O processo de arrendamento dos lotes é vista, entre os assentados, como uma prática condenável, afinal, é uma das demonstrações públicas de fracasso por parte daqueles beneficiários do Projeto de Reforma Agrária, isto é, que optaram por tal alternativa. Este fracasso torna explícitas as alegadas incompetências perante seus vizinhos, que acreditam, não terem sido capazes de gerirem, de maneira adequada, os espaços em que receberam para sua reprodução e também de suas famílias. Além disso, também são acusados de malandros ou oportunistas, pois não têm vontade para o trabalho, já que não demonstram aptidão para o trabalho agrícola. São até mesmo considerados não merecedores dos lotes que receberam, pois não trabalham neles e tiraram a oportunidade de outras famílias de lá estarem para serem assentadas.
Mesmo com esses constrangimentos, muitos assentados, tanto do P.A. Ilha Grande, como também do P.A. Che Guevara, valem-se dessa prática como fonte de recurso financeiro e, em muitos casos, como principal motivo para ainda estarem nos assentamentos, pois foi a única forma que encontraram para se constituírem enquanto assentados. Afinal, sozinhos não conseguiriam tornar produtivos os espaços de seus lotes.
Por outro lado, os constrangimentos dirigidos por aqueles que não aprovam tal iniciativa, não são compactuados, a princípio, pelos funcionários do INCRA, uma vez que estes nada fazem diante de tal questão. Essa neutralidade institucional é justificada, principalmente entre aqueles que arrendam seus lotes, pois admitem que caso não utilizassem desse mecanismo, não teriam condições para produzir nos lotes. Suas justificativas estão centradas em: falta de mão de obra familiar; péssimas condições de solo e água nos lotes;
incapacidade física, pois alguns assentados não possuem condições de saúde para a atividade agrícola e, em alguns casos, até mesmo por exercerem outras funções que não correspondem àquelas relacionadas, diretamente, à agricultura, como, por exemplo, ser uma das principais lideranças dos assentamentos e representar os interesses dos assentados em outros espaços.
A alegada inércia dos funcionários do INCRA diante dessa situação, também pode estar justificada no fato que muitos daqueles que arrendam áreas nos assentamentos são também assentados que, por limitações de seus lotes, diante da necessidade de expandirem suas produções ou criações, vêem como possibilidade arrendarem lotes de outros assentados, principalmente de seus vizinhos. Assim, já estando próximos dessas áreas, evitam grandes deslocamentos. Além disso, não é só a necessidade de maior produção que motiva o arrendamento de outros espaços, mas também a impossibilidade de reprodução familiar, em que famílias com filhos que desejam permanecer, mesmo depois da vida adulta, nos
assentamentos. São então impossibilitados de produzir suas próprias lavouras ou manter criações de gado, pois o tamanho de cada lote não suporta duas frentes de trabalho, ou duas lavouras de produtores independentes. Diante disso, muitos encaram, como única alternativa, o arrendamento de outros lotes para a permanência nos assentamentos.
O arrendamento consiste em alugar, por tempo indeterminado, o pedaço de terra não utilizado por algum assentado. Esse espaço é mantido por aquele que arrendou a área, arcando com todas as melhorias necessárias para a criação de algum tipo de animal ou cultivo de alguma lavoura, no caso sob responsabilidade. Assim, para a criação de gado, a construção da cocheira, instalação de cercas e porteiras cabem ao dono dos animais realizar e manter. O mesmo vale para lavouras, como a de quiabo, em que o preparo do solo, a plantação e a colheita, são feitas por quem arrendou. O dono do lote que cedeu o espaço, não tem qualquer tipo de participação nessas atividades, pois não é de sua responsabilidade.
O pagamento pela área arrendada é feita de duas maneiras: a) quando o interesse é a criação de gado, o valor cobrado é de acordo com o número de cabeças mantidas no espaço. O valor pode variar de R$10,00 até R$20,00. Essa variação corresponde principalmente ao fato de o lote possuir boas condições para a instalação dos animais (capim para pastagem, água, fácil acesso para as principais estradas que cortam os assentamentos). As variações nos valores também ocorrem para a produção de quiabo86. Novamente, a área torna-se atrativa para ser arrendada, pela qualidade não só de solo, mas também da água e facilidade de acesso às estradas.
Para ilustrar como ocorrem os arrendamentos nos assentamentos, tomarei como base dois casos de assentados, um do P.A. Che Guevara e outro do P.A. Ilha Grande. Por incapacidades encontradas em manterem suas próprias produções, decidiram arrendar seus lotes, toda a área, para outros agricultores. Também apresentarei como contraponto, o caso de um assentado, do P.A. Che Guevara que, antes de tornar-se assentado, arrendava lotes nos dois assentamentos para manter sua produção agrícola.
Como já demonstrado no início deste tópico, diversos são os motivos para o arrendamento de um lote. Carlos Cruz, presidente da Associação dos Moradores do P.A. Che Guevara, ao ingressar no assentamento, diante das limitações referentes à mão de obra familiar, uma vez que este não é casado e não possui filhos e, além disso, juntamente com ele, seus pais também decidiram residir no assentamento, porém incapazes de exercerem qualquer tipo de atividade agrícola, pois já estavam em idade avançada, a alternativa encontrada por
86Durante trabalho de campo, não foi possível constatar os valores correspondentes às áreas arrendadas para plantio de lavouras, como a de quiabo ou a de cana.
ele, para manter-se enquanto assentado rural, foi o arrendamento total de seu lote para agricultores interessados em cultivar aquele espaço.
Esta alternativa, muito criticada pelos demais assentados, foi a solução encontrada por ele para continuar exercendo as atividades que iniciou ainda no início do acampamento rural que deu origem aos assentamentos. Carlos é uma das principais lideranças do local e, por conta disso, rotineiramente precisa ausentar-se de seu lote para resolver questões burocráticas não só em Campos dos Goytacazes, como também na cidade do Rio de Janeiro. Estas ausências constantes impossibilitam qualquer tipo de atividade agrícola, por parte dele, pois muitas vezes fica dias fora do assentamento.
Para manter seu lote produtivo, Carlos optou por arrendá-lo, por completo, a outros agricultores, estes, todavia, não ligados aos assentamentos da região. São pequenos produtores de cana e quiabo, que juntos utilizam 70% do espaço para as plantações. Essas plantações são mantidas pelos arrendatários e a mão de obra que mantêm as lavouras, principalmente a de quiabo, são realizadas por diaristas que não só cuidam do plantio, como também da colheita é realizada em alguns períodos do ano, até três vezes por semana. Para as lavouras de quiabo, em geral, as áreas são arrendadas para os próprios atravessadores que abastecem não só a região de Campos dos Goytacazes, como também do Grande Rio. Já a plantação de cana, no lote de Carlos, é vendida para as usinas que ainda existem nas proximidades, mas também, em sua maioria, para atravessadores que compram a mercadoria para revenda, também em Campos ou Grande Rio, para a produção de “caldo de cana de açúcar”.
Além das plantações de cana e quiabo, o restante do lote é arrendado para um pequeno criador de gado. Esta pessoa, residente em Marreca, é dona de um açougue que abastece os mercadores do lugarejo. Para melhorar os custos de compra e revenda de carne, decidiu ele mesmo criar os animais e abatê-los por conta própria. Por este motivo, desde o ano de 2010 começou a arrendar lotes tanto no P.A. Guevara, como no P.A. Ilha Grande, para manter a criação de gado, já que não dispõe de espaço próprio para tal atividade.
É este mesmo criador que arrendou, por completo, o lote de Jair Silva, no P.A. Ilha Grande. Como já apresentei no Capítulo IV desta tese, Jair não possui família no assentamento e, além disso, nos últimos anos, viu-se impossibilitado de exercer atividades voltadas para a agricultura, pois sofreu um acidente que comprometeu uma de suas pernas.
Diante de tal impossibilidade em manter-se produtivo enquanto agricultor, a alternativa encontrada por ele também foi a de arrendar, por completo, o seu lote. O arrendamento, por ele, começou alguns anos após a constituição do assentamento, que, pelos
inúmeros imprevistos ocorridos nas tentativas de produção agrícola, perdas caracterizaram prejuízos financeiros, devido aos empréstimos feitos (PRONAF), o assentado decidiu não mais aventurar-se enquanto agricultor e, por não mais dispor de recursos financeiros e também de saúde, a solução encontrada também foi o arrendamento.
A região em que está o lote de Jair, entre os seus vizinhos mais próximos, todos utilizam deste mecanismo como principal fonte de renda. É uma área considerada de difícil produtividade, pois no período de chuva é recorrente o alagamento e, consequentemente, as perdas tanto nas lavouras como também nas criações. Por este motivo, os assentados que lá possuem lotes, sem alternativas para minimizar as perdas, optaram pelo arrendamento, em que os arrendatários criam gado.
Entre os assentados, também existem os arrendatários. É o caso de Rafael de Souza que, antes de torna-se beneficiário do Projeto de Reforma Agrária, arrendava lotes nos assentamentos, para manter suas lavouras de quiabo.
Rafael de Souza, filho de um assentado do P.A. Ilha Grande, diante da impossibilidade de expansão da produção no lote de seu pai, não só pelos limites impostos pelo tamanho do lote, como também por incompatibilidade com projeções futuras entre ele e seu pai (dono do lote), decidiu arrendar lotes de outros assentados. Foram arrendados, não ao mesmo tempo, ao total, quatro lotes, em que produziu quiabo, mas também utilizou os espaços para a criação de gado que mantém. Após tornar-se assentado, tal prática passou a não mais ser vantajosa, pois podia contar com sua própria área para produção agrícola.
A forma como são arrendados os lotes, nos assentamentos Ilha Grande e Che Guevara, assim como também como em todos os demais assentamentos da região de Campos dos Goytacazes, diferencia-se da prática realizada em Araraquara. Em Campos, como observei, os arrendamentos são realizados por pequenos produtores de cana e quiabo e também por criadores de gado, que mantêm acordos com os assentados de maneira informal, sem a presença (ou necessidade) de nenhum tipo de contrato escrito. Todo o processo é realizado pela oralidade.
Já em Araraquara, como descrevem Stetter (2004), Ferrante e Santos (2004), Borelli Filho e Souza (2013), os arrendamentos são realizados por parcerias entre o setor público e o setor privado. Isso ocorre porque, como na região ainda existem muitas usinas de cana de açúcar, é de interesse, não só dos empresários como também dos políticos do local (políticos estes que ocupam cargos como prefeito e vereadores), a expansão da produção de cana de açúcar. Para essa expansão ocorrer, utilizam áreas de assentamentos rurais para a produção de cana. Dessa forma, essas áreas são arrendadas, mediante contrato escrito, dos assentados
interessados em ceder espaço para o cultivo de cana. O espaço utilizado de cada lote, em alguns casos, corresponde a cinqüenta por cento da área total. Além disso, a produção de cana não é responsabilidade do arrendatário, como ocorre nos assentamentos de Campos dos Goytacazes, mas sim do dono do lote. Desta forma, há uma transferência de obrigações: quem mantém, com mão de obra, a produção agrícola, é o próprio assentado.
Essa prática, naquela região, é observada como vantajosa, principalmente para o poder público, pois garante a empregabilidade da população assentada, já que, de acordo com as autoridades envolvidas nesse processo, além do assentado receber uma quantia por arrendar seu lote, ele também passa a ganhar pela venda da cana de açúcar para a usina que arrendou a área.