2.4 ARGUMENTAÇÃO NO ENSINO DE CIÊNCIAS

2.4.2 Argumentação no Ensino de Química

Dando continuidade à discussão sobre argumentação, adentramos agora na área do ensino de química, foco deste trabalho. Com isso, faremos uma articulação dos conceitos que já estamos discutindo sobre a área da argumentação e a prática docente em química, tecendo uma discussão sobre as contribuições que a argumentação traz para o ensino de química. Para tanto, iniciamos esta parte da discussão trazendo observações que temos sobre o ensino de química na educação superior, e que também são citadas por Oliveira (2015) sobre o ensino de ciências, destacando-se nesse trabalho o ensino de química.

Temos observado que o ensino de química, tanto na educação básica quanto na superior, acontece em muitos casos, por meios de fórmulas e utilização de esquemas e gráficos, isso devido a grande quantidade de símbolos que estão envolvidos nessa disciplina, sendo poucos os momentos ligados ao processo de reflexão e criticidade. Oliveira (2015, p. 257) diz que, ensinar o estudante a memorizar e repetir conceitos científicos, bem como aplicar as fórmulas na resolução de questões, acaba por não formar de maneira satisfatória cidadãos capazes de fazer leituras científicas críticas de mundo. Pois, esse ato de fazer do aluno um mero reprodutor de informações, utilizando nas aulas de química as fórmulas e outras demonstrações matemáticas, retomam o ideal de ensino tradicional, que tem o direcionamento voltado para a seleção e classificação, conforme discutimos inicialmente. Além disso, não forma o sujeito crítico reflexivo sobre as questões mundiais e capaz de mudar a sua realidade.

Paralelamente a este ensino tradicional que ainda é mobilizado em algumas Instituições de ensino superior, alguns professores têm seguido na contramão ao ensino tradicional e se preocupado em discutir as transformações que a sociedade, a ciência, a tecnologia e o meio ambiente enfrentam de forma crítica e reflexiva.

Como temos observado no curso de química-Licenciatura do Campus Agreste, em que os professores tem posto em discussão e vêm realizando atividades que provocam o aluno a pensar sobre as questões que envolvem as transformações da sociedade, e ao mesmo tempo formam o sujeito crítico que a sociedade espera.

Como exemplo disso, temos o júri simulado realizado pela professora de Química orgânica, que leva os alunos a mobilizarem os seus conhecimentos sobre uma questão socio científica que instiga e mantém o debate argumentativo. De Chiaro (2017, p. 413) afirma que “as discussões socio científicas permitem ao aluno refletir sobre os interesses sociais, políticos, econômicos e militares que estão na base dessas transformações”. Assim, as discussões socio científicas que são realizadas têm se mostrado relevantes no enfoque CTSA no ensino de química e estão diretamente ligadas ao uso da argumentação, possibilitando o desenvolvimento de habilidades, da argumentação e a formação de sujeito crítico.

Ao observarmos o ensino de química articulado com a prática da argumentação, percebemos que as atividades que envolvem a argumentação têm um importante papel quando se quer desenvolver nos alunos uma habilidade crítico reflexiva. Como afirma De Chiaro (2017, p. 415), “o uso da argumentação se constitui em interessante recurso quando a intenção da escola é promover um ensino contextualizado, reflexivo e voltado ao desenvolvimento de indivíduos comprometidos com a realidade social”. Então, com atividades que possibilitam o desenvolvimento de um ambiente em que é possível desenvolver a prática da argumentação nas aulas de química, há uma tentativa de acabar com um ensino de repetição, estimulando a reflexão e o questionamento entre os alunos, desenvolvendo a criticidade, reflexão, análise de questões e fenômenos científicos e deliberação sobre determinadas situações.

A prática da argumentação é definida por De Chiaro e Leitão (2005, p. 350) como “atividade social e discursiva que se realiza pela justificação de pontos de vista e consideração de perspectivas contrárias com o objetivo último de promover mudanças nas representações dos participantes sobre o tema discutido”. Assim, entendemos que a argumentação é vista como uma prática, um diálogo que é vivenciado ao longo das aulas e também nos momentos da realização das atividades avaliativas, e por isso vai além de um instrumento pedagógico para levar a reflexão e facilitar a aprendizagem, mas pode ser utilizada como ponto chave nas atividades avaliativas no ensino de química.

Ao direcionar o olhar para a avaliação da aprendizagem e para as atividades avaliativas, percebemos que a prática da argumentação também auxilia a avaliação da aprendizagem no sentido de fornecer ao professor subsídios para a tomada de decisão. E ainda, segundo Luckesi (2011), a argumentação auxilia a avaliação no

sentido de construir com e nos alunos conhecimentos e hábitos que possibilitem a sua formação pela assimilação ativa do legado cultural da sociedade. Pois, entendemos que a partir do diálogo e da interação que a argumentação proporciona, os alunos podem mobilizar os seus conhecimentos e estabelecer relações com outras informações além de elaborar justificativas para sustentar seus argumentos, e isto faz com que os alunos consolidem o que aprenderam de forma ativa e reflexiva.

Ademais, com a prática da argumentação, o professor consegue perceber nas situações vivenciadas, como nas falas, nos discursos e nas justificativas, os motivos pelos quais o aluno não consegue entender o conteúdo abordado nas aulas. O fato de o aluno não entender se torna um obstáculo pedagógico que impede o aluno de prosseguir adquirindo o conhecimento. Assim, ao realizar a atividade avaliativa o papel do professor é buscar conhecer como o aluno pensa e desenvolve seus argumentos, para então ajudá-los na superação destes obstáculos epistemológicos que impedem os alunos de adquirirem efetivamente o conhecimento (OLIVEIRA, 2015).

Corroborando com esse entendimento trazemos Méndez (2002, p. 84), que diz “o que devemos buscar conhecer é o processo de elaboração que o aluno seguiu, compreender as estratégias de elaboração que põe em jogo, a capacidade de argumentação que mostra as causas e os motivos que provocam os erros”.

Então, percebemos que a argumentação se mostra um recurso importante e interessante quando aliada a prática avaliativa dos professores de química, por proporcionar aos professor desenvolverem habilidades de criticidade e deliberação nos alunos, além de tornar possível compreender como se deu a aprendizagem dos alunos, de forma a conhecer quais os motivos que fazem os alunos cometem erros e então direcionar a prática docente para solucionar os problemas e obstáculos epistemológicos que surgem durante a aprendizagem.

Estamos, então, partindo do entendimento de que quando o professor percebe a incompreensão do aluno, o professor consegue saber onde estão os déficits na construção do conhecimento, e assim ele pode tomar decisões no sentido de corrigir ou aprimorar a aprendizagem dos conceitos pelo aluno. Logo, o professor pode elaborar atividades que explorem as mais diversas habilidades do aluno, e também o desenvolvimento da argumentação, como discutiremos a seguir.

No documento UNIVERSIDADE FEDERAL DE PERNAMBUCO CAMPUS AGRESTE NÚCLEO DE FORMAÇÃO DOCENTE CURSO DE QUÍMICA-LICENCIATURA VLADIMIR CAVALCANTI DA SILVA JÚNIOR (páginas 44-47)