver os problemas. O atual sistema de ensino vai-se, assim, enovelando, perpetuando e validando. Referem-se a título ilustrativo, as sucessivas alterações dos currículos, que pouco ou nada mudam, o abandono escolar, a indisciplina, as retenções repetidas, a exclusão escolar, as desigualdades no acesso à educação, o desgaste nas relações (para não dizer rutura) entre professores e alunos, entre professores, pais, tutelas e comunidades, a desvalorização dos professores e do ensino escolar em geral. Um sentimento de crescente contestação que tem colidido com um beco sem saída porque, na linha do que afirmou Canário (2002,p.10): “A convergência entre uma crescente perda de sentido da escola e, por outro lado, a sua hegemonia e omnipresença apela por um lado a uma superação crítica da forma escolar e, ao mesmo tempo dificulta-a, na medida em que a solução escolar aparece como a única natural e inevitável”.
A experiência como coordenadora de um Centro Novas Oportunidades inserido numa escola pública, de cerca de cinco anos, embora relativamente curta, fortaleceu a reflexão sobre a interpelação à forma escolar, amadurecendo os olhares críticos sobre as práticas escolarizadas e tornou possível um olhar mais fundamentado e mais relativizado sobre a forma escolar (Canário,2005,p.69). Foi nas metodologias e práticas do processo de RVCC, na sua aplicação por professores do ensino tradicional, na reflexão e descoberta colaborativa, no terreno, que surgiu a oportunidade de identificar e delimitar as matérias sobre as quais o presente estudo se debruçou. Entendeu-se que o processo de RVCC é ponto de partida/
potenciador/motivador da educação de adultos ao longo da vida, relacionando-o com outras ofertas /metodologias, oriundas de todos os sectores da sociedade, para adultos.
Este estudo ganha sentido na reflexão sobre as experiências significativas da minha própria história de vida, anteriores e hodiernas ao presente mestrado. É, pois, com naturalidade, que se situa a sua problemática na interface entre a forma escolar, o processo de reconhecimento, validação e certificação de competências e a educação, no seu sentido mais abrangente.
Do título amplo: “Reconhecimento, Validação e Certificação de Competências num Centro para a Qualificação e o Ensino Profissional”, a determinação de uma problemática, adequada ao estágio em questão e, simultaneamente, passível de um estudo mais orientado, ganhou a consistência geradora da questão “Serão as práticas educativas, inerentes ao processo de RVCC suscetíveis de questionar a forma escolar?”. Muito embora todo o trabalho se tenha desenrolado numa instituição escolar, no seio do paradigma escolar, paradoxalmente, procuraram-se as razões que libertam a educação de adultos da forma escolar, as razões que possam contribuir para a sua contestação. Por outro lado, como perguntou Melo (2012, p.447), a propósito da introdução do processo de RVCC em escolas da rede pública, “Qual será o resultado final, quando inovações como estas são introduzidas, de forma algo forçada, em instituições em geral nada inovadoras, e elas próprias ainda por inovar?”, deixando antever que, igualmente importante, é entender quais as razões que aprisionam a educação de adultos à forma escolar. Deste modo procuraram-se as razões que, por um lado, libertam a educação de adultos da forma escolar e aquelas que, por outro lado, a aprisionam.
1.1. Contexto e atores do estudo
O Agrupamento de Escolas Dr. Azevedo Neves e mais frequentemente o polo CQEP (Centro para a Qualificação e o Ensino Profissional) do referido Agrupamento, em articulação com a direção do Agrupamento e com a direção do CQEP-Amadora, foram o palco onde se desenvolveu o presente estudo. As referidas instituições foram devidamente enquadradas no Capítulo anterior do presente trabalho, pelo que, se pretende agora, particularizar os participantes mais diretamente envolvidos e as relações estabelecidas com a estagiária. A ligação da estagiária ao referido Agrupamento verifica-se desde há longos anos, mais precisamente desde 1987, como docente do ensino básico e secundário, assumindo em simultâneo vários cargos pedagógicos, incluindo o de adjunta da Direção, e desde 2008, o de coordenadora do Centro Novas Oportunidades. O acesso aos contextos e a inter-relação com os atores do estudo já estavam firmemente estabelecidos, quer pela experiência anterior na coordenação do CNO, quer pelo trabalho desenvolvido na criação do atual CQEP- Amadora, conjugando-se, agora, com a oportunidade de poder acompanhar o desenvolvimento deste último. Quer na coordenação, quer no acompanhamento das etapas de funcionamento do CQEP, foi possível a observação direta das atividades realizadas e o registo das mesmas. Os registos de observação, com particular interesse para o presente estudo, incluem o trabalho da equipa pedagógica do polo CQEP Azevedo Neves,
com um grupo de 16 adultos em processo de RVCC de nível básico, no papel de técnica ORVC e enquanto formadora, em reconhecimento e validação de competências na área de Matemática para a Vida (MV). Em relação às entrevistas realizadas, foram convidados quatro professores/formadores, que exerceram ou ainda exercem a sua profissão na área de educação de jovens e simultaneamente, no acompanhamento de adultos em processo de RVCC, no Agrupamento de Escolas Dr. Azevedo Neves. São todos, assim, colegas ou ex-colegas da estagiária. De referir que um dos professores foi membro da equipa técnico-pedagógica que acompanhou os adultos em RVCC e, em paralelo, concedeu uma das entrevistas.