Contra essa primeira vertente positiva, afirmativa e expansiva do sagrado – presente já no grego hierós, mas também no germânico heilig, no inglês holy, no eslavo célú e no báltico kails – erige-se, no entanto, em termos aparentemente contrastantes, outra cadeia semântica de tipo negativo. Seja já o grego hágios, o latino sanctus – mesmo se não equivalem um ao outro – ou, por último, o avéstico yáozdáta aludem, de fato, ao interdito em relação a algo com o qual os homens tem proibido o contato e, em termos mais amplos, a lei que sanciona tal separação.167
Essa dupla característica fundamental do sagrado – o mesmo que em Bataille é dito impregnar o mundo – aparece, já conectada à religião, sempre atrelada à possibilidade de salvação do homem (inclusive no sentido biológico do termo) e também a uma interdição aos homens (um muro que separa o espaço do profano do divino, e que, desse modo, condena o homem à constante falta do sagrado, à ausência de contato com o sagrado). As análises que Esposito traça com vistas à sua teorização a respeito da comunidade – na trilogia Communitas, Immunitas, Bíos – apontam para como o conceito vida atinge, na
167
ESPOSITO, Roberto. Immunitas. Protección y negación de la vida. Buenos Aires: Amorrortu, 2005. Trad.: Luciano Padilla López. pp. 79-80. “se puede recabar del mismo estúdio de Benveniste una perspectva hermeneutica que parece ligar todos estos pares a una sola bipartición fundamental. Por un lado, lo sacro puede ser remetido a una situación de plenitud, y aun de expansión, vital de aquel o aquellos hascia los que se dirige; a un incremento de origen divino, con todos los atributos de poderío, prosperidad, fecundidad implícitos en semejante desarrollo. A este mismo significado remite la idea de salvación, conjugada también y ante todo en el sentido biológico y corporal de salud, snaidad, respecto de toda clase de enfermedad. Aquí ya se perfila un primer rasgo inmunitario del fenómeno religioso: religión es aquello que salva y sana al mismo tiempo. (...) Contra esta primera vertiente positiva, afirmativa, expansiva de lo sacro – presente ya en el griego hierós, pero también en el germánico heilig, en el inglés holy, en el eslavo célú y en el báltico kail – se erige, sin embargo, en términos aparentemente contrastantes, otra cadena semántica, de tipo negativo. Ya sea el griego hágios, el latino sanctus – aunque no equivalgan uno al otro – o, por último, el avéstico yáozdáta aluden, de hecho, al interdicto respecto de algo con lo que los hombres tienen prohibido el contacto y, en términos más ampliso, a la ley que sanciona dicha separación.”
dimensão de sacralidade que possui na biopolítica contemporânea,168 um paradoxo que, ainda na suposição da ambiguidade do sagrado, traduz-se na sua salvação mediante algo que nega tal salvação. E então o que entra em jogo é uma lógica do sagrado: o sacrifício.
A potência vital não decai, mas sob condição de submeter-se à pressão do que a ela se contrapõe. Se se vincula essa perspectiva com a semântica mortífera do sacrifício, como faz o próprio Benveniste, disso pode-se concluir que a religião salva – ou sana – a vida medinte a absorção de algo que a vincula a seu oposto. Que extrai a vida da morte ou inclui a morte na vida.169
Afirmação e negação da vida; a sacralização é signo, portanto, do paradoxo170 que se coloca como ponto fundamental das categorias
168
Toda a questão dos usos das metáforas organológicas na tratadística política está no capítulo 4 de Immunitas, no qual Esposito explicita os atrelamentos entre medicina e política com vistas a exibir como, no correr da modernidade, a ideia da imunização dos corpos transplantada para a sistematização política acaba por se tornar a pedra de toque da dialética entre salvação e debilitação (de certo modo, também um reflexo da anfibologia do sagrado). Cf. ESPOSITO, Roberto. Immunitas... pp. 160-204. Eis um trecho importante nas pp. 200-201, em que trabalha com os conceitos foucaultianos. “Las modalidades con que se produjeron dichos efectos perversos a lo largo de la historia de la medicina son múltiples. Una de las principales se refiere al mismo tratamiento inmunitario que, para defender el oganismo, terminó por debilitarlo, produciendo un descenso general en su umbral de sensibilidad a los agentes agresores. Esto quiere decir que – como por lo demás sucede en todo ámbito de los sistemas sociales contemporáneos, cada vez más neuróticamente obsesionados por el imperativo de la seguridad – es justamente la protección la que genera el riesgo del que pretende defender. El riesgo, en suma, requiere protección en una medida idéntica a aquella en que la protección produce riesgo.”
169
ESPOSITO, Roberto. Immunitas... p. 84. “La potencia vital no decae, pero a condición de someterse a la presión de lo que se le contrapone. Si se vincula esta perspectiva con la semántica mortífera del sacrificio, como hace el mismo Benveniste, de esto se puede dervar que la religión salva – o sana – la vida mediante la absorción de algo que la vincula a su opuesto. Que extrae la vida de la muerte o incluye la muerte en la vida.”
170
Jacques Derrida, outro autor chamado à causa por Esposito, também pretende por meio de um esmiuçamento das dicotomias entre as concepções de religiões e conhecimentos (no plural), entre fé e razão, entre uma salvação e um mal, expor como no contemporâneo a fé é impreterivelmente associada a uma ratio tecnológica e como esta última, em certo sentido, também depende da fé. Cf.